Ela nunca planejou ser fazendeira, mas acabou assumindo propriedade da família cuja história remonta a 1599

Helen Stewart estudou Literatura e imaginava construir a vida longe da gestão rural. Uma mudança inesperada na sucessão familiar a colocou à frente de uma fazenda escocesa ligada à sua família há mais de quatro séculos e, depois, de um projeto que transforma carne de cervos manejados em alimento para comunidades locais

Helen Stewart cresceu perto de Pitlochry, em Perthshire, na Escócia, sem imaginar que seria responsável pela fazenda da família. Filha mais nova, ela conta que cresceu acreditando que o negócio rural ficaria com o irmão. Seguiu outro caminho, estudou Língua e Literatura Inglesa na Universidade de Glasgow e começou a desenvolver um projeto próprio ligado à produção de destilados. A ligação dos Stewart com a área rural onde ela vive atualmente é documentada desde 1599.

A mudança aconteceu quando a pequena destilaria criada por Helen estava começando a funcionar. Na mesma semana da abertura, segundo relato publicado pela Farmstrong Scotland em outubro de 2026, seu irmão decidiu que não seguiria na atividade agrícola. A decisão alterou os planos da família e colocou Helen diante da responsabilidade de participar diretamente da condução da propriedade. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Helen Stewart não havia se preparado para assumir a fazenda

A trajetória de Helen foge do modelo tradicional em que um sucessor passa anos sendo preparado para administrar o patrimônio rural.

Ela havia ido para Glasgow estudar e, aos 18 anos, começou a trabalhar em uma destilaria. A experiência despertou interesse pela produção de bebidas e acabou influenciando a criação de um negócio próprio na propriedade da família.

A Badvo Distillery informa que Helen passou cerca de três anos buscando financiamento, desenvolvendo o produto e reformando uma construção existente antes de abrir a destilaria em 2018. A Universidade de Glasgow confirma que ela concluiu a graduação em English Language e English Literature em 2017.

Até então, a ideia era transformar a destilaria em uma atividade que pudesse funcionar sem obrigá-la a permanecer definitivamente na fazenda.

O cenário mudou quando o irmão decidiu não assumir a atividade rural. Segundo a Farmstrong, Helen passou a trabalhar ao lado dos pais e a aprender na prática responsabilidades que não faziam parte do futuro que havia planejado.

O caso ajuda a ilustrar um dos principais desafios das propriedades familiares: sucessão não significa apenas transferir terra ou patrimônio. Ela envolve expectativas pessoais, viabilidade econômica, continuidade do negócio e a decisão de cada geração sobre permanecer ou não no campo.

O mesmo debate aparece em propriedades brasileiras, onde a sucessão familiar rural tem exigido mudanças na gestão e na forma como novas gerações são incorporadas aos negócios.

Uma história familiar documentada desde 1599

Um dos pontos mais incomuns da trajetória é a longevidade da ligação da família Stewart com a região.

Registros da Universidade de Glasgow e da Badvo Distillery indicam que a família estabeleceu a Badvo Hill Farm em 7 de julho de 1599, nas proximidades de Pitlochry. A propriedade atual administrada por Helen é identificada em fontes recentes como Knockbarry Farm, também descrita como uma fazenda familiar mantida pelos Stewart há mais de 400 anos.

Por isso, a formulação mais precisa é dizer que a história rural da família naquela área remonta a 1599, e não que toda a estrutura física ou configuração fundiária atual tenha permanecido inalterada desde o século XVI.

O próprio passado da família também ajudou Helen a desenvolver a destilaria. Segundo a Badvo, registros familiares mostram envolvimento anterior dos Stewart com produção de destilados na região.

Cervos passaram a pressionar a produção da propriedade

Depois de assumir responsabilidades na fazenda, Helen encontrou outro problema: uma população elevada de cervos-vermelhos circulando pelas áreas de pastagem.

A Knockbarry Farm trabalha com ovinos em área de colinas. Segundo a Cairngorms National Park Authority, a densidade de cervos chegou a 47 animais por quilômetro quadrado, quase cinco vezes acima da referência utilizada no projeto de manejo desenvolvido na região.

Helen também relatou à organização UnLtd que havia cerca de 650 cervos utilizando a área quando começou a lidar diretamente com o problema. Segundo ela, um levantamento indicava que o número compatível com a propriedade estaria próximo de 50 animais. Esse dado é baseado no relato da própria produtora publicado pela instituição em março de 2026.

A pressão dos animais tinha efeitos produtivos.

A Farmstrong relata redução de áreas disponíveis para pastejo e diminuição do número de animais mantidos pela família. Em determinado momento, os bovinos que integravam a operação foram retirados da propriedade.

Também havia uma questão ambiental. Parte das áreas utilizadas pelos cervos possui importância ecológica, e o excesso de animais pode intensificar o consumo da vegetação e o pisoteio de ambientes sensíveis.

Controle populacional criou outro desafio

Reduzir a quantidade de cervos passou a fazer parte da gestão da propriedade, mas o manejo trouxe uma segunda questão: qual destino dar à carne dos animais abatidos?

