Novo ecossistema de educação aproxima universidade, empresas e produtores e coloca a Cidade do Agro no centro da formação prática para os novos desafios do agronegócio brasileiro
Uberaba acaba de ganhar duas estruturas que colocam educação, tecnologia e produção rural dentro de um mesmo ecossistema. A Cidade do Agro e o novo Hospital Veterinário da Uniube foram inaugurados nos dias 10 e 11 de agosto, após investimentos que somam R$ 57 milhões, em um projeto criado para aproximar a formação universitária dos desafios encontrados diariamente por produtores, empresas e profissionais do agronegócio.
A dimensão ajuda a mostrar por que o projeto chama atenção. Enquanto o novo Hospital Veterinário possui mais de 9 mil m² e estrutura para atender de pequenos e grandes animais a espécies silvestres, a Cidade do Agro se estende por mais de 500 mil m² e reúne dezenas de empresas, áreas experimentais, centros de treinamento e tecnologias aplicadas à agricultura e à pecuária. Na prática, a proposta é fazer com que parte da formação deixe de acontecer apenas dentro da sala de aula e passe a ocorrer em contato direto com situações, equipamentos e demandas reais do mercado.
A proposta vai além da expansão física de um campus. A Cidade do Agro foi concebida para colocar estudantes em contato com situações, tecnologias e empresas que encontrarão depois da graduação — um movimento especialmente relevante em um setor no qual máquinas autônomas, agricultura digital, inteligência artificial, genética, biotecnologia e gestão de dados estão mudando rapidamente o perfil da mão de obra.
A própria estrutura ajuda a explicar a dimensão do projeto. A Cidade do Agro ocupa mais de 500 mil metros quadrados e reúne áreas produtivas, experimentais, centros de treinamento e empresas parceiras. Antes mesmo da inauguração, a Uniube já informava a existência de mais de 200 projetos de pesquisa e 26 patentes vinculados ao ecossistema.
“O Brasil é protagonista na produção de alimentos, mas o desafio das próximas décadas será produzir melhor, com tecnologia e sustentabilidade. Nenhuma máquina inteligente, inteligência artificial ou avanço genético substituirá a necessidade de capacitar pessoas”, afirma Flávio Sartori, diretor acadêmico da Universidade do Agro e diretor do Hospital Veterinário.
Para Sartori, o desafio está justamente em transformar a inovação disponível para o agronegócio em resultado efetivo dentro das propriedades.
“O maior desafio do agronegócio brasileiro hoje é formar mão de obra qualificada para sustentar a inovação. A Cidade do Agro nasce justamente para conectar a academia com a indústria e com o produtor, transformando o conhecimento científico em desenvolvimento real no campo.”
R$ 25 milhões para um novo Hospital Veterinário
A primeira etapa das inaugurações ocorreu em 10 de agosto, com a abertura oficial da nova sede do Hospital Veterinário da Uniube.
O empreendimento recebeu R$ 25 milhões em investimentos e ocupa uma área superior a 9 mil metros quadrados, com estrutura destinada ao atendimento clínico e cirúrgico de pequenos e grandes animais, além de espécies silvestres.
A dimensão acadêmica é um dos pontos centrais do projeto. O HVU funciona simultaneamente como espaço assistencial e ambiente de formação prática para estudantes de Medicina Veterinária e áreas relacionadas.
A Uniube já havia informado que a nova unidade foi projetada para integrar ensino, pesquisa, extensão e atendimento veterinário, ampliando a capacidade de absorver casos especializados na região.
A estrutura tem capacidade para a realização de cinco cirurgias simultaneamente. Durante a inauguração, além de cães e gatos, havia inclusive um filhote de tamanduá em tratamento para posterior reinserção na natureza.
O hospital também atende animais de produção, aproximando sua atuação diretamente de uma das principais atividades econômicas do Triângulo Mineiro.
Cidade do Agro leva o mercado para dentro da universidade
No dia seguinte, 11 de agosto, foi inaugurada oficialmente a Cidade do Agro, em evento que reuniu mais de 500 pessoas, entre representantes de empresas, autoridades, investidores, produtores, profissionais do setor e convidados.
Foram destinados aproximadamente R$ 32 milhões ao projeto até esta etapa.
Mais do que reproduzir uma fazenda-escola tradicional, a estrutura procura criar uma espécie de laboratório permanente do agronegócio. Agricultura, pecuária, máquinas, insumos, cooperativismo, serviços financeiros, ciência e tecnologia passam a conviver dentro do mesmo ambiente de formação.
A integração com empresas é uma das principais diferenças do modelo.
Segundo informações apresentadas durante a inauguração, mais de 30 empresas estão integradas ao ecossistema, enquanto novas parcerias continuam sendo estruturadas.
“Com mais de 30 empresas integradas, áreas experimentais e centros de treinamento, estamos construindo um ecossistema onde os desafios reais do campo entram na universidade e retornam à sociedade como soluções tecnológicas, inovação e profissionais qualificados”, destaca Sartori.
A estratégia é reduzir uma distância historicamente presente na formação profissional: aquela existente entre o conhecimento produzido dentro da universidade e os problemas enfrentados diariamente por produtores e empresas.
