Conheça o “Império do Sisal”: Brasil domina produção mundial da fibra e Bahia concentra 95% da safra nacional

Cultivado principalmente no semiárido baiano, sisal brasileiro responde por quase 40% da oferta mundial e abastece uma cadeia que transforma a fibra resistente em fios, cordas, revestimentos e produtos exportados para dezenas de países

Poucas culturas agrícolas brasileiras apresentam uma concentração territorial tão impressionante quanto o sisal. No sertão da Bahia, extensas áreas ocupadas pela Agave sisalana formam o centro de uma cadeia produtiva que colocou o Brasil na liderança mundial da fibra. Em 2024, o país produziu cerca de 93,3 mil toneladas, equivalentes a 39,9% da produção global, enquanto o território baiano respondeu por aproximadamente 94,8% da safra nacional, segundo dados reunidos pela Conab a partir de informações do IBGE e da FAO.

Essa combinação entre domínio internacional e forte concentração regional criou uma espécie de Império do Sisal no semiárido brasileiro. Mais do que uma cultura tradicional, o agave movimenta produtores rurais, trabalhadores envolvidos no processamento, indústrias de beneficiamento e uma relevante corrente de exportações.

Império do Sisal coloca Brasil no topo do mercado mundial

A produção mundial de sisal alcançou aproximadamente 234 mil toneladas em 2024. Nesse mercado, o Brasil ocupou a primeira posição com folga, seguido pela Tanzânia, responsável por 26,2% do volume global.

Quênia, Madagascar e China aparecem entre os demais produtores relevantes, mas com participações significativamente menores.

A liderança brasileira chama atenção principalmente porque ocorre mesmo após uma redução expressiva da produção nacional ao longo da última década. Em 2015, o país produziu mais de 183 mil toneladas. Nove anos depois, o volume estava pouco acima da metade desse patamar.

O cenário mostra que o protagonismo brasileiro não depende apenas de grandes volumes absolutos, mas também da especialização construída ao longo de décadas no semiárido nordestino.

Bahia concentra quase toda a produção brasileira

Dentro do território nacional, o mapa do sisal é praticamente baiano.

Em 2024, a Bahia foi responsável por 94,8% da fibra produzida no Brasil. A Paraíba apareceu muito atrás, com cerca de 5,1%, enquanto a participação do Ceará foi residual.

A produção se concentra especialmente em áreas do Nordeste e do Centro-Norte do estado. Municípios como Campo Formoso, Araci e Conceição do Coité ocupam posições de destaque no ranking nacional.

Campo Formoso, sozinho, respondeu por quase um quarto de toda a produção brasileira em 2024. Ao lado de Araci e Conceição do Coité, o município ajuda a formar um dos maiores polos mundiais especializados no cultivo do agave.

Segundo a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), a cultura está presente em dezenas de municípios baianos e possui forte vínculo com a agricultura familiar, característica que amplia sua importância econômica e social para comunidades do semiárido.

O que torna o sisal tão adaptado ao sertão

A força da cultura na Bahia não ocorreu por acaso.

Originária de regiões de clima seco, a Agave sisalana possui características que permitem seu desenvolvimento em ambientes marcados por altas temperaturas e chuvas irregulares. Essa capacidade de adaptação transformou a planta em uma alternativa agrícola importante para áreas onde diversas culturas encontram maior dificuldade de produção.

As folhas armazenam a matéria-prima utilizada na obtenção da fibra. Depois da colheita, passam pelo processo de desfibramento, que remove a parte vegetal e preserva os filamentos resistentes que seguem para secagem e beneficiamento.

É a partir desse material que começa uma cadeia industrial muito maior do que a aparência simples da planta pode sugerir.

Da lavoura para cordas, fios e produtos industriais

A resistência é uma das características mais valorizadas da fibra de sisal.

Depois de processado, o material pode ser transformado em fios, cordas, cordéis agrícolas, tapetes, revestimentos e diferentes componentes utilizados pela indústria.