Segundo Helen, o processamento comercial não absorvia necessariamente todos os animais retirados em operações de controle populacional. A dificuldade de encaixar as carcaças na cadeia existente motivou a busca por outra solução.

Helen passou então a conversar com bancos de alimentos e organizações comunitárias da região.

Ela percebeu que simplesmente entregar grandes cortes de carne não resolveria o problema. As famílias atendidas precisavam de produtos mais simples de armazenar e preparar.

A ideia evoluiu para a Fair Feast, empresa social registrada no Reino Unido em 5 de abril de 2024, com atividades relacionadas ao processamento, atacado e varejo de carnes. O endereço empresarial registrado é a própria Knockbarry Farm.

Carne de cervo passou a abastecer bancos de alimentos

O modelo da Fair Feast consiste em processar carne proveniente do manejo de cervos e transformá-la em produtos como hambúrgueres, linguiças e carne moída.

Os alimentos são distribuídos principalmente para bancos de alimentos e estruturas comunitárias.

No primeiro ano de atividade, a Scottish Land & Estates informou que a organização havia distribuído aproximadamente duas toneladas de carne de cervo em Perthshire.

Dados mais recentes mostram expansão.

A Firstport informou em 2026 que a Fair Feast havia doado cerca de 2,5 toneladas de carne a bancos de alimentos locais. Em outro estudo de caso publicado pela mesma organização, o volume já aparece em 2,7 toneladas.

Já a atualização mais recente da Farmstrong Scotland, publicada em outubro de 2026, afirma que a iniciativa ultrapassou 25 mil porções de carne distribuídas.

Os números não devem ser somados ou tratados como indicadores equivalentes, porque algumas instituições apresentam toneladas distribuídas, enquanto outras usam porções ou pessoas potencialmente atendidas.

Venda da carne ajuda a financiar as doações

A Fair Feast não funciona apenas como iniciativa filantrópica.

Parte da carne é comercializada e a receita ajuda a sustentar o processamento e as doações.

Em maio de 2026, a organização abriu em Pitlochry um açougue estruturado como empreendimento social. Segundo a Firstport, a receita das vendas ao público é utilizada para financiar o fornecimento de carne a bancos de alimentos e despensas comunitárias.

O projeto também recebeu apoio ligado ao programa Cairngorms 2030, conduzido pela Cairngorms National Park Authority com recursos do National Lottery Heritage Fund.

A iniciativa ajudou na implantação de infraestrutura para processamento dos animais manejados, com a proposta de reduzir impactos ambientais, estimular um mercado local para carne de cervo e abastecer projetos sociais.

Essa integração entre manejo ambiental, produção de alimentos e geração de receita transformou um problema da propriedade em uma nova atividade econômica.

Sucessão inesperada abriu caminho para diversificação

A história de Helen também mostra que continuidade familiar não significa manter exatamente as mesmas atividades de uma geração para outra.

A propriedade permaneceu ligada à família por séculos, mas seu modelo atual inclui pecuária, destilação, processamento de carne e empreendedorismo social.

No Brasil, famílias rurais também vêm discutindo formas de preservar patrimônio sem impedir mudanças na atividade. Estratégias relacionadas a gestão, planejamento e continuidade do patrimônio familiar rural ganharam espaço justamente porque a permanência das novas gerações depende de condições econômicas e profissionais que façam sentido para quem assume o negócio.

A trajetória de Helen acrescenta ainda outro elemento: a presença feminina na liderança rural.

Segundo registros oficiais britânicos, Helen Stewart é atualmente diretora tanto da Fair Feast CIC quanto da Badvo Distillery Limited.

Essa combinação de gestão rural e empreendedorismo acompanha uma mudança mais ampla observada em diferentes países, com mulheres assumindo posições de decisão em propriedades, empresas e organizações ligadas ao setor. No Brasil, a participação feminina no agro também vem sendo acompanhada por entidades, pesquisas e iniciativas voltadas à gestão e à liderança no campo.

Mais de quatro séculos de história e um negócio em transformação

Hoje, a vida profissional de Helen reúne atividades que dificilmente fariam parte dos seus planos quando deixou a fazenda para estudar Literatura.

Ela administra responsabilidades rurais, mantém atuação na destilação e conduz a Fair Feast, que transformou o manejo de cervos em uma cadeia capaz de gerar produtos comerciais e abastecer famílias em situação de insegurança alimentar.

A propriedade familiar chegou a 2026 com 427 anos de história documentada desde 1599, mas sua continuidade não ocorreu apenas pela preservação do passado.

No caso de Helen Stewart, ela dependeu justamente da capacidade de mudar.

A sucessão inesperada levou à gestão da fazenda. O excesso de cervos exigiu uma resposta produtiva e ambiental. A necessidade de dar destino à carne abriu espaço para um empreendimento social.

Uma trajetória que começou com a certeza de que ela não seria fazendeira terminou colocando Helen no centro da próxima etapa de uma história familiar iniciada no século XVI.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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