Máquinas de última geração entram na formação
Um exemplo concreto dessa aproximação é a parceria com a New Holland e a concessionária Nova Holanda.
A Cidade do Agro recebeu um Centro de Treinamento Universitário New Holland, criado para atender tanto estudantes quanto equipes técnicas e comerciais e clientes da fabricante.
O investimento informado pela Uniube para essa parceria é de aproximadamente R$ 2,8 milhões, incluindo máquinas destinadas à formação prática, entre elas tratores, colheitadeira de grãos e pulverizador.
Para Eduardo Kerbauy, vice-presidente de Marketing da New Holland para a América Latina, a modernização das máquinas precisa caminhar ao lado da qualificação de quem irá operá-las e gerenciá-las.
“A inovação só se transforma em resultado no campo quando investimos nas pessoas que vão operar e gerir essa tecnologia. Aproximar a indústria da academia é o caminho mais rápido para transferir tecnologia e manter o agronegócio brasileiro forte e produtivo.”
Essa talvez seja uma das questões mais importantes por trás da Cidade do Agro.
O produtor brasileiro está sendo apresentado a tecnologias cada vez mais sofisticadas, mas a eficiência dessas ferramentas depende de operadores, técnicos, veterinários, agrônomos, gestores e pesquisadores capazes de interpretar dados e transformar tecnologia em produtividade.
Por que Uberaba?
A escolha de Uberaba para um projeto dessa dimensão não ocorre por acaso.
O município possui uma relação histórica com a pecuária, especialmente com o desenvolvimento e a seleção das raças zebuínas no Brasil, mas sua economia rural atualmente é muito mais diversificada.
Dados da Produção Agrícola Municipal (PAM) referentes a 2024 colocaram Uberaba como maior produtor brasileiro de cana-de-açúcar, reforçando o peso do município também no setor sucroenergético.
A cidade possui ainda um ecossistema acadêmico e tecnológico expressivo. Informações da Prefeitura apontam mais de 22 mil matrículas no ensino superior, cerca de 2 mil docentes, 178 cursos, 480 linhas de pesquisa e 366 laboratórios multiusuários, além de instituições como UFTM, IFTM, Uniube e FAZU.
É justamente essa combinação entre produção agropecuária, pesquisa, empresas e formação profissional que a Cidade do Agro pretende explorar.
Universidade, empresas e poder público no mesmo ecossistema
O reitor da Uniube, Marcelo Palmério, define o projeto como uma integração prática entre universidade, setor produtivo e poder público.
“A Cidade do Agro foi concebida para permitir que os estudantes aprendam em contato direto com os desafios reais do mercado, enquanto geramos conhecimento aplicado para os produtores.”
Para Palmério, formar profissionais preparados para inovar tornou-se parte da própria estratégia de competitividade do agronegócio.
“Nenhuma nação constrói um agro forte apenas com tradição — constrói-se com pessoas preparadas para inovar.”
O governador de Minas Gerais, Mateus Simões, também destacou durante o lançamento o papel histórico de Uberaba na genética bovina e a possibilidade de o município ampliar sua influência para tecnologia e formação profissional.
A presença de Simões ocorre em um momento de transição política no Estado. Ele assumiu o Governo de Minas após a saída de Romeu Zema e atualmente ocupa o cargo de governador.
Para o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Thales Almeida Pereira Fernandes, o desafio vai além do aumento da produção e passa pela capacidade de agregar conhecimento e valor às cadeias produtivas. Fernandes permanece à frente da pasta estadual em 2026.
A prefeita Elisa Araújo, por sua vez, ressaltou a tentativa de posicionar Uberaba como um hub de inovação ligado ao agronegócio, aproveitando uma base produtiva já consolidada na região.
O gargalo do agro pode estar nas pessoas
O aspecto mais relevante do investimento de R$ 57 milhões talvez não esteja nos prédios ou nas máquinas.
Está na tentativa de enfrentar um problema que tende a crescer conforme a agricultura e a pecuária se tornam mais sofisticadas: não basta disponibilizar tecnologia; é necessário formar pessoas capazes de utilizá-la economicamente dentro das propriedades.
Um pulverizador mais preciso, uma colheitadeira conectada, um sistema de visão computacional para bovinos ou uma plataforma de inteligência artificial podem ampliar a eficiência. Mas nenhuma dessas tecnologias trabalha isoladamente.
Elas dependem de profissionais capazes de compreender manejo, dados, custos, manutenção, sustentabilidade e tomada de decisão.
É nesse ponto que a Cidade do Agro tenta ocupar um espaço diferente no ensino agrícola brasileiro: colocar o problema real do produtor dentro do ambiente acadêmico e levar a solução desenvolvida na universidade de volta ao campo.
Uberaba já construiu reconhecimento nacional pela genética bovina e pela força de sua produção agropecuária. Agora, com R$ 57 milhões destinados à Cidade do Agro e ao novo Hospital Veterinário, tenta acrescentar outro ativo a essa história: a formação da mão de obra que terá de operar o agronegócio das próximas décadas.
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