Corrida presidencial começa: veja o que os candidatos prometem para conquistar o agro

Crédito, seguro rural, fertilizantes, reforma agrária, tecnologia e logística estão entre os principais temas dos planos apresentados pelos presidenciáveis para um setor que respondeu por 25,13% do PIB brasileiro em 2025

O agro nas eleições 2026 ganhou espaço central na disputa pela Presidência da República com o início oficial da campanha eleitoral neste domingo, 16 de agosto. O interesse dos candidatos pelo campo acompanha o peso econômico do setor: o agronegócio respondeu por 25,13% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2025, segundo cálculos do Cepea em parceria com a CNA.

A importância também aparece no comércio exterior. No ano passado, as exportações brasileiras do agronegócio alcançaram o recorde de US$ 169,2 bilhões, equivalentes a 48,5% de tudo o que o país exportou, de acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Com esse tamanho econômico, propostas relacionadas a crédito rural, seguro, fertilizantes, infraestrutura, regularização fundiária, reforma agrária, tecnologia, sustentabilidade e abertura de mercados aparecem com diferentes níveis de prioridade nos programas presidenciais.

A reportagem analisou os documentos registrados na Justiça Eleitoral, priorizando os capítulos destinados diretamente ao campo. Nos programas sem um eixo específico para o setor, foram consideradas propostas relacionadas a agricultura, agronegócio, produção de alimentos, propriedade rural e desenvolvimento agropecuário.

Como referência para a ordem inicial dos candidatos, foi considerada a pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto. O levantamento apontou Lula com 38% das intenções de voto, Flávio Bolsonaro com 31%, Renan Santos e Ronaldo Caiado com 4% cada, Romeu Zema e Augusto Cury com 2% e Samara Martins com 1%. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre os dias 10 e 13 de agosto e tem margem de erro de dois pontos percentuais.

Agro nas eleições 2026: Lula prioriza crédito, seguro e agricultura familiar

Na tentativa de conquistar o setor rural, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) coloca entre as prioridades de sua candidatura à reeleição a expansão do financiamento tanto para a agricultura familiar quanto para produtores ligados às cadeias comerciais e exportadoras.

Para a agricultura familiar, o programa prevê ampliar o Plano Safra, com taxas de juros adequadas ao perfil dos produtores e às diferentes atividades. O documento também propõe fortalecer linhas destinadas à agroecologia, produção orgânica, sociobiodiversidade, cooperativas e produção de alimentos básicos.

No agronegócio empresarial, a proposta é elevar os recursos disponíveis para financiamento, diversificar as fontes de capital e estimular a agregação de valor aos produtos brasileiros destinados ao exterior. O plano também cita irrigação, integração lavoura-pecuária-floresta, conectividade, rastreabilidade, bioenergia e fortalecimento da pesquisa agropecuária.

Outro ponto é o seguro rural. A candidatura propõe integrar o instrumento a mecanismos de comercialização, proteção financeira e mitigação de perdas provocadas por eventos climáticos.

Na política fundiária, Lula mantém entre suas propostas o avanço da reforma agrária, da regularização fundiária e da demarcação de territórios indígenas e quilombolas, acompanhado por investimentos em infraestrutura básica nos assentamentos e comunidades atendidas.

Flávio Bolsonaro mira seguro, armazenagem e terras

O programa de Flávio Bolsonaro (PL) coloca a gestão dos riscos financeiros entre seus principais compromissos com o campo. O candidato propõe ampliar o seguro rural, desenvolver instrumentos de securitização e facilitar mecanismos de reorganização das dívidas dos produtores.

Outra frente é a infraestrutura dentro da porteira. O plano prevê estimular a expansão da capacidade de armazenagem, reduzindo a necessidade de comercialização imediata da produção após a colheita e ampliando as alternativas do produtor na escolha do momento de venda.

Na área de insumos, Flávio defende maior produção brasileira de fertilizantes, especialmente a partir das reservas nacionais de potássio e fosfato, com a intenção de diminuir a exposição do país ao mercado externo.

O candidato também enfatiza regularização e titulação de propriedades, direito de propriedade e segurança jurídica no campo. Irrigação, biomassa, combustíveis sustentáveis de aviação, consolidação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e pagamento por serviços ambientais também aparecem no programa.

Renan Santos apresenta o AgroBrasil 2030

Renan Santos (Missão) reuniu suas principais propostas para o campo sob a denominação AgroBrasil 2030. Um dos eixos é a proteção da propriedade privada e o endurecimento das medidas contra ocupações de imóveis rurais.

Na reforma agrária, Santos propõe revisar a situação das áreas já destinadas a assentamentos. Seu programa cita cerca de 140 milhões de hectares e defende uma auditoria para avaliar produtividade e utilização dessas terras. A candidatura condiciona novos assentamentos à melhora dos resultados produtivos das áreas existentes.

