Égua se torna primeiro cavalo tratado com ondas de ultrassom para destruir tumor

Pea, uma égua Hanoveriana de 9 anos, permaneceu acordada e em estação enquanto pesquisadores testavam a histotripsia contra um sarcoide; tecnologia ainda está em fase experimental

Uma égua de 9 anos tornou-se o primeiro cavalo tratado in vivo com uma tecnologia experimental que utiliza ondas focalizadas de ultrassom para destruir tecido tumoral. O procedimento foi realizado enquanto o animal permanecia em pé e consciente.

A paciente, chamada Pea, é uma Hanoveriana que participou de um ensaio clínico conduzido pela Virginia-Maryland College of Veterinary Medicine, da Virginia Tech, nos Estados Unidos. O alvo do experimento era um sarcoide, considerado o tumor de pele mais comum em cavalos e conhecido pela dificuldade de tratamento e possibilidade de recorrência.

A técnica utilizada é chamada de histotripsia e tem origem em pesquisas desenvolvidas inicialmente para aplicações na medicina humana.

Como o ultrassom destrói o tumor

Diferentemente de tratamentos que utilizam calor para destruir tecidos, a histotripsia trabalha com um mecanismo essencialmente mecânico.

O equipamento concentra ondas de ultrassom de alta intensidade em uma região específica, criando uma nuvem de microbolhas dentro do tecido-alvo. A rápida expansão e o colapso dessas bolhas provocam a ruptura das células.

A tecnologia vem sendo pesquisada para tumores em órgãos humanos e também já havia sido estudada em cães. O experimento com Pea buscou responder uma questão fundamental: seria possível adaptar a técnica para um cavalo vivo e mantido em estação?

Pea Kuykendall durante seu tratamento de histotripsia no Hospital Veterinário Universitário. Foto de Madison Brown para Virginia Tech.

Durante o procedimento, o equipamento foi posicionado sobre o pequeno sarcoide localizado no abdômen da égua. Segundo a equipe, Pea tolerou a aplicação sem demonstrar desconforto aparente relacionado à histotripsia.

Sarcoide é desafio frequente nos cavalos

Os sarcoides podem atingir animais de diferentes raças, idades e utilizações e estão associados ao papilomavírus bovino (BPV) e à suscetibilidade genética do cavalo.

As lesões variam bastante. Algumas permanecem pequenas, enquanto outras podem crescer, ulcerar, sangrar e provocar problemas dependendo de sua localização.

Atualmente existem diferentes estratégias de tratamento, incluindo cirurgia, crioterapia e terapias associadas à quimioterapia. Entretanto, não existe uma solução única adequada para todos os casos, e a possibilidade de retorno do tumor é uma das preocupações.

É justamente nesse ponto que a histotripsia desperta interesse. Se os estudos demonstrarem segurança e eficácia, a técnica poderá futuramente oferecer uma alternativa para destruir seletivamente determinadas lesões sem recorrer inicialmente a uma cirurgia convencional.

Tecnologia precisou ser adaptada aos cavalos

Levar uma tecnologia desenvolvida para humanos até um animal de aproximadamente meia tonelada exigiu adaptações.

Carson Hoffman conectando o aparelho de histotripsia a Pea Kuykendall. Foto de Madison Brown para Virginia Tech.

Em determinados sistemas utilizados em pessoas, um banho de água auxilia na transmissão das ondas acústicas até o tecido. Para permitir o tratamento de um cavalo em pé, os pesquisadores desenvolveram um acoplador sólido à base de gel, capaz de transmitir a energia até o tumor.

A equipe também pretende desenvolver uma versão mais potente e portátil do equipamento, que futuramente poderia ser transportada por veterinários e utilizada nas próprias propriedades.

Essa possibilidade permitiria tratar determinadas lesões ainda pequenas, antes que evoluíssem para massas maiores e mais difíceis de manejar.

Tumor foi retirado para análise

Apesar do resultado inicial, o caso de Pea não significa que a histotripsia já seja uma cura comprovada para sarcoides.

No dia seguinte ao procedimento experimental, o tumor foi retirado cirurgicamente para que os pesquisadores pudessem analisar o tecido atingido pelas ondas.

A equipe confirmou destruição tumoral nas regiões submetidas à histotripsia. Depois da cirurgia e de uma noite no hospital veterinário, a égua retornou para casa.

O estudo, porém, ainda está no início. Os pesquisadores precisam incluir mais quatro cavalos nesta fase do projeto para avaliar melhor a segurança, a precisão e a capacidade da tecnologia de atingir o tecido desejado.

Também permanece uma questão importante: ainda não se sabe se o procedimento será capaz de reduzir de maneira confiável a recorrência dos sarcoides.

Por enquanto, portanto, a histotripsia continua sendo uma tecnologia experimental e não um tratamento disponível rotineiramente para cavalos.

Mesmo assim, Pea ajudou a superar uma primeira barreira: demonstrar que é possível aplicar ondas focalizadas de ultrassom para destruir tecido tumoral em um cavalo vivo, consciente e mantido em estação.

Agora, novos testes deverão mostrar se a tecnologia poderá avançar de um experimento universitário para uma alternativa efetiva na medicina equina.

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