Tecnologia desenvolvida na Europa utiliza energia solar e microrganismos do solo para fabricar fertilizante nitrogenado, abrindo caminho para reduzir a dependência de insumos importados.
A possibilidade de produzir fertilizantes dentro da própria propriedade rural, reduzindo a dependência de grandes indústrias químicas e de fornecedores internacionais, começa a ganhar espaço na ciência. Pesquisadores europeus desenvolveram um sistema experimental capaz de produzir ureia utilizando energia solar, eletricidade gerada por bactérias do solo e compostos químicos recuperados do ambiente, uma inovação que pode abrir novos caminhos para a agricultura mundial.
A tecnologia integra o projeto internacional CONFETI, coordenado pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), na Espanha, com financiamento da União Europeia. Depois de três anos de pesquisa, os cientistas conseguiram levar ao campo equipamentos capazes de transformar dióxido de carbono (CO₂) e nitratos em ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados na produção agrícola.
O avanço foi apresentado pela universidade em 28 de outubro de 2026 e representa uma etapa importante: o processo deixou de ser uma experiência exclusivamente laboratorial e passou a ser testado em condições agrícolas reais.
Para países como o Brasil, que dependem fortemente da importação de fertilizantes, a descoberta desperta interesse estratégico. Entretanto, a tecnologia ainda está em fase experimental e não representa, por enquanto, uma alternativa comercial à ureia convencional.
Como funciona a produção de ureia com energia solar e bactérias?
O diferencial do sistema está na combinação de diferentes tecnologias para fabricar fertilizante com menor dependência de processos industriais convencionais.
A ureia tradicional é produzida a partir da reação entre amônia e dióxido de carbono. A fabricação de amônia, por sua vez, normalmente exige grandes quantidades de energia e está historicamente associada ao uso de gás natural.
No projeto CONFETI, os pesquisadores utilizam um reator eletroquímico capaz de promover reações que combinam carbono e nitrogênio para formar ureia, aproveitando CO₂ e nitratos como matérias-primas.
A energia necessária para essas reações é fornecida por uma combinação de painéis solares e biobaterias, dispositivos que aproveitam a atividade de microrganismos presentes no solo para gerar pequenas correntes elétricas.
Isso não significa que as bactérias produzam diretamente a ureia. Elas contribuem para gerar a eletricidade utilizada no funcionamento dos equipamentos.
O sistema também utiliza processos fotoquímicos para transformar nitratos em amônia, buscando recuperar compostos nitrogenados que poderiam ser desperdiçados no ambiente agrícola.
A proposta é desenvolver uma produção mais descentralizada, aproveitando recursos disponíveis perto do local onde o fertilizante será utilizado.
Protótipo já foi testado em uma área agrícola na Espanha
A instalação experimental foi montada em Viladecans, na região de Barcelona, permitindo que os pesquisadores avaliassem o comportamento dos equipamentos fora do ambiente controlado de laboratório.
Durante os testes, o sistema enfrentou variações climáticas e episódios de chuvas intensas, condições importantes para avaliar sua resistência e estabilidade operacional.
Segundo Gonzalo Guirado, professor do Departamento de Química da Universidade Autônoma de Barcelona e coordenador da pesquisa, a transferência da tecnologia para uma área agrícola representou um dos principais desafios do projeto.
A iniciativa recebeu aproximadamente 4 milhões de euros em financiamento europeu e busca demonstrar que a produção de fertilizantes pode aproveitar fontes renováveis de energia e recuperar nutrientes do ambiente.
Apesar dos resultados promissores, ainda são necessários estudos para determinar a capacidade produtiva, os custos de operação e a eficiência do sistema em escala maior.
Por que a descoberta é importante para o agronegócio brasileiro?
A pesquisa ganha relevância diante da elevada dependência brasileira de fertilizantes importados.
Segundo informações do Ministério da Agricultura e Pecuária, as importações representam aproximadamente 93% do consumo nacional de fertilizantes. Em 2025, o Brasil importou cerca de 45,5 milhões de toneladas, volume recorde.
Essa dependência deixa a agricultura brasileira exposta às oscilações do dólar, às tensões geopolíticas, aos custos logísticos e às mudanças no mercado internacional.
A ureia tem papel importante nesse cenário por ser uma das principais fontes de nitrogênio utilizadas em culturas como milho, trigo e cana-de-açúcar, além da adubação de pastagens.
Em levantamento divulgado pela Scot Consultoria, a ureia apresentou preço médio de R$ 4.086,82 por tonelada na segunda quinzena de setembro de 2026, valorização de 10,8% em relação ao mesmo período de 2025.
Diante desse cenário, qualquer tecnologia capaz de ampliar a produção nacional ou regional de fertilizantes merece atenção.
Se alcançar viabilidade comercial, a produção descentralizada de ureia poderá contribuir para reduzir custos logísticos e ampliar a autonomia dos agricultores. No entanto, ainda não existem dados suficientes para afirmar que o fertilizante produzido pelo sistema experimental será mais barato que o produto industrial.
Tecnologia também pode ajudar a recuperar nutrientes perdidos
Outro aspecto importante da pesquisa é a possibilidade de aproveitar nitratos presentes na água.
Na agricultura, parte do nitrogênio aplicado ao solo pode ser perdida antes de ser absorvida pelas plantas. Essas perdas representam prejuízos econômicos e podem contribuir para problemas ambientais.
O sistema europeu busca recuperar compostos nitrogenados e transformá-los novamente em produtos úteis à fertilização.
Essa abordagem pode ser especialmente interessante em sistemas intensivos de produção, nos quais o manejo de água e nutrientes exige atenção constante.
Entretanto, recuperar nitrogênio não significa produzir fertilizante de maneira ilimitada. A quantidade de ureia obtida dependerá da disponibilidade de matérias-primas, da energia fornecida e da eficiência das reações químicas.
Quando a ureia produzida na fazenda poderá chegar ao mercado?
Apesar dos avanços, a tecnologia ainda precisa superar obstáculos antes de alcançar as propriedades rurais comercialmente.
Entre os principais desafios estão a capacidade de produção, a eficiência energética, a qualidade do fertilizante obtido e o custo dos equipamentos.
Também será necessário comprovar que o sistema funciona de maneira estável em diferentes condições climáticas e agrícolas.
Outro ponto fundamental é a escala. Enquanto as grandes fábricas produzem volumes expressivos de ureia, os sistemas experimentais ainda precisam demonstrar capacidade para atender às demandas de propriedades comerciais.
Além disso, a tecnologia está voltada à produção de um fertilizante nitrogenado e não substitui outras fontes essenciais de nutrientes, como fósforo e potássio.
Uma alternativa para o futuro dos fertilizantes
A experiência europeia demonstra que a fabricação de fertilizantes pode seguir caminhos diferentes dos processos industriais tradicionais.
Para o Brasil, o avanço representa uma oportunidade de acompanhar tecnologias capazes de fortalecer a segurança do abastecimento agrícola e melhorar o aproveitamento dos recursos naturais.
A produção de ureia com energia solar e bactérias do solo ainda não é a solução definitiva para a dependência brasileira de fertilizantes, mas abre uma frente promissora para a pesquisa.
O próximo desafio será transformar uma inovação cientificamente demonstrada em um processo economicamente competitivo, capaz de produzir fertilizantes com regularidade e em volumes relevantes para o campo.
Se isso acontecer, a fabricação de parte dos fertilizantes dentro das próprias fazendas poderá deixar de ser uma possibilidade experimental e se tornar uma nova ferramenta para a agricultura.
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