Cavalo raro de Roraima pode ser classificado como invasor e preocupa criadores

Adaptado há mais de 200 anos às savanas de Roraima, o cavalo lavradeiro entrou em uma proposta de classificação ambiental contestada pela CNA e que levanta preocupações sobre sua conservação.

Um dos cavalos mais raros e adaptados às condições naturais do Brasil está no centro de uma discussão que preocupa criadores e pesquisadores. Conhecido como cavalo lavradeiro, o animal vive nas savanas de Roraima e desenvolveu, ao longo de mais de dois séculos, características de resistência ao calor, rusticidade e capacidade de sobrevivência em pastagens naturais. Agora, sua inclusão em uma proposta de lista nacional de espécies exóticas invasoras colocou em debate o futuro da conservação desse patrimônio genético brasileiro.

O assunto ganhou destaque em 23 de outubro de 2026, durante reunião da Comissão Nacional de Equideocultura da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A entidade questionou os critérios utilizados na proposta discutida no âmbito da Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), argumentando que a classificação precisa considerar a importância histórica, econômica e genética desses animais. Até o momento, a discussão não representa uma proibição da criação do cavalo lavradeiro.

Por que o cavalo lavradeiro entrou na discussão ambiental?

O debate envolve a definição de espécies exóticas invasoras, classificação aplicada a organismos introduzidos fora de sua distribuição natural e cuja presença ou expansão ameaça a biodiversidade.

Embora seja considerado um cavalo tipicamente brasileiro, o lavradeiro descende de equinos introduzidos durante a colonização. Ao longo de gerações, esses animais se adaptaram às condições das savanas de Roraima, formando uma população com características próprias.

A CNA questiona se existem evidências suficientes para justificar seu enquadramento como invasor.

Durante a reunião, representantes da entidade destacaram que a densidade estimada em determinadas áreas seria de aproximadamente um cavalo para cada 400 hectares, argumento utilizado para contestar a existência de impactos ambientais relevantes.

Entretanto, a densidade isoladamente não comprova ausência de danos. A avaliação ambiental também precisa considerar os efeitos sobre a vegetação, o solo e a fauna nativa.

Um cavalo moldado pelas condições da Amazônia

O cavalo lavradeiro possui uma história diretamente ligada à ocupação pecuária de Roraima. Pesquisas da Embrapa apontam que a introdução de equinos na região ganhou força a partir do final do século XVIII.

Com o passar dos anos, os animais desenvolveram características que favoreceram sua sobrevivência em ambientes de pastagens naturais, temperaturas elevadas e períodos de restrição alimentar.

Entre suas particularidades estão o pequeno porte, peso próximo de 280 quilos, cascos resistentes e elevada rusticidade.

Apesar dessas qualidades, pesquisadores demonstram preocupação com sua conservação.

Levantamentos históricos da Embrapa, realizados na década de 1990, estimaram entre 1.260 e 1.680 cavalos adultos com características típicas do lavradeiro. Esses números não representam a população atual, mas ajudam a compreender a importância de preservar sua identidade genética.

O cruzamento indiscriminado com outras raças e a transformação dos sistemas tradicionais de criação estão entre os fatores que podem comprometer a manutenção dessas características.

Embrapa e CNA defendem critérios mais específicos

A Embrapa acompanha o cavalo lavradeiro há décadas e desenvolve trabalhos voltados à caracterização e conservação de recursos genéticos animais.

Durante audiência pública na Câmara dos Deputados, em maio de 2026, representantes da instituição defenderam que a classificação de espécies considere evidências científicas e também os impactos econômicos e sociais das decisões.

A CNA reforçou esse entendimento na reunião de outubro, destacando a necessidade de diferenciar animais historicamente utilizados na produção agropecuária de populações que efetivamente provoquem desequilíbrios ambientais.

A discussão é particularmente relevante para o Brasil, que possui diferentes grupos de equinos adaptados às condições regionais, incluindo o cavalo Pantaneiro.

Criadores podem ser obrigados a retirar os animais?

Não existe uma determinação nacional automática para retirada, proibição da criação ou abate dos cavalos lavradeiros em razão da proposta discutida.

A Resolução Conabio nº 16, de maio de 2026, estabelece que a inclusão de uma espécie nas categorias previstas não impede, por si só, seu aproveitamento econômico, criação ou manutenção.

O processo de avaliação permanece em andamento. Em setembro, os trabalhos do grupo responsável pela discussão foram prorrogados por mais seis meses.

Embora uma eventual classificação possa orientar futuras medidas de manejo ambiental, qualquer restrição concreta dependerá das normas aplicáveis e das decisões das autoridades competentes.

O que está em jogo para a equinocultura brasileira?

Mais do que uma discussão sobre nomenclatura ambiental, o caso envolve a preservação de características genéticas construídas ao longo de gerações e a segurança dos criadores que mantêm animais tradicionalmente ligados à pecuária regional.

Para o setor, o principal desafio será conciliar a conservação da biodiversidade com a proteção de populações equinas historicamente adaptadas ao território brasileiro.

No caso do lavradeiro, ampliar os estudos populacionais, fortalecer programas de conservação genética e estabelecer critérios ambientais específicos são medidas importantes para evitar tanto impactos ecológicos quanto a perda de um patrimônio animal singular.

O desfecho da discussão poderá servir de referência para o tratamento de outros grupos de animais regionalmente adaptados no país.

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