Dar nome à galinha faz criança querer comer menos frango? Estudo revela efeito curioso

Experimentos com crianças de 5 e 6 anos indicam que apresentar uma ave como um indivíduo único, com nome e características próprias, pode diminuir a escolha de frango em uma tarefa experimental, mas o efeito depende da preferência prévia por carne

Uma galinha com nome, hábitos e gostos próprios pode mudar a forma como uma criança enxerga a carne que chega ao prato. Dois experimentos realizados com 199 crianças polonesas de 5 e 6 anos encontraram evidências de que transformar uma ave genérica em um indivíduo reconhecível reduziu, em determinadas condições, tanto a intenção de consumi-la quanto a preferência por representações de carne de frango. O trabalho foi conduzido por pesquisadoras da SWPS University, na Polônia, e publicado no periódico científico Appetite.

O resultado, porém, tem limites claros. O experimento não acompanhou refeições reais nem demonstrou uma redução permanente do consumo de carne. O efeito apareceu principalmente entre crianças que já não demonstravam forte preferência por carne e não se estendeu da galinha para a carne suína. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Dar nome à galinha alterou escolhas no experimento

A pesquisa foi conduzida por Aleksandra Rabinovitch, Katarzyna Cantarero e Katarzyna Byrka. O primeiro estudo reuniu 94 crianças e o segundo, 105, todas em idade pré-escolar, entre 5 e 6 anos.

A pergunta central era simples: quando uma criança deixa de enxergar apenas “uma galinha” e passa a conhecer um animal específico, essa individualização interfere na disposição de consumir aquela ave ou carne proveniente de outros animais da mesma espécie?

No primeiro experimento, as crianças do grupo de individualização conheceram uma galinha chamada Lelek. Além do nome, receberam informações sobre preferências e hábitos particulares do animal. No grupo de comparação, informações semelhantes foram apresentadas como características das galinhas em geral, sem transformar uma ave em um indivíduo distinto.

Depois, os participantes receberam peças para montar um sanduíche de brinquedo. Entre as opções estavam representações de queijo, tomate, carne de frango e carne suína.

Foi essa tarefa que permitiu observar a escolha alimentar de maneira menos abstrata. Ainda assim, há uma diferença essencial: as crianças não estavam diante de comida de verdade. O sanduíche funcionou como uma medida comportamental indireta, usada pelos pesquisadores como aproximação da preferência pela carne.

Não bastava apenas colocar um nome na ave

O segundo experimento buscou entender melhor o que estava produzindo o efeito.

As crianças foram divididas em três grupos. Em um deles, conheceram uma galinha chamada Chico, apresentada como um animal único, com características próprias. Em outro, Chico também tinha nome, mas suas características eram descritas como semelhantes às das demais galinhas. O grupo de controle recebeu informações gerais sobre as aves.

Essa comparação mostrou uma diferença importante: o nome sozinho não explicou o resultado.

A redução na escolha de representações de carne de frango foi mais evidente quando o animal era apresentado como um indivíduo singular, e não simplesmente como uma galinha que por acaso tinha um nome.

A individualização, portanto, parece ser mais relevante do que o ato isolado de batizar o animal.

Essa percepção encontra paralelo em pesquisas que vêm examinando a própria cognição das galinhas, incluindo capacidades de reconhecimento, aprendizagem e comportamento social.

Efeito chegou a outras galinhas, mas não aos porcos

Outro ponto importante foi descobrir até onde essa reação poderia se espalhar.

A individualização de uma galinha não afetou apenas a disposição de consumir aquele animal específico. Entre determinadas crianças, houve também redução na quantidade de peças que representavam carne de outras galinhas na montagem do sanduíche.

Já com a carne suína o resultado foi diferente.

As escolhas relacionadas ao porco não apresentaram a mesma mudança, indicando que o efeito não se transformou em uma rejeição generalizada à carne.

Em outras palavras, conhecer uma galinha como indivíduo parece ter influenciado a percepção de outros animais da mesma espécie, mas essa resposta não avançou de maneira equivalente para uma espécie diferente.

Esse limite é importante porque impede uma conclusão muito mais ampla do que os dados permitem. O estudo não mostra que a criança passou a rejeitar produtos de origem animal como um todo.

Crianças que já gostavam muito de carne mudaram menos

A preferência alimentar anterior foi um dos fatores mais importantes encontrados pelos pesquisadores.

