Projeção do Programa Mundial de Alimentos aponta que um El Niño muito intenso pode pressionar safras, preços e o acesso à comida em regiões já vulneráveis
O El Niño pode ganhar força e ampliar crise alimentar em diferentes regiões do mundo ao longo dos próximos meses. Projeções do Programa Mundial de Alimentos (PMA) indicam que quase 49 milhões de pessoas adicionais podem entrar em situação de insegurança alimentar aguda até o fim de 2027, caso o fenômeno alcance elevada intensidade.
Atualmente, cerca de 225 milhões de pessoas já enfrentam esse nível de vulnerabilidade nos países acompanhados pelo organismo. Em um cenário mais severo, o total poderia avançar para aproximadamente 274 milhões, resultado da combinação entre perdas agrícolas, eventos climáticos extremos e dificuldades econômicas para acessar alimentos.
El Niño pode ganhar força e ampliar crise alimentar no campo
O principal risco para o agronegócio está na alteração do regime de chuvas.
Em determinadas regiões, o El Niño costuma favorecer períodos prolongados de estiagem, reduzindo a disponibilidade de água para lavouras e pecuária. Em outras, o problema pode surgir pelo excesso de precipitação, com enchentes capazes de comprometer áreas produtivas, estradas e estruturas de armazenamento.
Esse desequilíbrio climático pode atingir diretamente a produtividade agrícola e elevar os custos de produção e distribuição.
Para países mais dependentes da agricultura de subsistência, uma safra abaixo do esperado também significa menos renda para produtores e menor disponibilidade de alimentos nos mercados locais.
América Central e sul da África concentram preocupação
As projeções apontam maior vulnerabilidade em partes da América Central e do sul da África, regiões onde a agricultura depende fortemente das condições climáticas e onde muitas famílias possuem menor capacidade financeira para absorver perdas produtivas.
Países da Ásia, da América Latina e do Caribe também podem enfrentar impactos, embora os efeitos variem conforme a intensidade do fenômeno e o comportamento das chuvas em cada território.
O histórico mostra por que o cenário é acompanhado de perto. No episódio intenso registrado entre 2015 e 2016, dezenas de milhões de pessoas tiveram a segurança alimentar afetada em diferentes partes do planeta.
El Niño pode ganhar força e ampliar crise alimentar além das lavouras
Os efeitos econômicos não terminam quando ocorre uma quebra de safra.
Menor produção pode reduzir estoques, pressionar preços e comprometer a renda das famílias rurais. Ao mesmo tempo, dificuldades no transporte e no abastecimento podem encarecer alimentos até mesmo em áreas que não sofreram perdas agrícolas diretas.
Esse efeito em cadeia explica por que o impacto sobre a segurança alimentar pode continuar mesmo depois da fase mais intensa do fenômeno climático.
Populações de baixa renda tendem a ser as mais expostas, principalmente em países que já enfrentam inflação elevada, conflitos ou dependência de importações.
Outro fenômeno climático também entra no radar
Além do El Niño, meteorologistas monitoram o comportamento do Dipolo do Oceano Índico, conhecido pela sigla IOD.
Em sua fase positiva, esse fenômeno pode modificar a circulação atmosférica e alterar a distribuição das chuvas entre regiões da África, Ásia e Oceania.
Caso ocorra simultaneamente a um El Niño forte, a combinação poderá aumentar a irregularidade climática em algumas áreas agrícolas, tornando o planejamento das safras ainda mais complexo.
Prevenção pode reduzir os danos
Diante do risco, organismos internacionais defendem que medidas de adaptação sejam adotadas antes que os efeitos climáticos avancem.
Entre as estratégias estão o reforço de sistemas de alerta, ampliação do armazenamento de água, proteção dos rebanhos, escolha de sementes mais resistentes e apoio financeiro para produtores localizados em áreas vulneráveis.
A antecipação é considerada essencial porque os impactos de uma safra comprometida podem se estender por vários meses.
Caso as projeções se confirmem, o próximo El Niño poderá representar não apenas um desafio climático, mas também um problema econômico e social, com reflexos sobre produção, preços, abastecimento e acesso à alimentação em diferentes partes do mundo.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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