Vírus foi identificado em um lobo-marinho encontrado morto no sul do país; ocorrência amplia a vigilância sobre a fauna, enquanto produção avícola permanece sem registros
A confirmação de gripe aviária H5N1 em mamífero abriu um novo capítulo no avanço da doença pela Austrália. Autoridades sanitárias identificaram o vírus em um lobo-marinho-de-nariz-comprido encontrado morto em Beachport, na costa da Austrália do Sul. O episódio representa a primeira detecção conhecida em um mamífero na Austrália continental, depois de semanas de circulação do agente principalmente entre aves silvestres.
A descoberta aumenta a atenção sobre a capacidade do vírus de alcançar diferentes espécies em ambientes onde aves e mamíferos compartilham áreas de alimentação e reprodução. Para o agronegócio, o ponto de maior atenção continua sendo impedir que o agente ultrapasse a barreira da fauna silvestre e alcance criações comerciais.
Gripe aviária H5N1 em mamífero muda o estágio do surto
O animal infectado foi localizado em Beachport, na região de Limestone Coast, e comunicado às autoridades em 19 de agosto. Sem ferimentos aparentes que explicassem sua morte, o lobo-marinho foi submetido a exames laboratoriais conduzidos pelo Australian Centre for Disease Preparedness, unidade científica da CSIRO.
A confirmação foi divulgada em 23 de agosto e fez parte de 11 novos eventos positivos registrados pela Austrália do Sul naquele balanço. Com as novas ocorrências, o estado chegou a 194 eventos confirmados de influenza aviária H5.
A espécie afetada, conhecida internacionalmente como long-nosed fur seal, costuma dividir regiões costeiras e áreas rochosas com grandes concentrações de aves marinhas. Esse contato ambiental cria oportunidades para exposição a secreções, fezes, carcaças e outros materiais contaminados.
Vírus ganhou espaço rapidamente entre animais silvestres
O avanço observado em agosto acontece pouco tempo depois da chegada do H5 ao continente australiano. Os primeiros registros ocorreram em junho de 2026, inicialmente envolvendo aves marinhas migratórias.
A partir daí, novas espécies e regiões passaram a apresentar resultados positivos. Dados citados pela Reuters apontavam 297 eventos confirmados em território continental australiano até 21 de agosto, demonstrando a velocidade com que o cenário sanitário mudou em aproximadamente dois meses.
A progressão também obrigou o governo a alterar a estratégia de acompanhamento. Em vez de contabilizar cada ave individualmente, as autoridades passaram a trabalhar com o conceito de eventos positivos, que podem envolver um ou vários animais encontrados em uma mesma ocorrência. A mudança busca oferecer uma leitura mais adequada da disseminação do vírus na natureza.
Por que a presença em um mamífero aumenta a preocupação
Encontrar o vírus fora do grupo das aves não significa, por si só, que tenha surgido uma nova forma de transmissão eficiente entre mamíferos. O episódio, porém, mostra que espécies expostas a ambientes contaminados também podem ser atingidas, ampliando o número de animais que precisam ser acompanhados.
O problema ganha peso especialmente em regiões costeiras, onde colônias de aves e mamíferos marinhos convivem em áreas relativamente pequenas.
A Austrália já reconheceu que erradicar o H5 da fauna silvestre não é tecnicamente viável depois do estabelecimento de transmissão entre aves selvagens. Por isso, a estratégia nacional passou a priorizar monitoramento, resposta sanitária, proteção de espécies vulneráveis e redução do risco de entrada do vírus nos sistemas produtivos.
Gripe aviária H5N1 em mamífero já provocou forte mortalidade em território australiano
O caso de Beachport é o primeiro confirmado em um mamífero na Austrália continental, mas o país já conhecia os efeitos do H5N1 sobre mamíferos em seu território externo.
Na remota Ilha Heard, localizada no Oceano Austral e a mais de 4 mil quilômetros da Austrália continental, o H5N1 do clado 2.3.4.4b foi confirmado em elefantes-marinhos-do-sul em novembro de 2025. Testes posteriores também identificaram o agente em outras espécies, como lobos-marinhos-antárticos e pinguins.
Levantamentos do Programa Antártico Australiano mostraram a dimensão do impacto. De uma produção estimada em aproximadamente 17 mil filhotes de elefante-marinho, cerca de 13 mil morreram na Ilha Heard.
A mortalidade média estimada nas áreas acompanhadas chegou a 76%, enquanto um dos locais pesquisados apresentou índice próximo de 97%. Os números ajudaram a demonstrar o potencial do vírus para provocar perdas expressivas em populações animais concentradas em áreas de reprodução.
Produção de aves continua fora do surto
Apesar da expansão entre animais selvagens, há uma diferença fundamental para o agronegócio australiano: não foram detectados casos de H5 na avicultura comercial nem no sistema de produção agropecuária do país, segundo o Departamento de Agricultura australiano.
Manter essa barreira se tornou um dos principais objetivos das medidas de biossegurança.
Granjas precisam reduzir ao máximo as possibilidades de contato entre aves comerciais e animais silvestres, além de reforçar procedimentos envolvendo água, alimentação, veículos, equipamentos, trabalhadores e visitantes.
A circulação mais ampla no ambiente aumenta a exposição potencial e transforma a prevenção dentro das propriedades em uma ferramenta ainda mais importante para evitar consequências econômicas.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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