A redução da dependência externa de fertilizantes também ocupa espaço relevante. O candidato promete ampliar a execução do Plano Nacional de Fertilizantes e regulamentar uma política para minerais considerados estratégicos, incluindo fosfato e potássio.

Na parte econômica, o programa defende crédito direcionado à industrialização e agregação de valor dentro das cadeias agropecuárias, incluindo mudanças no Plano Safra para favorecer investimentos em processamento da produção.

Caiado propõe Plano Safra de cinco anos

Ronaldo Caiado (PSD) aposta em previsibilidade financeira e tecnologia. Uma das propostas de maior destaque é transformar o financiamento anual em um Plano Safra Plurianual, com horizonte de cinco anos.

O programa também prevê maior participação do mercado privado no financiamento do agronegócio, utilizando instrumentos como Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), Fiagros, debêntures e operações de securitização.

No seguro rural, Caiado propõe um modelo com participação dos setores público e privado, conectado ao crédito e complementado por mecanismos para cobertura de eventos de maior impacto.

A tecnologia aparece como outro pilar. O plano cita inteligência artificial, conectividade rural, digitalização e recuperação de pastagens degradadas como ferramentas para elevar a produtividade.

Na infraestrutura, a candidatura promete estruturar corredores logísticos voltados às regiões produtoras. Fertilizantes nacionais, bioinsumos, rastreabilidade, validação do CAR e fortalecimento da defesa agropecuária completam a agenda destinada ao setor.

Augusto Cury aposta em 10 mil agroindústrias

O programa de Augusto Cury (Avante) concentra boa parte de suas propostas na industrialização da produção agropecuária. A meta apresentada é criar condições para implantação, modernização ou expansão de pelo menos 10 mil agroindústrias no país.

O projeto inclui cooperativas, frigoríficos, indústrias de ração, processamento de frutas, leite, biocombustíveis e empreendimentos ligados à agricultura familiar.

Cury também propõe desenvolver polos regionais integrando a produção de grãos às cadeias de proteínas animais, com atenção especial ao Nordeste e ao Matopiba. O objetivo apresentado pelo plano é estimular não apenas a produção primária, mas também o processamento próximo às regiões produtoras.

Para as exportações, o candidato defende preservar a competitividade brasileira em commodities, ao mesmo tempo em que amplia a participação de alimentos processados, biocombustíveis e ingredientes de maior valor agregado.

Inteligência artificial, automação, agricultura de precisão, bioinsumos e rastreabilidade aparecem como tecnologias associadas à estratégia.

Zema defende produtividade, irrigação e capital privado

governador do estado de minas gerais - romeu zemaCorrida presidencial começa: veja o que os candidatos prometem para conquistar o agro
Foto: Luiz Santana / ALMG

O plano de Romeu Zema (Novo) apresenta uma agenda baseada principalmente em produtividade, investimento privado e redução de entraves regulatórios.

Entre as propostas estão ampliar a concorrência no mercado de fertilizantes, facilitar investimentos privados em pesquisa e desenvolvimento, acelerar processos de licenciamento ambiental e expandir a assistência técnica aos produtores.

Para reduzir as perdas financeiras provocadas por eventos climáticos, Zema propõe um fundo privado de seguro rural com aportes públicos. Também defende parcerias entre governo e iniciativa privada para construção de barragens e expansão da irrigação.

Biocombustíveis e promoção internacional do agronegócio brasileiro completam o eixo econômico.

No campo da segurança, o programa propõe ampliar a possibilidade de posse de armas para toda a extensão da propriedade rural, além de medidas contra grilagem e em defesa do cumprimento do Código Florestal.

Samara Martins coloca reforma agrária no centro do programa

Para Samara Martins (UP), a política agrícola está diretamente vinculada a uma transformação da estrutura fundiária brasileira.

O programa mais recente apresentado pelo partido desenvolve a proposta de uma Reforma Agrária Popular, acompanhada de fortalecimento da agricultura familiar, assistência aos pequenos produtores e estímulo a sistemas agroecológicos.

A candidatura também critica a concentração de terras e o modelo de produção baseado no uso intensivo de defensivos, defendendo medidas para redução de agrotóxicos e maior intervenção pública na organização da produção de alimentos.

Edmilson Costa propõe desapropriação e cooperativas agroecológicas

A reforma agrária também é uma das bases do programa de Edmilson Costa (PCB).

O candidato propõe a desapropriação sem indenização de latifúndios considerados improdutivos, propriedades relacionadas ao trabalho análogo à escravidão e áreas que não cumpram a função social estabelecida pela legislação.

O programa prevê ainda ampliar políticas de acesso à terra e incentivar cooperativas de produção agroecológica, acompanhadas de infraestrutura, crédito, tecnologia, armazenamento e transporte.

Outra proposta é estender iniciativas de acesso à terra às periferias urbanas, com pequenos lotes destinados à produção e regras que impeçam sua revenda.

Clariana Barão não apresenta eixo específico para o campo

O programa apresentado por Clariana Barão (DC) aborda temas econômicos que podem afetar diferentes setores, mas não estabelece um capítulo ou uma política estruturada especificamente para o agronegócio.

