El Niño ganha força e NOAA aponta mais de 90% de chance de evento muito forte

Aquecimento do Pacífico avançou nas últimas semanas e projeções oficiais indicam que o fenômeno pode atingir intensidade excepcional entre a primavera e o início do verão. Para o Brasil, o cenário aumenta a atenção sobre chuva no Sul, períodos secos em parte do Norte e mudanças no calendário das lavouras

O El Niño está se fortalecendo rapidamente no Oceano Pacífico e entra na primavera brasileira sob um cenário que exige atenção do setor agropecuário. A atualização mais recente da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) aponta probabilidade superior a 90% de o fenômeno alcançar intensidade muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o inverno 2026/27 do Hemisfério Norte.

Os dados apresentados pela Climatempo, com base no monitoramento do Pacífico e nas projeções da NOAA, mostram que a anomalia semanal da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 chegou recentemente a 2 °C. O aquecimento é ainda mais expressivo no Pacífico equatorial oriental, indicando que o episódio continua ganhando força.

Pacífico mostra aquecimento cada vez mais intenso

Na atualização oficial de 10 de setembro, a NOAA informou que as anomalias de temperatura da superfície do mar já superavam 3 °C em partes do Pacífico equatorial oriental. Os índices chegaram a +1,8 °C na região Niño 3.4, +2,5 °C na Niño 3 e +3,4 °C na Niño 1+2 durante agosto.

O sinal não está restrito ao oceano. Alterações nos ventos e na distribuição da convecção tropical mostram que oceano e atmosfera estão acoplados, uma das características fundamentais para a consolidação e fortalecimento do El Niño.

É importante, porém, fazer uma distinção: uma leitura semanal elevada da temperatura do Pacífico não determina isoladamente a classificação oficial da intensidade do fenômeno. A NOAA utiliza atualmente o Relative Oceanic Niño Index (RONI), calculado a partir de médias móveis trimestrais e considerando também o aquecimento médio dos oceanos tropicais.

El Niño pode alcançar patamar histórico

É justamente nesse ponto que a atualização de setembro chama atenção. Para o trimestre outubro-novembro-dezembro de 2026, a NOAA calcula 75% de probabilidade de o atual episódio alcançar um patamar que supere os eventos anteriores registrados desde 1950, considerando um RONI trimestral de pelo menos +2,5 °C.

A projeção probabilística oficial coloca a mediana do RONI em aproximadamente +2,67 °C no trimestre outubro-novembro-dezembro, com possibilidade de valores ainda superiores. Para setembro-outubro-novembro, a mediana projetada é de +2,43 °C.

Isso não significa que já seja possível afirmar que este será “o maior El Niño da história”. A própria NOAA trabalha com probabilidades. O que mudou é que a possibilidade de um episódio excepcional passou a ocupar posição cada vez mais relevante nas projeções.

Fenômeno deve atravessar o verão

Outro aspecto importante é a duração. As projeções da NOAA mantêm 100% de probabilidade de El Niño nos trimestres até dezembro-janeiro-fevereiro, enquanto a chance permanece em 97% no período fevereiro-março-abril. Somente posteriormente aumenta de maneira significativa a possibilidade de retorno à neutralidade.

Na prática, a influência do fenômeno poderá acompanhar a primavera, o verão e pelo menos parte do outono de 2027, justamente durante uma janela decisiva para a safra brasileira.

O que um El Niño muito forte pode significar para o Brasil

Para o produtor rural, intensidade elevada não significa automaticamente que haverá eventos extremos em todos os locais. A NOAA ressalta que um El Niño mais forte aumenta a probabilidade dos padrões normalmente associados ao fenômeno, mas não garante que eles ocorram com a mesma intensidade em cada região.

Historicamente, no Brasil, episódios de El Niño estão associados a uma maior frequência de chuvas acima da média no Sul, enquanto partes do Norte e Nordeste podem enfrentar períodos de precipitação abaixo da normalidade. A intensidade, duração e localização dessas anomalias dependem também da atuação de outros sistemas atmosféricos.

Para o agronegócio, isso coloca no radar questões como implantação das lavouras de verão, excesso de umidade e dificuldade de entrada das máquinas no Sul, irregularidade das chuvas em outras áreas produtoras, disponibilidade de pastagens e risco de ondas de calor.

O cenário também exige cautela com interpretações determinísticas. Mesmo um El Niño classificado como muito forte não permite prever, sozinho, quanto choverá em determinada fazenda ou município.

Por isso, à medida que a primavera avança, as atualizações dos modelos sazonais e das previsões de curto e médio prazo ganham ainda mais importância para decisões de plantio, manejo, colheita e pecuária.

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