Do telhado durante a enchente à possibilidade de ser pai: Cavalo Caramelo pode ganhar seu primeiro filhote

Hora Extra, égua Crioula de seis anos, chegou ao Hospital Veterinário da Ulbra para um projeto de reprodução com o cavalo que se tornou símbolo das enchentes no Rio Grande do Sul; antes de qualquer acasalamento, haverá exames, adaptação e acompanhamento veterinário

Poucos cavalos brasileiros carregam uma história tão reconhecida quanto Caramelo. Em maio de 2024, milhões de pessoas acompanharam o animal ilhado sobre o telhado de uma casa em Canoas enquanto as águas tomavam parte do Rio Grande do Sul. Resgatado, recuperado e posteriormente adotado pela Ulbra, ele passou de sobrevivente da enchente a um dos grandes símbolos daquele episódio. Mais de dois anos depois, a história pode ganhar um personagem novo: um filho de Caramelo.

A Ulbra confirmou que recebeu no Hospital Veterinário de Canoas a égua Hora Extra, uma Crioula de seis anos escolhida para participar de um projeto reprodutivo com o cavalo. Se todas as etapas veterinárias transcorrerem adequadamente, a reprodução será realizada por monta natural e um eventual descendente poderá nascer no final de 2027.

Mas não existe gestação confirmada — e nem mesmo acasalamento realizado até agora. A universidade deixa claro que haverá uma sequência de avaliações antes de os dois animais serem colocados juntos.

Quem é Hora Extra

Hora Extra chegou à Ulbra em 9 de setembro, procedente de São Sebastião do Caí, no Vale do Caí.

A égua tem seis anos, aproximadamente 350 quilos e pelagem zaina, caracterizada pela tonalidade marrom-escura. Ela foi doada por um criador que preferiu não ter o nome divulgado.

Outro detalhe foi considerado relevante para o projeto: Hora Extra nunca teve cria.

Segundo a universidade, ela apresenta temperamento dócil e, além da possibilidade de reprodução, passará a integrar as atividades práticas e de ensino dos estudantes de Medicina Veterinária.

Antes disso, porém, vem a avaliação clínica.

A diretora do Hospital Veterinário da Ulbra, Laura Cezimbra, informou que a égua passará por exames, período de adaptação e recuperação de condição corporal antes de qualquer tentativa de aproximação reprodutiva.

Foto Divulgação

O primeiro encontro já aconteceu — separado por uma cerca

Caramelo percebeu rapidamente que havia uma nova moradora.

Quando Hora Extra chegou ao local, os animais foram mantidos inicialmente separados. Mesmo assim, conseguiram se observar através da cerca.

Segundo o relato oficial da Ulbra, Caramelo correu, relinchou e se aproximou para cheirar a égua.

Por enquanto, a aproximação permanece controlada.

Hora Extra terá sua própria baia durante o período inicial. Somente depois da adaptação e quando estiver no estágio adequado do ciclo reprodutivo é que existe a possibilidade de os dois serem colocados juntos em um dos piquetes do Hospital Veterinário.

A reprodução prevista será por monta natural.

Caramelo está com cerca de 11 anos

O cavalo que apareceu sobre o telhado em Canoas está hoje com aproximadamente 11 anos.

Segundo a Ulbra, ele pesa cerca de 550 quilos e apresenta condições de saúde consideradas adequadas pelos profissionais responsáveis por seu acompanhamento.

A diferença para as imagens de maio de 2024 é enorme.

Depois do resgate, Caramelo foi levado justamente ao Hospital Veterinário da Ulbra, onde recebeu atendimento e iniciou sua recuperação.

Como nenhuma das reivindicações posteriores de propriedade conseguiu comprovar a titularidade do animal, ele acabou adotado pela universidade.

Desde então, passou a viver no campus e também participa de atividades acadêmicas.

Em janeiro deste ano, a instituição abriu oficialmente visitação ao cavalo, mediante agendamento. Seu perfil oficial nas redes sociais já reunia mais de 100 mil seguidores naquele momento.

Um filhote poderia nascer em 2027

Ainda existe um longo caminho entre a chegada de Hora Extra e o nascimento de um potro.

A gestação equina dura, em média, aproximadamente 11 meses. A própria Ulbra estima que, caso a égua fique prenhe nos próximos meses, um eventual nascimento poderia acontecer no final de 2027.

Primeiro será necessário concluir os exames.

Depois virão adaptação, acompanhamento do ciclo reprodutivo, aproximação dos animais, monta e diagnóstico de gestação.

Somente depois dessas etapas será possível falar efetivamente em um descendente.

Por isso, dizer neste momento que “Caramelo será pai” seria incorreto. Existe um projeto de reprodução e uma possibilidade concreta, mas não uma prenhez confirmada.

Projeto não pretende criar uma linhagem genética de Caramelo

Existe ainda uma distinção importante.

O projeto possui caráter afetivo e simbólico, e não um programa de preservação genética ou formação de linhagem.

Laura Cezimbra explicou que a ideia surgiu justamente da relação criada entre Caramelo e as pessoas que acompanham sua trajetória desde o resgate. A intenção é permitir que essa história tenha continuidade por meio de um descendente.

Isso também significa que não seria adequado atribuir ao futuro cruzamento qualquer promessa de desempenho esportivo, conformação ou valor genético.

Hora Extra é uma égua Crioula, mas não há base para transformar o eventual descendente em projeto de seleção racial ou esportiva.

O significado está em outro lugar.

Da sobrevivência a uma nova vida

Em 9 de maio de 2024, Caramelo precisou ser retirado de cima de um telhado cercado pela água.

O resgate envolveu bombeiros, veterinários, barcos e uma operação acompanhada ao vivo por milhões de brasileiros.

Depois vieram recuperação, adoção, vida no Hospital Veterinário, visitas e uma presença que permaneceu ligada à memória da enchente.

Agora existe a possibilidade de outro capítulo.

A própria universidade pretende envolver a comunidade caso a gestação seja confirmada. Depois que for possível identificar o sexo do eventual filhote, a ideia é realizar uma campanha para que o público ajude a escolher seu nome.

Antes disso, entretanto, a equipe veterinária seguirá a ordem natural do processo.

Exames. Adaptação. Aproximação. Reprodução. Diagnóstico.

Só então será possível saber se o cavalo que sobreviveu durante dias cercado pelas águas realmente deixará um descendente.

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