Um dos usos tradicionais está ligado ao próprio agronegócio. Cordéis produzidos com sisal são utilizados em equipamentos para amarrar e enfardar produtos agrícolas, criando uma conexão direta entre a cultura cultivada no sertão e outras cadeias produtivas.

A crescente demanda por matérias-primas renováveis também abriu novas possibilidades. Por ser uma fibra vegetal, o sisal desperta interesse em aplicações que buscam substituir materiais sintéticos ou reduzir a dependência de derivados do petróleo.

Exportações levam o sisal brasileiro a dezenas de países

Boa parte da força econômica da cadeia está fora do mercado doméstico.

Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 63,9 mil toneladas de sisal e produtos derivados, segundo dados do Comex Stat compilados pela Conab. As vendas internacionais movimentaram cerca de US$ 86,3 milhões.

Os produtos brasileiros chegaram a 87 países, demonstrando a abrangência comercial da fibra produzida no Nordeste.

A China foi o principal destino em volume, seguida pelos Estados Unidos. Portugal e México também figuraram entre compradores importantes.

O resultado reforça o papel do sisal como produto de exportação e explica por que oscilações na demanda internacional, no câmbio e nos preços externos possuem impacto direto sobre produtores e empresas localizadas no semiárido.

Apenas uma pequena parte do agave vira fibra

Um dos maiores desafios da cadeia também pode representar sua principal oportunidade.

No modelo tradicional de beneficiamento, apenas uma pequena parcela da massa total da planta é efetivamente transformada em fibra comercial. Estudos e projetos voltados ao setor indicam que o aproveitamento gira em torno de 4% da biomassa do agave.

Isso significa que grande parte do material disponível após o processamento ainda possui baixo aproveitamento econômico.

Nos últimos anos, pesquisadores e instituições começaram a observar esse resíduo como uma possível nova fonte de valor para a cadeia.

Império do Sisal pode ganhar novos mercados com a biomassa

Entre as iniciativas que buscam mudar esse cenário está o Replanta Agave, projeto desenvolvido pela ABDI em parceria com o Governo da Bahia.

A proposta envolve modernização produtiva e pesquisas para ampliar o aproveitamento da planta além da fibra tradicional.

Entre as possibilidades estudadas estão a utilização da biomassa na produção de biocombustíveis, alimentação animal, bioplásticos e outros produtos de origem renovável.

Caso essas alternativas consigam alcançar escala comercial, o impacto poderá ser relevante. O produtor deixaria de depender quase exclusivamente da fibra e passaria a obter valor de partes da planta que atualmente possuem utilização limitada.

A diversificação também poderia fortalecer a competitividade do setor diante de oscilações nos preços internacionais da fibra.

Modernização é o próximo desafio da cadeia

Apesar da liderança mundial, o setor ainda convive com gargalos importantes.

Parte do processamento permanece dependente de métodos tradicionais, enquanto a mecanização, a segurança dos trabalhadores, o aumento da produtividade e a renovação dos sisalais continuam entre os temas discutidos por entidades ligadas à atividade.

Projetos desenvolvidos na Bahia em parceria com instituições como a Embrapa buscam justamente aproximar novas tecnologias dos produtores e ampliar a eficiência desde o cultivo até o beneficiamento.

O objetivo não é apenas recuperar volumes históricos de produção, mas aumentar o valor gerado por hectare e por planta.

Para uma cultura profundamente ligada à economia do semiárido, essa transformação pode ser decisiva.

O sisal já deu ao Brasil a liderança de um mercado global e transformou parte do interior baiano em referência mundial na produção de fibras naturais. Agora, o próximo capítulo desse Império do Sisal pode surgir não apenas das fibras extraídas das folhas, mas da capacidade de aproveitar melhor toda a planta e criar novas fontes de renda para quem vive dessa cadeia.

VEJA MAIS:

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias

Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM
NEWSLETTER COMPRERURAL

Receba as nossas
principais notícias

Conteúdo sobre o agronegócio, direto no seu e-mail.

🔒 Não enviamos spam. Você pode cancelar quando quiser.