Cooperativa gaúcha negocia aquisição da antiga planta da Languiru em Poço das Antas; unidade chegou a reunir cerca de 200 produtores integrados e tinha capacidade para abater 1,7 mil suínos por dia
Um frigorífico avaliado em aproximadamente R$ 169,8 milhões e que está há mais de três anos sem abater um único suíno pode voltar a funcionar ainda em 2026 no Rio Grande do Sul. O governo estadual confirmou que uma cooperativa gaúcha está em negociação avançada para assumir a unidade da Cooperativa Languiru em Poço das Antas, no Vale do Taquari. O principal obstáculo para fechar o negócio, neste momento, não seria o valor, mas os entraves jurídicos relacionados ao ativo e aos credores.
A possibilidade de retomada chama atenção pela dimensão que a planta já teve dentro da suinocultura regional. Antes da paralisação, em junho de 2023, o frigorífico tinha capacidade para abater cerca de 1,7 mil suínos por dia e chegou a reunir aproximadamente 200 produtores integrados.
Se as tratativas avançarem, uma estrutura industrial que permanece parada desde a crise financeira da Languiru poderá voltar a receber animais e movimentar uma cadeia que envolve produtores, transportadores, trabalhadores e fornecedores.
Negociação está avançada
A informação foi confirmada pelo secretário de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Sul, Leandro Evaldt.
Segundo ele, a negociação envolve o governo estadual, a Cooperativa Languiru, o Badesul e a cooperativa interessada na aquisição.
As conversas estariam avançadas principalmente em relação aos valores.
O desafio agora é construir uma solução para questões jurídicas relacionadas às dívidas e aos diferentes credores da Languiru.
A expectativa manifestada pelo governo é de que, superados esses obstáculos, a retomada da unidade possa acontecer ainda em 2026.
O nome da cooperativa interessada não havia sido oficialmente revelado nas informações públicas consultadas. Por isso, qualquer atribuição neste momento seria especulação.
Último abate aconteceu em junho de 2023
O frigorífico está parado desde 30 de junho de 2023, quando ocorreu o último abate.
A interrupção aconteceu no contexto da grave crise financeira enfrentada pela Languiru, que posteriormente entrou em processo de liquidação extrajudicial.
Desde então, encontrar uma solução para a unidade de Poço das Antas se transformou em uma das principais questões envolvendo os ativos da cooperativa.
Em junho deste ano, a Languiru informou que a planta estava avaliada em R$ 169,8 milhões e que novas negociações estavam sendo conduzidas com credores e instituições financeiras depois de a Justiça rejeitar a estratégia de venda por leilão judicial.
Frigorífico chegou a ser colocado em leilão
A trajetória até a negociação atual foi longa.
Em 2025, depois de tentativas frustradas de venda direta, a Languiru iniciou uma ação para realizar o leilão judicial do frigorífico.
A avaliação da planta no fim de 2024 era de aproximadamente R$ 169 milhões.
A estratégia previa inicialmente a oferta pelo valor integral da avaliação. Caso não houvesse interessados, uma segunda rodada poderia admitir lance mínimo correspondente a 50% — aproximadamente R$ 85 milhões.
O leilão, entretanto, não avançou.
Em junho de 2026, a Justiça julgou improcedente o pedido apresentado pela Languiru para vender a unidade por esse modelo.
A cooperativa voltou então às negociações diretas.
Município também entrou na disputa pelo futuro da área
Enquanto a Languiru procurava um comprador, a Prefeitura de Poço das Antas começou a defender outra solução.
O município reivindica a reversão da área de aproximadamente 25 hectares onde está instalado o frigorífico, alegando as condições estabelecidas quando o terreno e incentivos foram concedidos para implantação da indústria.
Em julho, representantes do município entregaram ao Governo do Rio Grande do Sul um documento pedindo apoio para recuperar a área e viabilizar a retomada das atividades com um novo operador.
Segundo a administração municipal, a legislação de incentivos previa a manutenção das atividades durante 25 anos como condição para consolidação dos benefícios concedidos.
