Calor extremo expulsa rebanhos das montanhas e muda tradição centenária na Europa

Seca histórica na Áustria deixa pastagens alpinas sem água e capim, força produtores a antecipar a descida do gado e já pressiona estoques de feno e frigoríficos

O calor extremo expulsa rebanhos das montanhas da Áustria antes do período habitual de retorno às propriedades. A falta prolongada de chuva reduziu a oferta de água e de alimento nas pastagens alpinas, obrigando pecuaristas a interromper antecipadamente uma rotina praticada há gerações na região.

A situação foi relatada pela Reuters em 11 de agosto de 2026, após ouvir produtores atingidos pela combinação de altas temperaturas e precipitação abaixo do normal.

Calor extremo expulsa rebanhos das montanhas antes do fim do verão

Na Alta Áustria, o produtor de leite Johann Fessl costuma manter o gado durante o verão em áreas de pastagem localizadas a cerca de 1.300 metros de altitude.

Em 2026, porém, as condições mudaram. A vegetação disponível diminuiu rapidamente e alguns pontos usados pelos animais ficaram sem água suficiente, tornando necessária a retirada antecipada dos bovinos.

A movimentação sazonal dos rebanhos é parte importante da pecuária austríaca. Dados do governo do país indicam que mais de 23 mil propriedades utilizam aproximadamente 8 mil áreas de pastagens alpinas, que somam mais de 320 mil hectares.

Tradição alpina atravessa gerações

A subida e a descida sazonal dos animais fazem parte da chamada transumância, sistema no qual os rebanhos são deslocados conforme a disponibilidade de pastagens ao longo do ano.

A prática possui valor econômico e cultural para comunidades rurais europeias e integra a Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Na Áustria, a antecipação do retorno dos animais mostra como eventos climáticos extremos já começam a interferir no calendário tradicional das propriedades.

Seca histórica atingiu a Áustria em 2026

Os problemas registrados nas áreas rurais coincidem com um período excepcionalmente seco.

Segundo a GeoSphere Austria, serviço oficial de meteorologia do país, a primavera de 2026 foi a mais seca em 169 anos de registros. Entre março e maio, a quantidade de chuva ficou aproximadamente 50% abaixo da média registrada entre 1991 e 2020.

O déficit continuou ao longo do verão. Até 27 de julho, o país havia acumulado cerca de 426 milímetros de precipitação, contra uma média histórica de aproximadamente 609 milímetros para o mesmo período.

As temperaturas também ficaram elevadas. Durante junho, algumas regiões chegaram aos 40°C, enquanto dezenas de estações meteorológicas registraram novos recordes mensais.

Falta de pasto aumenta custo dentro das propriedades

A retirada dos animais das montanhas cria outro problema para os produtores.

Sem disponibilidade suficiente de pastagem nas áreas mais baixas, parte dos pecuaristas começou a utilizar feno armazenado para o inverno. O consumo antecipado dessas reservas pode obrigar as propriedades a comprar alimentação complementar nos próximos meses.

Esse gasto adicional pesa principalmente sobre sistemas de produção que dependem do aproveitamento das pastagens durante boa parte do verão.

Calor extremo expulsa rebanhos das montanhas e antecipa abates

Para alguns produtores, reduzir o número de animais passou a ser uma alternativa diante da dificuldade de alimentá-los.

A Reuters relata que pecuaristas já estão encaminhando parte do gado para abate antes do planejado, provocando aumento da procura por frigoríficos em determinadas regiões.

A Áustria mantinha cerca de 1,81 milhão de bovinos em dezembro de 2025, segundo a Statistics Austria. Ainda não existem dados nacionais consolidados que permitam medir quanto a seca de 2026 aumentará os abates ao longo do ano.

Por isso, os relatos atuais indicam uma pressão crescente sobre o setor, mas ainda não permitem afirmar que existe um aumento generalizado em todo o país.

Impacto também chega às lavouras

A pecuária não é o único segmento afetado.

Estimativas da AgrarMarkt Austria (AMA) citadas pela Reuters apontam para uma possível queda de aproximadamente 19% na produção de grãos em 2026. Culturas mais sensíveis à falta de água também vêm perdendo produtividade.

O cenário mostra como uma mesma sequência de calor e escassez de chuvas pode atingir diferentes etapas da produção agrícola: reduz o rendimento das lavouras, compromete as pastagens e aumenta a necessidade de alimentação armazenada.

Para os criadores que dependem das áreas alpinas durante o verão, a mudança já é concreta. O calendário tradicional dos rebanhos teve de ser adaptado a uma realidade na qual água e capim deixaram de estar disponíveis pelo período normalmente esperado.

VEJA MAIS:

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias

Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM