Safras & Mercado aponta menor ritmo diário das exportações brasileiras de carne bovina em 2026; restrição chinesa amplia a importância de outros compradores para a pecuária.
As exportações brasileiras de carne bovina para a China sofreram uma queda de 94,2% em setembro na comparação com o mesmo mês de 2025, segundo levantamento da Safras & Mercado, elaborado com dados do comércio exterior. Os embarques ao mercado chinês ficaram em 10,88 mil toneladas, diante de 187,27 mil toneladas um ano antes, evidenciando o impacto da salvaguarda sobre o fluxo comercial.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos lideraram as compras de carne bovina brasileira no mês, absorvendo 74,5 mil toneladas em equivalente carcaça, conforme a consultoria. A demanda americana ajudou a compensar parte da retração chinesa, mas o ritmo diário das exportações brasileiras de carne bovina in natura encerrou setembro no menor nível do ano.
China reduz compras e muda o cenário das exportações
A desaceleração dos embarques para a China ganhou intensidade ao longo do terceiro trimestre. Depois de volumes superiores a 150 mil toneladas em maio e junho, as vendas brasileiras ao país recuaram para 82,71 mil toneladas em julho, 16,10 mil toneladas em agosto e 10,88 mil toneladas em setembro.
Os dados da Safras mostram uma mudança expressiva em relação ao início de 2026, quando os embarques mensais ao mercado chinês superavam os registrados nos mesmos períodos do ano anterior.
| Mês | Embarques à China em 2026 | Variação sobre 2025 |
|---|---|---|
| Junho | 158,36 mil toneladas | +17,81% |
| Julho | 82,71 mil toneladas | −47,78% |
| Agosto | 16,10 mil toneladas | −89,82% |
| Setembro | 10,88 mil toneladas | −94,19% |
Na avaliação da consultoria, o desempenho de setembro confirma que a restrição chinesa já vinha condicionando as operações comerciais. Entre agosto e setembro, o volume embarcado ao país caiu aproximadamente 32,4%.
Como a cota chinesa afeta a carne brasileira
O regime de salvaguarda estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,106 milhão de toneladas em 2026. Dentro desse limite, aplica-se a tarifa de importação de 12%; sobre o volume excedente, está prevista uma sobretaxa de 55%, conforme esclarecimento do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Essa cobrança adicional encarece a entrada do produto e dificulta novas negociações. Para frigoríficos e importadores, o planejamento passa a depender também do espaço disponível na cota e da data prevista para a chegada da mercadoria.
Os registros de embarque no Brasil e de importação na China precisam ser analisados separadamente. Uma carga exportada em determinado mês pode ser desembaraçada no destino semanas depois. Por isso, os dois conjuntos de dados não representam necessariamente as mesmas operações no mesmo período.
O relatório da Safras trabalha com um tempo habitual de transporte marítimo de 45 a 60 dias, intervalo que ganha importância na programação das vendas para a virada do ano.
Setembro tem o menor ritmo diário de 2026
A redução da participação chinesa também aparece no desempenho geral dos embarques brasileiros de carne bovina in natura.
Segundo o material da Safras & Mercado, com base em dados da Secex, a média diária passou de 13,32 mil toneladas em junho para 9,91 mil em julho, 9,32 mil em agosto e 9,29 mil em setembro.
Assim, setembro apresentou o menor ritmo diário da série de janeiro a setembro de 2026, aproximadamente 30,3% abaixo do registrado em junho.
A diferença em relação a agosto foi pequena, mas a sequência mostra que o fluxo exportador permaneceu em um patamar inferior ao observado antes da desaceleração das compras chinesas.
Estados Unidos ajudam a sustentar os embarques
As compras americanas tornaram-se um importante suporte para as exportações brasileiras em setembro. A Safras destaca que os Estados Unidos absorveram 74,5 mil toneladas em equivalente carcaça, assumindo a liderança entre os compradores no mês.
É necessário observar a unidade utilizada: equivalente carcaça não corresponde diretamente ao peso líquido dos cortes exportados. Dessa forma, esse número não deve ser comparado diretamente com as 10,88 mil toneladas embarcadas à China para calcular diferenças ou participação de mercado.
Ainda assim, a avaliação da consultoria aponta que o avanço americano ajudou a amortecer o efeito da retração chinesa. Para a indústria brasileira, ampliar outros destinos torna-se decisivo para manter o escoamento da produção.

O que muda para o pecuarista
A restrição no mercado chinês exige atenção do produtor porque altera as condições de venda da indústria frigorífica. Quando um comprador relevante reduz sua participação, os frigoríficos precisam encontrar outros destinos e ajustar suas operações.
Isso, porém, não determina sozinho o comportamento da arroba. A disponibilidade de animais terminados, as escalas de abate, o consumo doméstico e a demanda de outros importadores também influenciam as negociações.
Na prática, o pecuarista deve acompanhar a combinação entre exportações e oferta regional de gado. A redução dos embarques pode limitar a disposição de compra de determinadas unidades, enquanto a escassez de animais pode sustentar os preços em outras praças.
Retomada chinesa pode começar no último bimestre
A Safras & Mercado considera possível uma melhora gradual dos embarques para a China no último bimestre de 2026, levando em conta o transporte marítimo e a programação de chegada das cargas.
Trata-se de uma expectativa, ainda dependente das condições comerciais e das regras aplicáveis à entrada do produto. A consultoria também chama atenção para uma questão que deverá ganhar espaço nas negociações: a eventual gestão da cota, para evitar que sua utilização volte a se concentrar nos primeiros meses do ano.
Para a cadeia brasileira, o desafio é preservar o acesso à China e ampliar a presença em outros mercados, reduzindo a exposição das vendas externas às decisões de um único comprador.
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