Estudo com 240 equídeos encontrou alterações da enzima TK1 associadas a diferentes tipos de tumor e aponta caminho para exames menos invasivos, mas método ainda não está pronto para a rotina veterinária
Uma enzima presente no sangue pode ajudar veterinários a investigar alguns tipos de câncer em cavalos, inclusive quando o tumor está localizado dentro do organismo e é difícil de confirmar pelos exames disponíveis. A indicação vem de um estudo publicado em março de 2026 na Veterinary Oncology, que analisou a atividade da timidina quinase 1, conhecida como TK1, em 240 equídeos.
Os resultados são promissores, mas não significam que já exista um exame de sangue capaz de diagnosticar sozinho um câncer equino. O teste utilizado pelos pesquisadores exige técnica laboratorial específica, e a TK1 não permite determinar qual tumor está presente. A proposta, neste momento, é que o marcador seja investigado como ferramenta complementar à avaliação clínica, exames de imagem e análise de tecidos. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
O que a pesquisa encontrou no sangue dos cavalos
As amostras vieram do biobanco do Instituto Suíço de Medicina Equina, na Suíça. Os animais com câncer foram identificados retrospectivamente entre maio de 2015 e janeiro de 2025 e, salvo exceções previstas para melanomas, os tumores precisavam ter confirmação histológica para inclusão no trabalho.
O grupo com neoplasias reuniu 91 equídeos: 14 com linfoma, 14 com sarcoide, 17 com carcinoma de células escamosas, 15 com melanoma, 11 com tumor de células da granulosa ovariana, oito com (adeno)carcinomas, quatro com hemangiossarcoma e oito com outros tumores sólidos internos.
Outros 149 cavalos formaram os grupos de comparação. Desse total, 42 eram controles considerados saudáveis e 107 apresentavam doenças não neoplásicas. A separação é relevante porque permite verificar se uma alteração sanguínea está ligada ao câncer ou se também aparece com frequência em animais doentes por outras causas.
A TK1 participa de processos ligados à síntese de DNA e à multiplicação celular. Como células tumorais podem se proliferar de maneira intensa e desregulada, a atividade dessa enzima no sangue vem sendo estudada como possível biomarcador de câncer.
Essa linha de investigação não começou agora. Em 2021, pesquisadores já haviam encontrado níveis significativamente maiores de TK1 em cavalos com linfoma. Naquele trabalho, o marcador alcançou AUC de 0,92 na comparação com cavalos saudáveis e 0,88 quando os animais com linfoma foram comparados a cavalos com outras doenças.
O novo estudo ampliou a pergunta: a alteração também poderia aparecer em outros tumores?
TK1 apresentou resultados fortes em sarcoide, melanoma e outros tumores
Na comparação direta das concentrações sanguíneas, a atividade da TK1 ficou significativamente maior em animais com linfoma, sarcoide, carcinoma de células escamosas, melanoma e outros tumores sólidos internos.
O mesmo padrão não foi demonstrado de forma consistente para (adeno)carcinomas, hemangiossarcoma e tumor de células da granulosa ovariana. No hemangiossarcoma, houve uma diferença em uma das comparações, mas com efeito pequeno e somente quatro animais nesse grupo.
Quando os pesquisadores avaliaram a capacidade do teste de separar animais com e sem determinadas neoplasias por meio da curva ROC, alguns números chamaram atenção.
O sarcoide apresentou AUC de 0,98, tanto na comparação com cavalos saudáveis quanto com animais portadores de outras doenças. O melanoma atingiu 0,97, e o carcinoma de células escamosas, 0,96. Para o linfoma, o resultado ficou em 0,90 nas duas comparações.
A AUC varia de 0,5, situação em que o teste praticamente não consegue separar os grupos, até 1, que representa discriminação perfeita dentro da amostra estudada.
Isso significa que uma AUC de 0,98 não equivale a dizer que o exame tem 98% de precisão para diagnosticar câncer em qualquer cavalo. O resultado mostra a separação obtida entre os grupos específicos analisados na pesquisa e não deve ser interpretado isoladamente como probabilidade individual de doença.
Essa cautela fica clara no próprio artigo. Embora o hemangiossarcoma tenha apresentado AUC entre 0,92 e 0,94, havia somente quatro animais com esse tumor. Os autores classificam os resultados dos grupos menores como exploratórios e defendem estudos maiores antes de qualquer aplicação clínica ampla.
No grupo de (adeno)carcinomas, o desempenho foi bem inferior: a AUC ficou entre 0,55 e 0,66 e não apresentou significância estatística, indicando pouca capacidade de diferenciação nessa amostra.
Por que um marcador no sangue poderia fazer diferença
Tumores localizados na pele ou em regiões externas podem ser percebidos durante a inspeção do animal e investigados por meio de biópsia. Já uma neoplasia no tórax ou no abdômen apresenta um desafio maior.
Segundo os autores, o tamanho dos equinos também restringe o emprego de equipamentos convencionais de tomografia computadorizada e ressonância magnética para investigação tridimensional de áreas internas. Radiografia e ultrassonografia ajudam em determinados casos, mas nem sempre conseguem fechar o diagnóstico.
Procedimentos mais invasivos podem então ser necessários para obter material para análise histopatológica. Dependendo da localização do tumor, das condições do animal e dos custos envolvidos, isso pode ser complexo. Há situações em que uma neoplasia interna só acaba confirmada depois da morte do animal, segundo a própria revisão apresentada pelos pesquisadores.
É justamente nesse espaço que um biomarcador sanguíneo poderia ganhar utilidade: não para dizer sozinho qual câncer o cavalo possui, mas para acrescentar informação diante de uma suspeita clínica e ajudar a decidir quais investigações devem vir em seguida.
