Na data que marca dois anos de sua morte, homenagem do filho relembra a trajetória do selecionador que defendeu a pureza racial e ajudou a formar gerações de pecuaristas. À frente do criatório, Paulo Leonel mantém os princípios do pai.
Há nomes que permanecem na história da pecuária pelos animais que selecionaram, pelos conhecimentos que compartilharam e pelos caminhos que abriram. Adir do Carmo Leonel reuniu essas três marcas. Neste domingo, 4 de outubro, completam-se dois anos da morte de um dos grandes nomes do Nelore brasileiro, cuja influência continua presente nos rebanhos e na memória de quem conviveu com ele.
Adir morreu em 4 de outubro de 2024, aos 85 anos, em Ribeirão Preto (SP), após um ano de tratamento contra um câncer. Sua partida mobilizou criadores, técnicos e entidades do setor, que reconheceram a contribuição de uma vida dedicada à seleção e ao desenvolvimento da pecuária nacional.
Na homenagem publicada nas redes sociais neste aniversário de sua morte, o filho, Paulo Leonel, relembrou uma trajetória em que o compromisso com os animais e com o campo se confundia com a própria história da família.
“Hoje, 4 de outubro, completamos dois anos de saudade de Adir do Carmo Leonel — um nome que se tornou sinônimo de dedicação, visão e paixão pela pecuária brasileira”, escreveu.
A mensagem traduz um sentimento que ultrapassa o ambiente familiar: a ausência de um mestre cuja maneira de observar, selecionar e ensinar marcou gerações.
Uma vida dedicada à seleção
Nascido em 1939, filho e neto de pecuaristas, Adir cresceu em contato com a terra e os animais. A experiência adquirida no campo se transformou em um trabalho reconhecido pela atenção aos detalhes e pela convicção de que a seleção precisava produzir resultados nas condições reais das fazendas.
Na homenagem, Paulo destacou a adoção pioneira de ferramentas como inseminação artificial e transferência de embriões. A tecnologia, na trajetória do pai, caminhava ao lado da observação criteriosa e do respeito às características das raças.
“Acima de tudo, Adir Leonel acreditava que preservar e aprimorar as linhagens era honrar a história e preparar o futuro”, registrou o filho.
Seu olhar também ganhou projeção nas pistas. Como jurado das raças zebuínas da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Adir concedeu os primeiros campeonatos a animais que se tornariam referências, entre eles Chummak, Gangayah do Brumado, Inca, Vasuveda e Ludy de Garça.
Ao recordar essa passagem, a homenagem ressalta a capacidade do selecionador de reconhecer exemplares que ajudariam a orientar o desenvolvimento do Nelore.
A pureza racial que defendeu com unhas e dentes
Adir sempre defendeu com unhas e dentes a pureza racial do Nelore. Esse princípio orientava sua escolha de reprodutores, matrizes e acasalamentos, com atenção permanente à funcionalidade e à produtividade.
Em sua visão, preservar a identidade da raça significava conservar atributos essenciais à produção no Brasil tropical: adaptação, rusticidade, habilidade materna e eficiência. O objetivo era formar animais capazes de expressar essas características a pasto e transmitir qualidade às gerações seguintes.
Sua seleção envolvia o resgate de linhagens e a avaliação do desempenho no próprio rebanho comercial. A preocupação com o padrão racial estava associada à busca por precocidade, qualidade de carcaça e animais que respondessem às necessidades do pecuarista.
A homenagem do filho recupera essa filosofia ao lembrar que, desde a década de 1970, Adir defendia um modelo de seleção que respeitasse a essência do Nelore e assegurasse eficiência produtiva.
Segundo a mensagem, sêmen e embriões de sua genética chegaram a mais de uma dezena de países. Essa presença internacional ampliou o alcance de um trabalho construído ao longo de décadas.
O mestre que compartilhava conhecimento
A dimensão de seu legado também aparece nas lembranças de outros criadores. Após sua morte, o ex-presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), Nabih Amin El Aouar, destacou a generosidade com que Adir difundia conhecimento e ajudava pecuaristas a aprimorar seus plantéis. “Adir do Carmo Leonel não era apenas um Nelorista, Adir foi um marco na história da pecuária brasileira”, afirmou Nabih.
Dois anos depois, a mensagem de Paulo reforça justamente essa permanência dos ensinamentos:
“Hoje, sua ausência ainda é sentida, mas sua presença permanece em cada animal selecionado com critério, em cada rebanho que carrega sua genética e em cada pessoa que aprendeu com sua sabedoria.”
O tributo reúne o reconhecimento ao selecionador e a saudade do pai. Ao descrevê-lo como “um formador de caminhos, um guardião da raça e um visionário da pecuária brasileira”, o filho ressalta a responsabilidade de levar adiante aquilo que aprendeu.
Paulo Leonel segue os passos do pai
À frente do criatório, Paulo Leonel dá continuidade ao trabalho de Adir, mantendo a preservação das linhagens e a seleção de animais funcionais e produtivos como referências.
Um capítulo recente dessa trajetória foi a aquisição, anunciada em julho de 2026, do rebanho-base Gir da Fazenda Café Velho, em Cravinhos (SP). O plantel foi desenvolvido por José Luiz Junqueira Barros, o Bi, reconhecido pelo trabalho de seleção e pelos resultados nas pistas da ExpoZebu.
A compra envolveu 32 fêmeas e um reprodutor, destinados ao núcleo Gir do Grupo Adir, na Fazenda Barreiro Grande, em Nova Crixás (GO). Ao explicar a decisão, Paulo destacou a preservação daquele patrimônio: “É uma preservação da genética. Eu estou ficando com a origem de tudo.”
A iniciativa dá continuidade a um princípio defendido pelo pai durante toda a vida: preservar uma genética exige trabalho constante e compromisso com o futuro. Dois anos após sua partida, Adir Leonel permanece presente nessa missão — agora conduzida pelo filho, que segue seus passos.
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