Batizada de Moraxella tarda, nova espécie foi encontrada em bovinos Hereford no Sul do País; descoberta pode ajudar no desenvolvimento de diagnósticos e vacinas contra doença capaz de causar dor, perda de desempenho e até cegueira
Pesquisadores brasileiros identificaram uma nova espécie de bactéria em bovinos, descoberta que pode ampliar o conhecimento sobre uma doença bastante conhecida pelos pecuaristas: a ceratoconjuntivite infecciosa bovina (CIB), popularmente chamada de “mal do olho”, “cerato” ou pinkeye. Batizado de Moraxella tarda, o microrganismo foi isolado da mucosa nasal de animais da raça Hereford que apresentavam sinais iniciais da enfermidade no Sul do Brasil.
A descoberta é resultado de um trabalho liderado pela Embrapa, em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e o Instituto Biológico de São Paulo. O reconhecimento científico da nova espécie foi publicado em julho de 2026 na revista Current Microbiology.
O que é a nova Moraxella tarda?
As primeiras amostras que levaram à descoberta foram obtidas em 2018, em bovinos Hereford de uma propriedade de pecuária de corte no bioma Pampa, no Sul do Brasil. Os animais apresentavam sinais clínicos iniciais de ceratoconjuntivite infecciosa bovina.
A partir da mucosa nasal dos bovinos, os pesquisadores conseguiram isolar um microrganismo que não correspondia às espécies de Moraxella já conhecidas.
O passo seguinte foi investigar se aquilo representava apenas uma variação de uma bactéria existente ou efetivamente uma espécie ainda não descrita.
As análises genéticas deram uma resposta importante.
A nova bactéria apresentou no máximo 79% de similaridade genômica com outras espécies do mesmo gênero, incluindo Moraxella bovis e Moraxella bovoculi. As diferenças foram suficientes para classificá-la como uma espécie distinta.
Por que ela recebeu o nome de Moraxella tarda?
O nome escolhido pelos pesquisadores tem relação direta com uma característica observada em laboratório.
Enquanto espécies semelhantes podem formar colônias visíveis em aproximadamente 24 horas, a nova bactéria demora cerca de 48 horas.
Daí surgiu o termo tarda.
O sequenciamento também mostrou um genoma de aproximadamente 1,86 milhão de pares de bases. Além das análises genéticas, características morfológicas e fisiológicas ajudaram a confirmar que o microrganismo formava uma linhagem distinta dentro do gênero Moraxella.
O problema por trás do chamado “mal do olho”
A descoberta ganha importância porque ocorreu durante estudos sobre uma enfermidade de impacto direto na produção pecuária.
A ceratoconjuntivite infecciosa bovina é altamente contagiosa e provoca inflamação nos olhos dos animais.
Entre os sinais estão lacrimejamento, desconforto, sensibilidade à luz e lesões oculares. Casos mais graves podem evoluir para comprometimento importante da visão e até cegueira.
Além da questão de bem-estar animal, existe consequência produtiva.
Dor e dificuldade para enxergar podem reduzir o consumo de alimento e prejudicar o ganho de peso, transformando um problema aparentemente restrito aos olhos em perda econômica para a propriedade.
Descoberta pode mudar diagnóstico e vacinas?
É justamente nesse ponto que a identificação da nova espécie se torna particularmente relevante.
Conhecer quais microrganismos estão associados aos animais acometidos pela doença pode contribuir para aprimorar métodos de diagnóstico e orientar pesquisas para vacinas polivalentes, capazes de considerar diferentes espécies bacterianas envolvidas no complexo da enfermidade.
A própria Embrapa aponta essas duas possibilidades como desdobramentos da descoberta.
Isso não significa que uma nova vacina já esteja disponível ou que a Moraxella tarda tenha sido definitivamente estabelecida como responsável isolada pelos casos de ceratoconjuntivite.
A relação precisa continuar sendo estudada.
O que os pesquisadores demonstraram até agora é a existência de uma espécie bacteriana até então desconhecida, encontrada em bovinos que apresentavam sinais iniciais da doença.
Pesquisa brasileira avança agora para uma nova etapa
A equipe pretende aprofundar os estudos sobre a interação entre diferentes espécies de Moraxella e os mecanismos de resistência dos próprios bovinos.
Outro avanço está na maneira como essas pesquisas poderão ser conduzidas.
Segundo a Embrapa, novos trabalhos estão utilizando córneas bovinas preservadas em laboratório, estratégia que permite estudar a interação entre bactéria e tecido ocular sem precisar induzir a doença em animais vivos.
A identificação da Moraxella tarda, portanto, vai além de simplesmente acrescentar um novo nome à microbiologia veterinária. Ela ajuda a montar uma parte que ainda faltava no quebra-cabeça de uma doença conhecida há décadas pelos pecuaristas.
E quanto melhor a ciência compreender quais bactérias participam desse processo, maior será a possibilidade de desenvolver diagnósticos mais precisos, estratégias preventivas mais eficientes e, futuramente, vacinas capazes de oferecer proteção mais ampla aos rebanhos brasileiros.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.