Em casos externos, a utilidade poderá ser diferente. O sarcoide, por exemplo, é um tumor cutâneo conhecido na clínica de equinos. Um caso envolvendo a doença já ganhou destaque no Brasil com o cavalo Hope, diagnosticado com sarcoide equino fibroblástico.
Exame ainda está distante da rotina dos haras
Há uma barreira técnica importante antes que a descoberta possa chegar às propriedades.
A atividade de TK1 foi medida utilizando timidina marcada com trítio, uma substância radioativa. O procedimento requer equipamentos, reagentes e cuidados laboratoriais específicos e não corresponde a um exame simples que possa ser solicitado atualmente em qualquer clínica veterinária.
Existe um teste comercial por quimioluminescência utilizado para TK1, mas os próprios autores destacam dúvidas sobre sua confiabilidade em cavalos.
Uma das possibilidades apontadas para o futuro é desenvolver um ensaio específico para a espécie, como um ELISA para TK1 equina, ou até uma ferramenta que permita análise no próprio local de atendimento.
Até que isso aconteça, os resultados têm caráter de pesquisa e não justificam substituir métodos diagnósticos já estabelecidos.
Outro marcador sanguíneo não funcionou da mesma forma
Os pesquisadores também testaram a amiloide A sérica, ou SAA, uma proteína utilizada principalmente como marcador de processos inflamatórios em cavalos.
Essa parte da análise incluiu 112 animais.
Ao contrário do observado com a TK1, a concentração de SAA não apresentou diferenças significativas entre nenhum dos oito grupos de tumores e os controles com doenças não neoplásicas. Para os autores, os dados não apoiam seu uso como marcador específico de câncer equino.
O resultado ajuda a mostrar por que encontrar um biomarcador realmente útil é difícil: alterações no sangue podem ocorrer por diversos motivos e um teste precisa ser capaz de acrescentar informação além daquela já provocada por inflamação, infecção ou outras enfermidades.
Linfoma mostra por que resultado positivo precisa de contexto
Um dos pontos mais interessantes do estudo aparece quando os pesquisadores levam em consideração a frequência esperada das doenças.
Mesmo com boa AUC para linfoma, a neoplasia é relativamente rara na população equina. Por isso, um resultado positivo de TK1 isoladamente produziu aumento limitado na probabilidade de o animal realmente ter a doença.
Os pesquisadores consideram que o marcador pode ser mais útil quando já existe suspeita clínica, por exemplo diante de perda de peso persistente sem explicação ou febre que não responde ao tratamento esperado.
Na prática, isso reforça uma diferença essencial entre rastreamento e investigação diagnóstica. Um exame pode apresentar bom desempenho em animais selecionados por suspeita clínica e, ainda assim, não ser adequado para testar indiscriminadamente toda uma população.
A observação diária continua sendo fundamental para perceber alterações no estado geral do animal. Mudança de comportamento, perda de apetite, redução de peso ou outras alterações persistentes justificam avaliação veterinária, como detalhado no conteúdo sobre sinais de alerta que ajudam a identificar quando um cavalo está doente.
Amostra pequena ainda exige cautela
Embora os 240 animais formem uma base relevante para investigar o marcador, o número diminui bastante quando os casos são separados por tipo de câncer.
Havia somente quatro hemangiossarcomas, por exemplo, além de oito (adeno)carcinomas e oito animais agrupados na categoria de outros tumores sólidos internos.
Os autores reconhecem ainda que algumas categorias reuniram neoplasias diferentes entre si, o que dificulta transformar os resultados em conclusões aplicáveis a um tipo específico de câncer. Para vários grupos, sequer havia dados prévios suficientes para calcular antecipadamente o tamanho ideal da amostra.
A idade também deverá ser observada nos próximos trabalhos. Entre os animais-controle, os pesquisadores encontraram associação fraca, mas estatisticamente significativa, entre animais mais jovens e maior atividade de TK1. No caso dos sarcoides, análises adicionais indicaram que a diferença etária não explicava sozinha a elevação do marcador, mas os autores defendem novas pesquisas sobre possíveis valores de referência relacionados à idade.
O artigo também declara potenciais conflitos de interesse: alguns integrantes do grupo possuíam vínculo profissional, participação societária, atuação como consultor ou presença em conselho científico da empresa Alertix Veterinary Diagnostic AB. A informação foi registrada pelos próprios autores na publicação.
Esse tipo de declaração não invalida os resultados, mas reforça a importância de reprodução independente e estudos multicêntricos com amostras maiores antes que o marcador seja incorporado à rotina clínica.
Pesquisa abre uma nova frente para a medicina equina
O trabalho não entrega um exame pronto, mas amplia uma linha de investigação que até poucos anos atrás estava concentrada principalmente no linfoma.
Se estudos maiores confirmarem que a TK1 consegue identificar alterações associadas a diferentes neoplasias e métodos mais simples de medição forem desenvolvidos, o sangue poderá fornecer aos veterinários mais uma peça para montar o quebra-cabeça diagnóstico dos tumores equinos.
O avanço seria especialmente relevante nos casos em que o problema não está visível externamente e localizar uma massa exige procedimentos caros ou invasivos.
Por enquanto, a principal conclusão é mais cautelosa: a TK1 demonstrou potencial como biomarcador complementar de alguns tipos de câncer em cavalos, mas ainda não pode ser usada como exame isolado de diagnóstico ou rastreamento. Essa etapa dependerá de validação em populações maiores, padronização do método e avaliação de seu desempenho em condições reais de atendimento veterinário.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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