Entre as diretrizes gerais aparecem simplificação regulatória, digitalização, infraestrutura e logística, sem detalhamento de metas próprias para crédito rural, seguro, produção agropecuária ou política agrícola.

Dessa forma, entre os programas analisados, o documento é um dos que oferecem menos elementos para identificar como seria uma política especificamente direcionada ao campo.

Hertz Dias defende mudança profunda na estrutura de propriedade

O programa de Hertz Dias (PSTU) apresenta uma visão de forte intervenção estatal sobre a estrutura fundiária e empresarial do agronegócio.

A candidatura propõe retirar crédito e subsídios públicos destinados ao que classifica como grande agronegócio e direcionar a política agrícola para a agricultura familiar, cooperativas e produção voltada à soberania alimentar.

O programa também prevê expropriação de grandes propriedades e de empresas agroindustriais consideradas estratégicas, além de mudanças na estrutura de propriedade da terra.

Agroecologia, recuperação de áreas degradadas, demarcação de territórios e agregação de valor à produção familiar aparecem entre as demais diretrizes.

Rui Costa Pimenta prioriza reforma agrária e assentamentos

Rui Costa Pimenta (PCO) também concentra suas propostas para o campo na questão fundiária.

O programa defende ampliar a reforma agrária, avançar sobre grandes propriedades rurais e realizar o assentamento de famílias sem-terra atualmente acampadas, além de acelerar processos relacionados à demarcação de terras indígenas.

Em comparação com programas que detalham instrumentos de financiamento, seguro ou infraestrutura, a plataforma do candidato concentra maior atenção na reorganização da propriedade da terra.

Wilson Grassi aposta em sanidade animal e rastreabilidade

O programa de Wilson Grassi (Democrata) dá destaque incomum à defesa sanitária animal, assunto diretamente ligado à capacidade brasileira de acessar e preservar mercados internacionais.

Entre as propostas estão reforçar os serviços veterinários públicos, fortalecer a vigilância contra doenças de impacto econômico e preservar os reconhecimentos sanitários conquistados pelo Brasil.

A candidatura também defende acelerar programas de rastreabilidade para aproximá-los das exigências dos mercados compradores e desenvolver uma diplomacia sanitária mais ativa nas negociações internacionais.

Outro compromisso é criar um programa nacional de boas práticas de manejo, transporte e abate, associando melhores condições de crédito ao cumprimento dos padrões estabelecidos.

Para agricultores familiares, o plano prevê simplificação de crédito, ampliação da assistência técnica e maior participação da produção regional nas compras públicas.

Pablo Marçal entra na disputa após a pesquisa

Pablo Marcal comprador de fazendasCorrida presidencial começa: veja o que os candidatos prometem para conquistar o agro
Foto: Divulgação

A situação de Pablo Marçal (PRTB) exige uma ressalva temporal. O partido protocolou seu pedido de registro de candidatura à Presidência no sábado, 15 de agosto, depois da realização da pesquisa Quaest utilizada como referência nesta reportagem.

O registro ocorreu após uma decisão provisória relacionada à filiação partidária de Marçal. Ao mesmo tempo, decisões anteriores da Justiça Eleitoral que tratam de sua elegibilidade ainda tornam sua participação na eleição objeto de análise judicial. O pedido de candidatura depende, portanto, da avaliação da Justiça Eleitoral.

Até a checagem do material utilizado para esta reportagem, não havia um conjunto de propostas para o agronegócio que permitisse uma comparação equivalente com os programas dos demais candidatos analisados.

A seção deverá ser atualizada caso novas propostas sejam disponibilizadas oficialmente.

Crédito, terra e tecnologia dividem as estratégias para o campo

A leitura dos programas mostra que o agro nas eleições 2026 está presente em projetos políticos bastante diferentes.

De um lado, candidatos concentram propostas em crédito, seguro rural, redução da dependência de fertilizantes importados, armazenagem, irrigação, infraestrutura e tecnologia. Em várias candidaturas também aparecem medidas ligadas à regularização fundiária, segurança jurídica e expansão dos mercados internacionais.

Em outro grupo de programas, a questão central é a estrutura de propriedade da terra, com propostas de reforma agrária, desapropriações, fortalecimento da agricultura familiar e maior participação do Estado na produção e distribuição de alimentos.

Há também temas que atravessam diferentes candidaturas, ainda que com soluções distintas: seguro rural, adaptação climática, fertilizantes, agregação de valor, rastreabilidade e inovação tecnológica estão entre os assuntos que mais se repetem.

As propostas, porém, representam compromissos de campanha. A transformação dessas ideias em políticas públicas dependerá de fatores como orçamento federal, aprovação do Congresso, regulamentação e capacidade de execução do próximo governo.

O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro de 2026. Se houver necessidade de segundo turno para a Presidência, a votação ocorrerá em 25 de outubro.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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