Centro da Embrapa no Gama celebra nascimento de primeira bezerra clonada

Centro da Embrapa no Gama celebra nascimento de primeira bezerra clonada

Acácia é praticamente idêntica à mãe doadora, com apenas alguns detalhes de diferença, como as manchas brancas
Acácia é praticamente idêntica à mãe doadora, com apenas alguns detalhes de diferença, como as manchas brancas Foto: Correio Braziliense

O animal, fruto de pesquisas da Embrapa Cerrados, veio ao mundo há pouco mais de um mês, com 95% de semelhança com a mãe, ambas da raça gir-leiteiro

Ela nasceu há um mês e 11 dias. Saudável, pesando 35kg e com algumas manchinhas brancas espalhadas no pelo de cor predominantemente marrom. Essas são algumas das características da primeira bezerra clonada do programa de seleção do Centro de Tecnologia em Raças Zebuínas Leiteiras (CTZL) da Embrapa Cerrados, em Ponte Alta, no Gama.

Grupo que participou do processo de clonagem de Acácia: nascimento celebrado
Grupo que participou do processo de clonagem de Acácia: nascimento celebrado Foto: Correio Braziliense

A raça é uma das mais importantes no Brasil, a gir-leiteiro, de origem asiática, e produz grande quantidade de leite. A bezerrinha tem nome: Acácia da Cerrados TN — sigla que significa transferência nuclear e é obrigatória na identificação do animal para registro genealógico junto à Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ).

Acácia mora ainda na fazenda experimental da Embrapa Cerrados, onde também nasceu e está se desenvolvendo ao lado de outros animais. Hoje, pesando 60kg, frutos de mamadeiras diárias, ela tem nome de árvore, homenagem à planta leguminosa acácia-amarela, encontrada em todo o mundo.

Pode-se dizer que é uma versão perfeita da vaca geradora, a Calidora. “Ela está saudável e muito esperta. Geneticamente, é idêntica à mãe doadora de células em 95%. Os outros 5% ficam a cargo de poucos detalhes, como as manchas no corpo”, afirma o médico veterinário Carlos Frederico Martins, pesquisador e supervisor da pesquisa pela Embrapa.

O veterinário Carlos Frederico, supervisor da pesquisa pela Embrapa
O veterinário Carlos Frederico, supervisor da pesquisa pela Embrapa
Foto: Correio Braziliense

De acordo com o pesquisador Carlos Frederico, a clonagem é uma ferramenta de melhoramento genético e busca multiplicar animais com alto potencial, ou seja, aqueles considerados acima da média, que se destacam em suas características, como a produção de leite e o ganho de peso.

O nascimento da bezerrinha, de fato, deixou todos da equipe entusiasmados pela busca de melhorar ainda mais a eficiência da técnica. “Ainda temos muitas limitações, precisamos aperfeiçoar (o processo). No entanto, esse trabalho vem para contribuir com o aumento da eficiência de produção de embriões”, avalia o especialista.

O trabalho faz parte da tese de doutorado da aluna da Universidade de Brasília (UnB) Carolina Gonzales. Ela foi convidada pelo pesquisador Carlos Frederico para trabalhar na área e está envolvida há mais de seis anos com o ramo. “Sou uma apaixonada. É um trabalho difícil, mas traz muita satisfação”, relata ela, que vem estudando o assunto desde o mestrado. Esse tempo de experiência com o tema possibilitou o avanço do domínio da técnica, contribuindo, assim, para acelerar a chegada de Acácia.

“A pesquisa vem no sentido de melhorar a clonagem, no entanto, não é somente isso. O meu trabalho é finalizado aqui, deixando de legado uma nova droga utilizada que melhora a eficiência da técnica”, comemora Carolina. “Esse passo servirá de base para outras pesquisas que virão, pois conseguimos avançar na técnica da clonagem”, completa.

Até o nascimento de Acácia, a equipe levou seis anos de estudos e de testes. Tempo muito comemorado pela orientadora da pesquisa, a professora de biologia celular da UnB Sónia Báo, que ocupou o cargo de vice-reitora da instituição na gestão passada. De acordo com ela, para se chegar a um exemplar de um clone é preciso, em média, 10 anos.

Apesar disso, a professora lamenta as fases cíclicas das pesquisas no Brasil. “Não dá para dizer que não temos nada, nem que temos tudo. Foi importante o começo dessa técnica e ela está avançando aos poucos”, afirma. Para ela, dominar a tecnologia não é um processo simples, pois exige uma continuidade, principalmente com relação ao financiamento. “Ora temos dinheiro, ora não. Há um longo caminho pela frente”, disse a professora.

Para o presidente do Conselho Deliberativo da ABCZ, Marcelo Tolero, o produtor tem muito a ganhar com o avanço de reproduções de animais da raça gir-leiteiro, considerada uma raça rústica e com alta produção de leite. “O mercado tem uma grande demanda e aceita muito bem essa raça”, garante Marcelo.

Segundo ele, o produtor paga cerca de R$ 40 mil por apenas um procedimento desse tipo e o objetivo das pesquisas é justamente tornar a técnica mais acessível.

OUTRO CASO

Em agosto deste ano, o maior touro Gir que a pecuária leiteira brasileira já teve foi clonado, mas reprovado em registro, mesmo com vários recursos do criador, o Conselho Deliberativo Técnico bateu o martelo alegando que desvio de chanfro do animal o desclassificava.

Tecnologia

A Embrapa domina a tecnologia da clonagem desde 2001, com o nascimento do primeiro clone da América latina (veja quadro). A missão, agora, segundo os pesquisadores, é aprimorar cada vez mais o procedimento, em busca de aumentar a eficiência da técnica, diluir os custos e torná-lo acessível aos produtores.

Marcelo Tolero destaca que a produção de leite diária de um animal desse porte, estando em condições tropicais e de sustentabilidade, gira em torno de 15 mil litros por dia. “Essa é a importância da transferência nuclear. Justificamos, por esses números, o que podemos fornecer ao mercado”, conclui.

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Foto: Correio Braziliense

Fonte: Correio Brasiliense