Caso apresentado como exemplo fictício mostra como uma divergência de paternidade pode comprometer o registro genealógico do potro e gerar prejuízo ao criador.
O criador escolhe o garanhão, acerta o valor da cobertura e espera quase um ano pelo nascimento do potro. Quando chega a hora de confirmar a genealogia, o exame de DNA traz uma surpresa: o reprodutor indicado no contrato não é o pai. A égua emprenhou, mas o cruzamento planejado não aconteceu como havia sido documentado.
Uma história com esse enredo, envolvendo uma cobertura de R$ 12 mil – preço médio do mercado de genética equina, ganhou grande repercussão. Mas calma, é preciso esclarecer que os personagens são fictícios. O exemplo ajuda a mostrar um problema possível na criação equina, mas não deve ser tratado como denúncia ou ocorrência comprovada em um haras de Uberaba.
Para quem investe em reprodução, a diferença está longe de ser apenas um nome no papel. A escolha do pai pode reunir objetivos de desempenho, temperamento, conformação e valorização comercial. Se o potro não descende do animal contratado, o criador perde a combinação genética que motivou o investimento e precisa esclarecer a filiação antes de seguir com o registro.
O DNA muda o rumo do registro
O exame de parentesco compara o perfil genético do potro com os dos animais apontados como seus pais. Quando o resultado exclui um garanhão, não é possível sustentar aquela paternidade apenas com a declaração de cobertura. Também não se pode concluir, somente com a exclusão, qual foi o verdadeiro pai ou em que momento ocorreu a divergência.
Por isso, o primeiro cuidado é conferir a identificação dos animais e das amostras. Na raça Quarto de Milha, por exemplo, a ABQM estabelece procedimentos para coleta, lacre e identificação do material destinado ao exame de DNA. O protocolo busca vincular o resultado ao animal efetivamente examinado. Cada criador deve consultar as regras da associação responsável por sua raça.
Uma eventual troca na documentação, na identificação de amostras ou no manejo reprodutivo exige apuração. Acusar o estabelecimento de fraude antes dessa verificação pode antecipar uma conclusão que o laudo, isoladamente, não oferece.
O nascimento do potro não encerra a obrigação do haras
Em uma cobertura com garanhão determinado, o objetivo do contrato não é simplesmente obter uma prenhez. A identidade do reprodutor integra o serviço adquirido. Se a paternidade declarada não se confirma, oferecer outra cobertura pode ser insuficiente: o potro daquela gestação já nasceu, e o cruzamento pretendido não pode ser recuperado.
O que o proprietário poderá pedir depende do contrato, das provas e do enquadramento da relação. Quando se aplica o Código de Defesa do Consumidor, o artigo 20 prevê alternativas para serviço inadequado ou diferente do ofertado, incluindo reexecução quando cabível, devolução do valor pago ou abatimento proporcional. Eventuais prejuízos adicionais precisam ser demonstrados. Em relações empresariais, a análise jurídica pode seguir outros fundamentos contratuais e civis.
Isso significa que o exame não determina sozinho quanto o criador receberá. Despesas veterinárias, custos do teste e possível desvalorização do potro devem ser documentados e relacionados à divergência encontrada.
Os documentos que podem decidir a disputa
Ao receber um resultado incompatível com a cobertura declarada, o criador deve preservar o contrato, os comprovantes de pagamento, a identificação do garanhão, a declaração do procedimento e as conversas mantidas com o estabelecimento. Também são relevantes os registros da permanência da égua no haras, os exames veterinários e os documentos da coleta de DNA.
Com esse conjunto, é possível pedir uma explicação formal ao prestador do serviço e procurar a associação de registro genealógico para definir os próximos passos. Se houver dúvida sobre a amostra, a nova coleta deve seguir o procedimento aceito pela entidade. A reclamação ao haras deve ser feita por escrito, com comprovante de envio e de recebimento.
A proteção começa antes da cobertura
Um contrato claro reduz o espaço para dúvidas quando nasce o potro. Além do preço, ele deve trazer a identificação completa da égua e do garanhão, a técnica reprodutiva utilizada, as responsabilidades durante a permanência do animal e quais comprovantes serão entregues ao proprietário.
Na criação de cavalos, genealogia é parte do valor do produto. Confirmá-la com documentação consistente protege o registro do potro, o investimento do criador e a credibilidade de quem presta o serviço reprodutivo.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.