Com quase 119,4 mil hectares na Flórida, a Deseret Ranches mantém 42,5 mil vacas e organiza o rebanho em grandes unidades de manejo para operar em uma escala pouco comum na pecuária
Uma propriedade de 295 mil acres, aproximadamente 119,4 mil hectares, 42,5 mil vacas e produção anual estimada em 36 mil bezerros. Os números da Deseret Ranches, na região central da Flórida, já seriam suficientes para colocá-la entre as operações pecuárias de grande escala dos Estados Unidos. Mas um detalhe chama ainda mais atenção: segundo a fazenda, cada cowboy gerencia normalmente cerca de 1.200 vacas.
A proporção não significa que um único trabalhador conduza simultaneamente 1.200 animais sem apoio. O sistema funciona a partir da divisão do rebanho em 14 unidades de manejo, com média de aproximadamente 3,1 mil vacas em cada uma. Dentro dessas unidades, os animais são separados em lotes menores e movimentados entre diferentes pastagens.
Como um cowboy consegue gerenciar cerca de 1.200 vacas?
A escala de trabalho está diretamente ligada à maneira como a fazenda organiza território, rebanho e mão de obra.
Além dos cowboys, a estrutura inclui capatazes, gestores e profissionais responsáveis pelo planejamento das pastagens. A Deseret afirma que os trabalhadores ligados ao gado recebem treinamento em manejo animal, boas práticas produtivas e programas de qualidade da carne.
Na prática, portanto, as cerca de 1.200 vacas representam os animais sob a responsabilidade operacional de cada cowboy dentro de um sistema maior. Os lotes são distribuídos pelas pastagens e manejados de acordo com a disponibilidade de forragem e as necessidades produtivas do rebanho.
A informação também não é recente. Em março de 2016, uma publicação do Howard County Farm Bureau descreveu uma visita técnica à propriedade e registrou os mesmos números de 14 unidades, aproximadamente 3,1 mil vacas por unidade e cerca de 1.200 vacas por cowboy.
A relação entre número de vacas e trabalhadores é uma discussão antiga na pecuária norte-americana. Burke Teichert, ex-executivo da AgReserves e ex-gestor ligado às operações da Deseret, escreveu em artigo técnico que havia propriedades trabalhando com 800 a 1.200 vacas ou equivalentes por funcionário, especialmente em sistemas voltados à redução do custo de mão de obra e infraestrutura por animal. O dado é histórico e não representa uma recomendação universal, já que capacidade de suporte, relevo, instalações e sistema de produção alteram significativamente essa relação.
Uma propriedade de quase 119,4 mil hectares
A Deseret Ranches ocupa terras nos condados de Orange, Osceola e Brevard, na Flórida. Seus 295 mil acres correspondem a cerca de 450 milhas quadradas, em uma paisagem formada por pastagens, áreas úmidas, florestas e outras atividades agrícolas.
Para colocar o tamanho do rebanho em perspectiva, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) contabilizou 872 mil vacas de corte na Flórida em 1º de janeiro de 2026. Tomando esse levantamento apenas como referência de escala, as 42,5 mil vacas informadas pela Deseret correspondem a aproximadamente 4,9% desse número estadual. Os dados não representam necessariamente o mesmo momento de apuração e, portanto, a comparação serve apenas para dimensionar a operação.
A dimensão coloca a propriedade em um grupo particular de grandes operações rurais norte-americanas. Outra referência histórica dessa pecuária é o King Ranch, no Texas, que ocupa cerca de 825 mil acres e teve forte influência no desenvolvimento genético de bovinos adaptados às condições do sul dos Estados Unidos.
De terras pouco estruturadas a uma grande operação pecuária

A formação da Deseret começou em 1950, quando foram adquiridas as primeiras propriedades que dariam origem ao rancho. Em dois anos, o núcleo da operação já ultrapassava 220 mil acres.
A área encontrada naquela época estava longe da estrutura observada atualmente. Grande parte das terras havia sido explorada pelo setor madeireiro, enquanto apenas cerca de 4 mil acres possuíam pastagens estabelecidas. A infraestrutura também era limitada, com poucos quilômetros de cercas e estradas de difícil circulação em determinadas épocas do ano.
