Começou plantando mandioca entre laranjeiras e hoje colhe até 150 toneladas por semana em São Paulo

Produtor transformou uma experiência iniciada ainda na adolescência em uma lavoura de 160 hectares; colheita começa de madrugada para que as raízes cheguem rapidamente ao mercado

O que começou quase como uma experiência entre as fileiras do laranjal do pai se transformou, mais de duas décadas depois, em uma operação capaz de colocar entre 100 e 150 toneladas de mandioca por semana no mercado. Em Engenheiro Coelho, na região de Campinas (SP), o produtor André construiu uma trajetória dedicada à cultura e hoje mantém aproximadamente 160 hectares em diferentes estágios de desenvolvimento.

A escala chama atenção, mas existe outro detalhe que ajuda a explicar a rotina da propriedade: em determinados dias, a colheita começa por volta das 3 horas da madrugada. Não é simplesmente preferência por trabalhar antes do nascer do sol. A mandioca comercializada fresca precisa chegar ao destino preservando sua qualidade, e o calor durante a colheita e o transporte pode acelerar sua deterioração.

Por isso, enquanto grande parte da cidade ainda dorme, trabalhadores já estão no campo arrancando, limpando e colocando as raízes nas caixas.

Tudo começou entre as laranjeiras do pai

A relação de André com a mandioca começou ainda na infância.

Na propriedade da família, o pai cultivava laranja. O filho aproveitava as entrelinhas do laranjal para plantar mandioca.

O que inicialmente era uma experiência foi ganhando importância. Por volta dos 16 ou 17 anos, André começou a transformar aquela atividade em negócio.

Hoje, depois de mais de 25 anos trabalhando exclusivamente com a cultura, a propriedade alcançou aproximadamente 160 hectares.

A estratégia utilizada permite manter a produção distribuída durante o ano.

Enquanto uma parte da lavoura está pronta para ser arrancada, outras áreas permanecem em desenvolvimento.

Isso ajuda a garantir continuidade no abastecimento.

Até 150 toneladas deixam a propriedade toda semana

A colheita ocorre três vezes por semana.

Nesse intervalo, saem da propriedade entre 100 e 150 toneladas de mandioca destinadas principalmente à cidade de São Paulo.

No limite superior, são aproximadamente 50 toneladas por dia de colheita considerando três operações semanais.

Mas colocar esse volume no mercado exige organização.

As raízes são arrancadas, limpas e acomodadas nas caixas, em um processo que ainda demanda forte participação da mão de obra.

A mandioca de mesa apresenta ainda uma particularidade importante: depois de retirada do solo, sua vida útil é relativamente curta.

Isso ajuda a explicar a pressa.

Por que a mandioca é colhida de madrugada?

A raiz que permanece no solo está protegida. Depois de arrancada, começa outra corrida.

Temperaturas elevadas podem acelerar processos de deterioração pós-colheita e comprometer a qualidade comercial.

Na propriedade de André, a solução é antecipar o trabalho.

A equipe pode iniciar a colheita às 3 horas da manhã, evitando que as raízes permaneçam expostas às temperaturas mais altas antes de seguirem para o mercado.

O objetivo é fazer com que o produto chegue ao consumidor em melhores condições.

Essa característica diferencia a mandioca destinada ao consumo fresco de commodities que podem permanecer armazenadas durante meses.

Na mandioca de mesa, tempo também é qualidade.

Produzir muito não significa margem folgada

A escala de produção poderia passar a impressão de um negócio de margens confortáveis.

A realidade relatada pelo produtor é diferente.

Entre os principais custos estão insumos, óleo diesel e pedágios, especialmente considerando que parte importante da produção precisa percorrer o caminho entre a região de Campinas e o mercado consumidor paulista.

O aumento desses gastos pressiona a rentabilidade mesmo quando o volume produzido permanece elevado.

Esse é um ponto importante porque a mandioca atravessa um momento de preços pressionados em algumas das principais regiões produtoras do País.

No Paraná, por exemplo, dados do Departamento de Economia Rural (Deral) apontaram que os preços recebidos pelos produtores no primeiro trimestre de 2026 ficaram 21% abaixo do mesmo período de 2025.

A situação fez produtores postergarem a colheita e deixarem parte das lavouras por mais tempo no campo.

Engenheiro Coelho quer fortalecer a cadeia da mandioca

A importância da cultura não se limita à propriedade de André.

Em julho, a Prefeitura de Engenheiro Coelho apresentou o projeto Terra de Esperança – Cadeia Produtiva da Mandioca, dentro das ações previstas para 2026/27.

A iniciativa contempla medidas relacionadas à correção do solo, adubação, assistência técnica, capacitação dos produtores e avaliação de tecnologias voltadas ao desenvolvimento radicular.

A administração municipal afirma que Engenheiro Coelho já se consolidou como referência regional na produção da raiz.

O objetivo é aumentar produtividade e qualidade, além de fortalecer os agricultores envolvidos na atividade.

Uma cultura que permite organizar diferentes ciclos

A distribuição dos 160 hectares em diferentes fases é um dos elementos importantes do sistema utilizado na propriedade.

Diferentemente de uma grande lavoura anual colhida praticamente de uma só vez, a mandioca oferece certa flexibilidade quanto ao momento de retirada das raízes.

Essa característica permite escalonar áreas e organizar a oferta conforme a finalidade do produto e as condições comerciais.

No caso de André, essa organização ajuda a sustentar colheitas três vezes por semana e fornecimento ao longo do ano.

Também reduz o risco de concentrar todo o volume em uma única janela.

Próxima geração já acompanha a lavoura

A história iniciada entre as laranjeiras também começa a apresentar sinais de continuidade.

A filha do produtor já acompanha o pai na rotina da propriedade.

É uma imagem semelhante à própria trajetória de André, que começou observando a agricultura da família antes de construir seu próprio negócio dentro dela.

Depois de mais de 25 anos dedicados à mandioca, ele afirma não pensar em abandonar a atividade.

A escala alcançada ajuda a dimensionar o caminho percorrido: uma cultura que começou ocupando pequenos espaços entre as laranjeiras do pai hoje cobre 160 hectares e pode colocar até 150 toneladas de raízes no mercado em apenas uma semana.

Em uma atividade na qual a colheita começa antes do amanhecer e a margem é pressionada por combustível, insumos e logística, o crescimento não eliminou os desafios.

Mas transformou aquela experiência de adolescência em uma operação agrícola que abastece um dos maiores mercados consumidores do País.

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