Como o frigorífico está parado desde 2023, o município entende que existem condições para discutir a reversão.
Esse é justamente um dos componentes jurídicos que tornam a venda mais complexa.
Planta nasceu para ser uma das mais modernas do País
Quando foi inaugurada, em 2012, a estrutura de Poço das Antas foi apresentada como um dos frigoríficos de suínos mais modernos do Brasil.
Naquela época, a unidade possuía aproximadamente 14,5 mil metros quadrados de área construída e capacidade projetada para alcançar até 2,5 mil suínos abatidos diariamente.
A expectativa inicial era gerar cerca de 300 empregos diretos, além dos efeitos sobre produtores integrados e demais atividades ligadas à cadeia.
Ao longo da operação, entretanto, a capacidade efetivamente utilizada ficou abaixo daquele potencial máximo.
Antes da paralisação, a referência era de aproximadamente 1,7 mil animais por dia.
Cerca de 200 produtores já estiveram ligados à planta
A eventual reativação não interessa apenas a quem pretende comprar o frigorífico.
No período de funcionamento, a estrutura chegou a reunir aproximadamente 200 produtores integrados.
Uma indústria frigorífica funciona como o elo final de uma cadeia muito maior.
Antes de um suíno chegar à linha de abate, existe produção de milho e soja para ração, fabricação de alimentos, genética, reprodução, criação dos animais, assistência veterinária, transporte e dezenas de serviços associados.
Quando uma planta dessa dimensão fecha, o impacto se espalha.
Quando volta a funcionar, ocorre o movimento contrário: reaparece uma alternativa de destino para a produção regional e aumenta a demanda por mão de obra e serviços.
Parado, frigorífico também custa dinheiro
Existe ainda outro problema: uma indústria parada continua gerando despesas.
Em 2025, informações apresentadas durante o processo de tentativa de venda mostraram que a planta havia provocado prejuízo de R$ 15,6 milhões somente em 2024, mesmo sem realizar abates.
Manutenção, vigilância, conservação e deterioração de equipamentos fazem com que o tempo se transforme em adversário.
A própria direção da Languiru já alertou que quanto mais tempo a unidade permanece fechada, maior tende a ser o custo necessário para colocá-la novamente em funcionamento.
Isso aumenta a pressão para encontrar uma solução.
JBS já demonstrou interesse
O frigorífico também passou pelo radar de uma das maiores companhias de proteína animal do mundo.
Em março de 2024, uma comitiva da Seara/JBS visitou as instalações para avaliar a estrutura e os equipamentos.
Mais recentemente, em julho de 2026, a própria Languiru informou durante assembleia que a JBS mantinha interesse na aquisição da planta.
A negociação agora divulgada pelo governo estadual, entretanto, é descrita como envolvendo uma cooperativa gaúcha.
Não há confirmação pública, até o momento, da identidade da interessada nem de que exista negócio concluído.
O que falta para o frigorífico voltar?
A existência de uma interessada não significa que os abates estejam prestes a começar.
Primeiro será necessário resolver a estrutura jurídica da transação, incluindo a relação do imóvel e dos ativos com Languiru, Badesul, município e demais credores.
Depois, uma eventual compradora ainda precisará avaliar as condições dos equipamentos após três anos de paralisação, realizar manutenção, estruturar mão de obra, fornecedores e produtores e cumprir as exigências sanitárias necessárias para reiniciar a operação.
Ainda assim, a negociação atual representa uma mudança importante.
Depois de tentativas de venda direta, proposta de leilão, interesse de grandes empresas e disputa sobre o terreno, pela primeira vez em meses o governo gaúcho fala publicamente em uma negociação avançada e na possibilidade de retomada ainda em 2026.
Para Poço das Antas e para a suinocultura do Vale do Taquari, isso significa que uma estrutura avaliada em quase R$ 170 milhões, silenciosa desde junho de 2023, pode finalmente estar mais próxima de voltar a receber suínos.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.