Cota chinesa quase esgotada: reunião entre CNA e China vem tarde demais para o pecuarista?

Encontro aconteceu na terça (28), em Brasília, dias depois de o Brasil bater 80% da cota de carne bovina liberada pela China para 2026

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) se reuniu, na terça-feira (28), em Brasília (DF), com representantes da Embaixada da China para discutir as relações comerciais entre os dois países. O encontro ocorre em um momento delicado: menos de uma semana antes, frigoríficos de Mato Grosso do Sul já haviam decretado férias coletivas e reduzido o abate de bovinos depois que o Brasil atingiu 80% da cota anual de exportação estipulada pelo governo chinês.

Pela CNA, participaram o vice-presidente Gedeão Pereira, a diretora de Relações Internacionais, Sueme Mori, o assessor de Relações Internacionais, Pedro Rodrigues, e o assessor técnico, Rafael Ribeiro Filho. Representando a China, estiveram o conselheiro do setor agrícola da Embaixada, Rui Xiaofeng, e a adida comercial, Zheng Xiaoni. Um dos principais temas da pauta foi justamente a salvaguarda comercial adotada pelo país asiático e seus efeitos sobre a pecuária brasileira.

O que é a salvaguarda chinesa

A medida foi anunciada pelo Ministério do Comércio da China em 31 de dezembro de 2025, por meio do Anúncio nº 87, e passou a valer em 1º de janeiro de 2026, com prazo de vigência de três anos. Na prática, o mecanismo estabelece uma cota anual de importação de carne bovina por país fornecedor. Para o Brasil, maior exportador do produto para o mercado chinês, a cota foi fixada em 1,106 milhão de toneladas em 2026, subindo para 1,128 milhão em 2027 e 1,151 milhão em 2028.

Qualquer volume embarcado acima do limite anual passa a ser taxado com uma sobretarifa de 55%, o que na prática inviabiliza novos envios depois que a cota se esgota. A cota brasileira, embora seja a maior entre todos os países atingidos pela salvaguarda, representa um corte expressivo frente ao volume histórico: em 2025, a China importou cerca de 1,7 milhão de toneladas de carne bovina brasileira, o equivalente a quase metade de tudo o que o Brasil exportou do produto no ano.

Funcionario de frigorifico empurrando a linha de carcacas bovinas
Foto: Divulgação

Impactos já sentidos no Brasil

Os efeitos da salvaguarda já são concretos. O governo chinês informou que, em 21 de julho, as importações de carne brasileira sob o novo regime já haviam atingido 80% da cota prevista para 2026. Em resposta, frigoríficos de Mato Grosso do Sul anunciaram, em 24 de julho, férias coletivas e redução no abate de bovinos, interrompendo novos embarques para a China ainda em julho — ou seja, faltando cinco meses para o fim do ano.

Entidades do setor, como a Abrafrigo, estimam que o impacto da medida pode representar uma perda de até US$ 3 bilhões em receita de exportação para o Brasil em 2026, em um mercado que movimenta cerca de US$ 18 bilhões por ano. Analistas do setor já projetam que o país pode deixar de exportar até 500 mil toneladas de carne bovina à China neste ano em comparação ao volume embarcado em 2025.

Foi justamente esse cenário que levou a CNA a expor à Embaixada chinesa as preocupações do setor produtivo, dada a relevância da parceria comercial entre os dois países e o papel estratégico da carne bovina brasileira no abastecimento do mercado chinês.

A reunião de terça-feira teve caráter de diálogo institucional, sem indicação, até o momento, de qualquer sinalização concreta de revisão das cotas ou das tarifas por parte do governo chinês. Com frigoríficos já parando embarques e o setor projetando bilhões em perdas neste ano, cabe perguntar: o encontro entre CNA e China representa o início de uma solução para o pecuarista brasileiro, ou chega tarde demais para reverter os efeitos que já estão em curso no campo?

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