Pesquisa brasileira identifica uma combinação de microrganismos capaz de aproveitar fibras vegetais com elevada eficiência e revela enzimas com potencial para transformar resíduos agrícolas em produtos de maior valor
Um animal que pode atingir 450 quilos e se alimenta exclusivamente de vegetais guarda em seu intestino mecanismos que despertaram o interesse da ciência brasileira. Pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) identificaram bactérias e enzimas que ajudam o peixe-boi a aproveitar nutrientes de plantas aquáticas, incluindo substâncias difíceis de decompor.
A descoberta, publicada na revista científica Nature Microbiology, também poderá beneficiar o agronegócio. Isso porque os microrganismos encontrados apresentam características promissoras para o aproveitamento de materiais como palha, bagaço de cana-de-açúcar e outros resíduos vegetais. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Como o peixe-boi consegue aproveitar tanta energia das plantas?
A explicação está na fermentação realizada por microrganismos que vivem na parte final do sistema digestivo. Eles ajudam a decompor fibras vegetais e produzir compostos que o organismo do animal consegue aproveitar como fonte de energia.
Segundo o estudo, os peixes-bois apresentam índices de digestibilidade da celulose entre 80% e 86%, um desempenho elevado entre mamíferos herbívoros.
Para investigar essa capacidade, a equipe analisou material genético presente em amostras fecais de 36 peixes-bois-da-amazônia, mantidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e 11 peixes-bois-marinhos atendidos pela organização Aquasis, no Ceará.
O levantamento revelou uma comunidade microbiana ainda pouco conhecida, incluindo bactérias e vírus sem correspondentes próximos nos bancos de dados científicos.
Bactéria descoberta consegue aproveitar um açúcar incomum
Entre os resultados, destacou-se a identificação da bactéria Candidatus Epilactovorans intestinalis, associada a uma enzima chamada epilactase.
Essa enzima permite quebrar a epilactose, um tipo de açúcar que a maioria dos microrganismos conhecidos não consegue utilizar como alimento.
A capacidade oferece uma vantagem à bactéria, permitindo que ela explore uma fonte de nutrientes pouco disputada dentro do intestino.
Os pesquisadores também encontraram sistemas genéticos semelhantes em amostras da microbiota humana, indicando que esse mecanismo pode estar presente em diferentes mamíferos.
O que essa descoberta pode mudar no agronegócio?
A contribuição para o campo está principalmente nas outras enzimas identificadas durante o estudo, responsáveis por ajudar a decompor estruturas resistentes das plantas.
Essas substâncias atuam sobre componentes como a celulose e a hemicelulose, enquanto outras vias metabólicas estão relacionadas ao aproveitamento de compostos derivados da lignina.
Na agroindústria, essas estruturas representam um desafio para a conversão de resíduos em produtos úteis. O conhecimento obtido com o peixe-boi poderá contribuir para o desenvolvimento de soluções destinadas à produção de biocombustíveis, biomateriais e outros bioprodutos.
O tema já é explorado em diferentes frentes da ciência brasileira. Uma enzima identificada por pesquisadores da USP apresentou resultados promissores na liberação de açúcares do bagaço da cana, enquanto outra descoberta do CNPEM voltada à bioenergia demonstrou possibilidades de melhorar o processamento da biomassa vegetal.
No caso do peixe-boi, parte das enzimas poderá ser avaliada para utilização no Coquetel Enzimático Brasileiro (OpEn), plataforma desenvolvida pelo CNPEM.
Por enquanto, não existe comprovação de aplicação comercial dessas novas enzimas. Os próximos estudos precisarão avaliar seu desempenho e a possibilidade de produção em escala industrial.
Além do potencial tecnológico, os resultados demonstram que a conservação da biodiversidade brasileira também protege recursos biológicos ainda desconhecidos, capazes de contribuir para futuras descobertas científicas.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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