A implantação da pecuária exigiu melhorias extensas. A propriedade registra a construção ou recuperação de aproximadamente 200 milhas de estradas, além da implantação de cercas, canais, drenagem e novas áreas de pastagem.
O clima da Flórida também obrigou os gestores a adaptar o sistema. Calor, umidade elevada, chuvas intensas e insetos dificultavam a simples reprodução de modelos utilizados em regiões mais secas do Oeste americano. A fazenda passou então a desenvolver sistemas produtivos adequados às condições subtropicais, incluindo trabalhos com pecuaristas locais e pesquisadores da Universidade da Flórida.
Atualmente, a propriedade informa empregar cerca de 80 trabalhadores em tempo integral, distribuídos entre atividades de campo, operação de equipamentos, manutenção e funções administrativas.
Genética foi adaptada às condições da Flórida
A estratégia de criação também passou pela escolha dos animais.
Hoje, a Deseret informa utilizar um programa rotacional de cruzamentos com genética Angus, Brahman, Simmental, Red Poll e South Devon. A combinação busca aproveitar a heterose, também chamada de vigor híbrido, e produzir bovinos adaptados ao clima subtropical sem abandonar características relacionadas à eficiência e à produção de carne.
A presença do Brahman em sistemas desse tipo está ligada, entre outros fatores, à adaptação de bovinos zebuínos a ambientes quentes. Essa genética teve influência importante no desenvolvimento de raças e cruzamentos utilizados na pecuária do sul dos Estados Unidos, como ocorreu com o Santa Gertrudis.
A fazenda também cria seus próprios touros de reposição, selecionados de acordo com características produtivas e de qualidade da carne.
Os bezerros produzidos na Flórida seguem posteriormente para o Meio-Oeste dos Estados Unidos, onde passam pela fase de terminação. Assim, a principal função da operação da Deseret na Flórida está concentrada na cria e produção de bezerros.
Produção vai além do gado
Embora a pecuária seja a principal atividade, a propriedade não depende exclusivamente do rebanho bovino.
A Deseret informa possuir aproximadamente 1.100 acres de terras agrícolas irrigadas por pivô central. Parte dessas áreas é arrendada, e já houve produção de trigo, soja, feijão-preto, sorgo, pepino e couve-flor, além de culturas destinadas à alimentação dos animais e produção de grama comercial.
A propriedade também reúne extensas áreas naturais. Mais de 300 espécies de animais silvestres já foram identificadas dentro de seus limites, segundo levantamento divulgado pela operação, que mantém um programa de manejo de fauna acompanhado por biólogo.
A água representa outro componente relevante para uma área dessa dimensão. A Deseret faz limite com o rio St. Johns por aproximadamente 40 milhas e abriga parte das cabeceiras do rio Kissimmee. A propriedade mantém reservatórios e estruturas de retenção voltados ao manejo das águas das chuvas e da irrigação.
O que realmente explica os 1.200 animais por cowboy
O número mais curioso da Deseret Ranches não pode ser analisado isoladamente.
A possibilidade de atribuir cerca de 1.200 vacas a um cowboy está associada a um sistema que combina grande disponibilidade de área, divisão do rebanho, planejamento das pastagens, lotes menores, infraestrutura, treinamento e apoio de outros profissionais.
Isso significa que simplesmente reproduzir a proporção de animais por trabalhador em outra propriedade não necessariamente produziria o mesmo resultado. Capacidade de suporte das pastagens, distância entre áreas, disponibilidade de água, instalações, tecnologia, categoria animal e estratégia de manejo interferem diretamente na necessidade de mão de obra.
Mais do que demonstrar quantas vacas uma pessoa consegue manejar, a Deseret mostra como uma operação com dezenas de milhares de matrizes consegue transformar uma escala gigantesca em unidades menores e administráveis.
É essa organização, e não apenas o número de animais, que ajuda a explicar como uma fazenda de quase 119,4 mil hectares e 42,5 mil vacas consegue manter um sistema no qual cada cowboy responde por cerca de 1.200 matrizes.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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