Ao deixar o interior de São Paulo para apostar em uma Amazônia sem estradas e infraestrutura, Roque Quagliato transformou uma decisão considerada arriscada em um dos maiores legados da pecuária brasileira.
Há histórias que ajudam a explicar como a pecuária brasileira se transformou em uma das maiores do mundo. Esta é uma delas. Aos 33 anos, quando boa parte dos empresários preferia permanecer no interior de São Paulo, Roque Quagliato decidiu seguir na direção oposta. Deixou para trás a segurança dos negócios da família e apostou em uma região da Amazônia onde praticamente não existiam estradas pavimentadas, infraestrutura ou cidades consolidadas. Para muitos, era uma decisão difícil de compreender. Poucos imaginavam que aquela escolha daria origem, décadas depois, a um dos maiores empreendimentos pecuários do planeta.
No início havia pouco além de mata, barro e isolamento. Durante determinados períodos do ano, o transporte era um desafio, a comunicação era limitada e praticamente tudo precisava ser construído do zero. Era um cenário que afastava investidores, mas que despertava a visão de longo prazo do pecuarista paulista.
Mais de cinquenta anos depois, aquela aposta ajudou a transformar o sul do Pará em uma das principais regiões pecuárias do Brasil e consolidou um grupo que hoje administra cerca de 240 mil bovinos de corte, o maior rebanho privado individual do país.
Quando investir na Amazônia parecia uma loucura
Em 1973, Roque Quagliato desembarcou na região que hoje pertence ao município de Sapucaia, no sul do Pará.
A realidade encontrada era muito diferente daquela conhecida no interior paulista.
Segundo o próprio empresário, “não tinha cidade, não tinha estrada… não tinha nada.”
Foi naquele ambiente que nasceu a Fazenda Rio Vermelho, empreendimento que se tornaria o ponto de partida de um dos maiores grupos pecuários brasileiros. Com incentivos da então Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), iniciou a abertura das primeiras áreas produtivas e deu início a um projeto que cresceria continuamente nas décadas seguintes.
Imagine administrar uma fazenda onde quase tudo precisava ser criado
Hoje é difícil imaginar aquela realidade.
Na época, praticamente não havia infraestrutura logística, fornecedores especializados, energia disponível em larga escala ou uma cadeia organizada para sustentar uma operação pecuária de grande porte.
Cada avanço dependia de planejamento de longo prazo e de investimentos contínuos. Antes mesmo de pensar em ampliar o rebanho, era necessário criar as condições para que a atividade pudesse existir.
Foi justamente essa capacidade de construir antes de produzir que diferenciou o projeto desde o início.

O que parecia uma fazenda virou um império
O crescimento ocorreu de forma gradual, acompanhando a expansão da pecuária no sul do Pará.
Ao longo das décadas, novas propriedades foram incorporadas, a gestão tornou-se cada vez mais profissional e o Grupo Rio Vermelho passou a operar em escala nacional.
Nos anos 2000, o grupo já administrava aproximadamente 150 mil bovinos em mais de 85 mil hectares.
Mas a expansão não parou.
Em 2023, uma das maiores negociações imobiliárias do agronegócio brasileiro acrescentou cerca de 27 mil hectares ao patrimônio rural da empresa, elevando a área administrada para aproximadamente 112 mil hectares.
Hoje, o grupo reúne cerca de 240 mil cabeças de gado de corte — um efetivo superior ao rebanho bovino existente em centenas de municípios brasileiros — distribuídas em uma área equivalente a dezenas de milhares de campos de futebol.
Além do Pará, a família mantém operações em São Paulo, Goiás e Paraná, atuando também no setor sucroenergético.

Muito antes da intensificação virar tendência
Enquanto grande parte da pecuária brasileira ainda expandia a produção principalmente pela abertura de novas áreas, Roque Quagliato defendia outro caminho.
Seu lema era simples:
“Intensificar a pasto para preservar o meio ambiente.”
Décadas antes de a eficiência produtiva dominar os debates do agronegócio, o grupo já investia em recuperação de pastagens, manejo rotacionado, melhoramento genético, integração lavoura-pecuária (ILP) e tecnologias para elevar a produtividade sem depender da expansão contínua da área utilizada.
Uma filosofia que, anos depois, se tornaria referência para boa parte da pecuária nacional.
Por que essa história voltou a chamar atenção em 2026?
A trajetória de Roque Quagliato ganha um novo significado diante do momento vivido pela pecuária brasileira.
Com regras ambientais mais rigorosas, custos crescentes e maior dificuldade para abertura de novas áreas, produzir mais na mesma propriedade deixou de ser apenas uma vantagem competitiva e passou a ser uma necessidade econômica.
Nesse cenário, conceitos defendidos pelo empresário há décadas — como intensificação sustentável, recuperação de pastagens, eficiência produtiva e gestão profissional — voltaram ao centro das discussões do setor.
Em outras palavras, parte das respostas buscadas hoje pela pecuária brasileira já fazia parte da estratégia construída pelo Grupo Rio Vermelho muito antes de esses temas dominarem congressos, pesquisas e políticas públicas.
Nem mesmo um império cresce sem enfrentar desafios
A trajetória do grupo também foi marcada por episódios que extrapolaram os resultados produtivos.
Ao longo dos anos, surgiram questionamentos relacionados a temas ambientais, conflitos fundiários e fiscalizações trabalhistas, exigindo adaptações na condução dos negócios e maior atenção às exigências regulatórias.
Nos últimos anos, a empresa intensificou a adoção de práticas voltadas à conformidade ambiental, incluindo Cadastro Ambiental Rural (CAR), manutenção de reservas legais, corredores ecológicos e o fortalecimento do discurso em defesa da intensificação da produção como alternativa ao avanço sobre novas áreas.
Esses episódios ajudam a compreender como a gestão evoluiu diante das mudanças nas exigências do mercado, da legislação e da sociedade.

Um legado que continua influenciando a pecuária brasileira
Mais de cinquenta anos depois daquela decisão tomada em uma Amazônia praticamente sem infraestrutura, Roque Quagliato continua sendo uma das maiores referências da pecuária nacional.
Sua trajetória mostra que, embora os 240 mil bovinos impressionem, foi a capacidade de antecipar tendências que realmente consolidou seu legado. Da ocupação da fronteira agrícola à profissionalização da gestão e, mais recentemente, à intensificação sustentável, o empresário ajudou a moldar parte da evolução da bovinocultura brasileira.
A fazenda que nasceu em uma região onde, segundo ele próprio, “não havia cidade, não havia estrada… não havia nada” tornou-se um dos maiores símbolos de como visão de longo prazo, planejamento e capacidade de execução podem transformar uma aposta improvável em uma das histórias mais marcantes do agronegócio brasileiro.
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