Os efeitos apareceram entre crianças que declaravam baixo ou moderado gosto por carne. Para aquelas que já demonstravam gostar bastante desse alimento, a apresentação de uma galinha individualizada não produziu a mesma redução nas escolhas.

Isso sugere que a percepção sobre o animal não atua isoladamente.

Hábitos alimentares, preferências já formadas e provavelmente o próprio ambiente familiar continuam sendo elementos relevantes para entender como uma criança decide o que deseja comer.

As autoras, portanto, não apresentam a individualização dos animais como um mecanismo capaz de simplesmente substituir preferências alimentares consolidadas.

Pesquisa anterior já havia encontrado mudança na relação com o animal

O trabalho de 2026 dá sequência a um estudo publicado pelas pesquisadoras em 2024.

Na ocasião, dois experimentos reuniram 208 crianças em idade pré-escolar, que foram apresentadas a imagens de porcos e galinhas. Quando os animais recebiam um nome e preferências específicas, os participantes demonstravam maior vontade de fazer amizade com eles, percebiam maior proximidade entre o animal e seres humanos e apresentavam menor disposição declarada para consumi-los.

A diferença é que o novo trabalho acrescentou uma tarefa de escolha.

Em vez de observar apenas respostas dadas pelas crianças, os pesquisadores passaram a avaliar também quais peças seriam utilizadas na montagem do sanduíche de brinquedo.

Isso fortalece o desenho experimental, mas não transforma a atividade em uma medição de consumo real. Os próprios autores tratam a tarefa como uma medida comportamental aproximada da seleção de carne.

O que a descoberta representa para uma gigante cadeia de proteína animal

A pesquisa foi conduzida na Polônia e não avaliou consumidores brasileiros. Ainda assim, estudos sobre a relação entre consumidores e animais de produção chamam atenção em uma cadeia que possui enorme peso econômico no Brasil.

Dados consolidados pela Associação Brasileira de Proteína Animal mostram que o país produziu 15,289 milhões de toneladas de carne de frango em 2025 e exportou 5,324 milhões de toneladas. O consumo nacional chegou a 46,7 quilos por habitante, enquanto o Brasil permaneceu como maior exportador mundial e terceiro maior produtor da proteína.

Esse tamanho foi construído após décadas de mudanças em genética, alimentação, sanidade, manejo e organização industrial, que transformaram profundamente a avicultura brasileira.

Ao mesmo tempo, atributos ligados à origem dos alimentos e às condições de criação dos animais ganharam espaço na relação com o consumidor. Na produção de ovos, por exemplo, diferentes sistemas de criação das galinhas já fazem parte da diferenciação observada nas prateleiras.

Isso não significa que o estudo polonês possa ser usado para prever queda no consumo brasileiro de frango.

Ele não avaliou compradores adultos, preços, decisão de compra em supermercados, hábitos familiares ou consumo de longo prazo. Também não envolveu crianças brasileiras.

Sua contribuição é mais específica: mostrar experimentalmente que a maneira como um animal de produção é percebido pode interferir em escolhas relacionadas ao alimento obtido daquela espécie.

O estudo não prova que batizar uma galinha muda o cardápio

O resultado chama atenção justamente porque parece simples: dar identidade a um animal pode alterar a percepção sobre ele. Mas seria incorreto transformar essa constatação em uma regra.

O trabalho não demonstra que uma criança deixa de comer frango depois de conhecer uma galinha com nome. Também não permite afirmar que o efeito permanece por semanas, meses ou anos.

O que os experimentos encontraram foi mais restrito.

Entre crianças que já não apresentavam forte preferência por carne, conhecer uma galinha como um indivíduo único esteve associado a menor disposição para consumir aquela ave e a uma redução na seleção de representações de carne de frango em uma tarefa experimental.

Quando o animal apenas recebia um nome, sem ser claramente diferenciado dos demais, o efeito era menor. E quando o alimento vinha de uma espécie diferente, como o porco, a mudança praticamente desaparecia.

A curiosidade do estudo está justamente nessa fronteira: para algumas crianças, deixar de enxergar apenas “uma galinha” e passar a enxergar “aquela galinha” foi suficiente para mudar uma escolha experimental relacionada à carne — mas não para apagar preferências alimentares já existentes nem produzir uma rejeição geral ao consumo de carne.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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