Pesquisa publicada na Nature analisou mais de 120 anos de registros na bacia do Mississippi e estimou que a calagem retirou, em termos líquidos, entre 300 milhões e 400 milhões de toneladas de CO₂ da atmosfera. Resultado abre uma investigação importante para países de solos ácidos, como o Brasil.
O calcário aplicado às lavouras é conhecido por corrigir a acidez do solo, reduzir a toxicidade do alumínio e melhorar o aproveitamento de água e nutrientes pelas plantas. Uma pesquisa liderada pela Universidade Yale, nos Estados Unidos, aponta que essa prática pode ter também um efeito climático pouco reconhecido: a remoção líquida de CO₂ no longo prazo.
Publicado em 23 de setembro na revista Nature, o estudo reconstruiu mais de 120 anos de calagem e de mudanças na química da água na bacia do Rio Mississippi. Segundo os pesquisadores, as aplicações de calcário realizadas na região desde 1900 resultaram em uma remoção líquida estimada entre 300 milhões e 400 milhões de toneladas de CO₂. É um valor acumulado ao longo de mais de um século, e o resultado ainda não pode ser transferido diretamente para lavouras brasileiras.
Por que a conta do carbono mudou
A aplicação de calcário costuma ser registrada como fonte de CO₂ em inventários de emissões porque determinadas reações dos carbonatos podem liberar o gás. Os autores do estudo propõem uma conta mais ampla: além de acompanhar o destino do calcário aplicado, é preciso considerar o que aconteceria com a acidez do solo se ele não fosse utilizado.
Ao combinar registros históricos de calagem com dados sobre a composição química da água na bacia do Mississippi, os pesquisadores concluíram que o balanço de longo prazo foi de remoção líquida de carbono. Isso não significa que o calcário nunca libere CO₂. O próprio artigo observa que pode haver emissão inicial antes de o efeito acumulado se tornar favorável à remoção — uma diferença relevante para qualquer tentativa de contabilizar créditos de carbono.
Parte do processo envolve a formação de bicarbonato, que pode ser transportado pela água do solo até rios e outros reservatórios. O resultado depende das reações químicas e do comportamento da água em toda a região analisada. Por isso, o número divulgado pelos cientistas representa um balanço estimado para a bacia do Mississippi, e não uma taxa fixa de captura por tonelada de calcário aplicada em uma fazenda.
O que a descoberta significa para o Brasil
A pergunta tem peso especial para a agricultura brasileira. Em grande parte do Cerrado, a acidez natural do solo, a presença de alumínio em níveis prejudiciais e os baixos teores de cálcio e magnésio impõem limites ao desenvolvimento das culturas. A calagem ajuda a superar essas restrições e favorece o crescimento das raízes, ampliando a capacidade das plantas de explorar água e nutrientes.
Mas não há, neste estudo, uma estimativa de quanto carbono a calagem remove nas condições brasileiras. Solos, clima, disponibilidade de água e histórico de manejo podem alterar o resultado. A descoberta oferece uma razão para medir esse balanço em sistemas tropicais, especialmente nas áreas onde corrigir a acidez já é parte essencial da produção.
Também não autoriza aumentar as doses de calcário com o objetivo de capturar mais carbono. A recomendação de calagem continua dependendo da análise de solo e da necessidade da cultura. O benefício climático sugerido pela pesquisa precisa ser investigado sem perder de vista a finalidade agronômica da prática.
Isso pode gerar créditos de carbono?
Ainda não. Antes de associar a calagem a uma receita no mercado de carbono, seria necessário demonstrar quanto CO₂ é efetivamente removido em cada condição, por quanto tempo esse carbono permanece fora da atmosfera e qual parcela do resultado pode ser atribuída ao manejo adotado.
O estudo, porém, abre uma discussão concreta: uma prática que o produtor já utiliza para construir a fertilidade do solo pode ter um efeito climático que os métodos atuais de contabilização não capturam por completo. Para o Brasil, o próximo passo é verificar se esse efeito também ocorre nos solos tropicais e qual é sua magnitude.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.