Animais levados do México ao Texas escapam de inspeções veterinárias, enquanto autoridades investigam possíveis redes criminosas envolvidas no esquema
O contrabando de cavalos na fronteira dos Estados Unidos passou a preocupar autoridades sanitárias em meio ao avanço da bicheira do Novo Mundo. Uma investigação da Reuters revelou que animais estão sendo levados clandestinamente do México ao Texas por trechos rasos do Rio Grande, sem inspeção veterinária, certificados de saúde ou quarentena.
A principal preocupação é que um animal ferido ou infectado possa entrar no país sem ser identificado. Até o momento, porém, não existe comprovação de que os cavalos contrabandeados tenham provocado ou disseminado os casos registrados nos Estados Unidos. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Mais de 50 cavalos foram interceptados
No fim de maio de 2026, policiais encontraram seis cavalos dentro de um reboque perto de Redford, no Condado de Presidio, Texas. A apuração indicou que os animais haviam atravessado o Rio Grande a pé antes de serem recolhidos do lado norte-americano.
Os equinos não estavam infestados pela bicheira. O episódio, entretanto, mostrou como animais podem entrar nos Estados Unidos sem passar pelos procedimentos sanitários exigidos no comércio regular.
O sargento Jaime Sanchez, do gabinete do xerife de Presidio, informou à Reuters que mais de 50 cavalos contrabandeados foram interceptados no condado nos últimos dois anos. Alguns animais podem valer pelo menos US$ 30 mil no mercado clandestino, segundo o policial.
Autoridades locais atribuem parte das travessias a redes criminosas que também utilizam a região para transportar pessoas e drogas. Os cavalos seriam posteriormente destinados a propriedades rurais, corridas, rodeios, trabalhos no campo ou competições equestres.
Contrabando dificulta controle da bicheira nos EUA
A bicheira é provocada pelas larvas da mosca Cochliomyia hominivorax, que deposita ovos em feridas de animais de sangue quente. Depois da eclosão, as larvas alimentam-se de tecido vivo, ampliando as lesões e podendo causar infecções, perda de peso e morte.
Bovinos, cavalos, animais silvestres, cães e seres humanos podem ser atingidos. Por isso, a entrada clandestina de equinos representa uma falha de biossegurança: caso um animal esteja contaminado, ele pode circular sem avaliação veterinária ou registro de origem e destino.
A agência sanitária mexicana Senasica havia confirmado mais de 2 mil ocorrências em equinos desde o início do surto, em 2024, conforme os dados apresentados pela Reuters. Pesquisadores alertam que a movimentação de animais pode transportar o parasita por distâncias muito maiores do que a mosca percorreria naturalmente.
A situação reforça a importância da vigilância e da confirmação laboratorial nas doenças que atingem equinos. No Brasil, um caso recente também exigiu essa diferenciação: sete cavalos morreram em uma fazenda de Goiás, mas somente um teve diagnóstico de raiva confirmado.
Autoridades ainda não encontraram ligação direta
Até a publicação da investigação, os Estados Unidos contabilizavam 48 casos confirmados de bicheira, mas nenhum havia sido relacionado diretamente ao contrabando. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos informou que continuava investigando a origem das infestações.
O governo norte-americano também classificava como muito baixo o risco geral para pessoas e animais. Ainda assim, algumas zonas sanitárias permaneciam ativas no Texas, com exigências específicas para a movimentação de rebanhos.
A preocupação econômica é significativa. Especialistas ouvidos pela Reuters estimam que uma disseminação ampla da bicheira poderia provocar perdas de até US$ 1,8 bilhão no Texas, estado que possui o maior rebanho bovino do país.
Fiscalização terá de alcançar rotas clandestinas
Os Estados Unidos utilizam armadilhas, inspeções, restrições ao trânsito animal e a liberação de moscas estéreis para controlar a praga. O Departamento de Agricultura pretende ampliar a capacidade de produção para aproximadamente 500 milhões de insetos estéreis por semana.
Essas medidas, contudo, dependem de rastreabilidade. Animais que atravessam a fronteira ilegalmente ficam fora dos sistemas de vigilância e podem ocultar problemas sanitários.
O contrabando de cavalos deve, portanto, ser tratado como uma vulnerabilidade concreta na defesa agropecuária norte-americana. A confirmação de qualquer ligação com os focos de bicheira dependerá dos resultados das investigações epidemiológicas.
VEJA MAIS:
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.