Pesquisa mostra que diferentes tipos de forragem provocam respostas metabólicas rápidas e reforça a importância da qualidade, da composição e da troca gradual do alimento.
Para quem olha apenas o cocho, trocar um lote de volumoso por outro pode parecer uma mudança simples. Para o organismo do cavalo, porém, a alteração começa a ser percebida muito antes do que se imaginava. Um novo estudo publicado no Equine Veterinary Journal mostrou que equinos podem apresentar adaptação metabólica a um novo tipo de forragem conservada em apenas cinco dias, com diferenças mensuráveis na urina e nas fezes de acordo com a composição química do alimento.
A descoberta acrescenta uma nova camada à discussão sobre nutrição equina. Não basta classificar a dieta simplesmente como “volumoso”. Espécie forrageira, idade da planta no momento do corte, teor de fibra, proteína e disponibilidade dos nutrientes podem produzir respostas metabólicas diferentes no animal, mesmo quando os alimentos pertencem à mesma categoria.
O trabalho avaliou pré-secados — conhecidos internacionalmente como haylage — e não o feno seco tradicional. Ainda assim, os resultados reforçam um princípio importante para haras, centros de treinamento e propriedades que utilizam diferentes lotes de feno, pré-secado ou outras forragens: a mudança aparentemente discreta do alimento pode representar uma mudança relevante para o intestino e para o metabolismo do cavalo.
Cinco dias foram suficientes para detectar a adaptação
A pesquisa foi conduzida com oito pôneis Welsh Mountain, submetidos a quatro tipos diferentes de pré-secado em um desenho experimental cruzado.
Os pesquisadores trabalharam com quatro forragens que variavam principalmente em composição botânica e estágio de maturidade: azevém cortado mais jovem, azevém mais maduro e dois tipos de forragem de campo colhidos em diferentes estágios.
Cada período experimental durou 15 dias. Amostras de urina e fezes foram avaliadas em diferentes momentos utilizando espectroscopia de ressonância magnética nuclear, técnica capaz de identificar mudanças no conjunto de metabólitos produzidos pelo organismo e pela fermentação intestinal.
O resultado chamou atenção pela velocidade.
Em até cinco dias após a introdução da nova forragem, os animais já apresentavam adaptação metabólica detectável.
Isso não significa que todo cavalo esteja completamente adaptado a qualquer mudança alimentar nesse prazo, nem que seja seguro realizar trocas bruscas. O próprio trabalho adotou uma transição estruturada entre as dietas e recomenda atenção especial justamente nos primeiros dias após a mudança.
O nome da forrageira conta, mas sua composição conta ainda mais
Um dos aspectos mais interessantes do estudo está naquilo que efetivamente determinou as diferenças encontradas.
A composição química das forragens foi o principal fator associado às alterações metabólicas.
O pré-secado produzido com azevém fisiologicamente mais jovem apresentou a maior diferenciação em relação aos outros alimentos avaliados.
Na urina, por exemplo, os pesquisadores observaram diferenças importantes na concentração de glicina. No quinto dia, o grupo que consumia o azevém jovem apresentou valor médio de aproximadamente 992, contra 222 no grupo alimentado com o azevém mais maduro, nas unidades relativas utilizadas pela análise metabômica.
Também apareceram diferenças nas fezes envolvendo ácidos graxos de cadeia curta e metabólitos relacionados ao metabolismo de aminoácidos.
Entre eles estava o acetato, um dos principais produtos da fermentação microbiana da fibra no intestino grosso.
Isso ajuda a explicar por que dois volumosos visualmente semelhantes podem não ser nutricionalmente equivalentes.
O intestino do cavalo transforma fibra em energia
Para compreender a importância do achado é necessário lembrar uma particularidade da fisiologia equina.
O cavalo é um herbívoro fermentador de intestino grosso. Uma parcela relevante da fibra que chega ao ceco e ao cólon é utilizada por microrganismos, que produzem compostos como acetato, propionato e butirato.
Esses ácidos graxos de cadeia curta passam então a participar do fornecimento energético do animal.
Consequentemente, alterar o substrato disponível para essa população microbiana pode alterar também os produtos finais da fermentação.
Pesquisas anteriores já haviam demonstrado esse efeito.
Em um trabalho que comparou alfafa e feno de brome grass, por exemplo, os cavalos alimentados com alfafa apresentaram maiores concentrações de ácidos graxos voláteis no ceco e nas fezes, além de diferenças na composição da comunidade bacteriana intestinal.
Outro estudo acompanhando pôneis durante 13 meses verificou que animais alimentados com feno e aqueles recebendo pré-secado apresentavam perfis metabólicos urinários diferentes em 12 dos 13 meses avaliados, além de diferenças em mais de uma centena de grupos bacterianos nas fezes.
A nova pesquisa de 2026 avança justamente ao mostrar a rapidez com que parte dessa resposta pode aparecer.
O estágio de corte pode transformar o mesmo capim em outro alimento
Essa é talvez uma das mensagens de maior aplicação prática para a realidade dos criatórios.
No campo, frequentemente se fala em “feno de Tifton”, “alfafa”, “coast-cross” ou “pré-secado de azevém” como se a identificação da espécie fosse suficiente para definir o valor nutricional.
Não é.
Uma gramínea colhida mais jovem tende a apresentar características químicas diferentes daquela mesma forrageira colhida em estágio mais avançado. Conforme a planta amadurece, modificam-se as proporções entre folhas e colmos e aumentam componentes estruturais da parede celular.
O próprio trabalho de 2026 comparou materiais que diferiam justamente em maturidade fisiológica e composição botânica, encontrando respostas metabólicas distintas.
Em outras palavras, dois lotes vendidos sob o mesmo nome comercial podem chegar ao cocho com características nutricionais consideravelmente diferentes.
É por isso que uma análise bromatológica pode ser muito mais informativa do que simplesmente conhecer a espécie utilizada.
O resultado não significa que um volumoso seja universalmente “melhor”
Outro cuidado necessário é evitar transformar a pesquisa em uma disputa entre tipos de forragem.
O estudo não concluiu que o azevém jovem seja melhor ou pior para todos os cavalos.
Ele demonstrou que forragens com características diferentes geram respostas metabólicas diferentes.
E isso muda completamente a interpretação.
Um volumoso mais digestível e nutricionalmente denso pode ser interessante para determinadas categorias de animais com maior demanda energética. O mesmo alimento pode ser inadequado em quantidade excessiva para um cavalo mantido apenas em manutenção ou com facilidade para ganhar peso.
Pesquisa publicada anteriormente pelo mesmo grupo já destacava que pré-secados podem variar de materiais jovens e nutricionalmente densos até produtos mais maduros, fibrosos e menos energéticos.
Portanto, a pergunta mais importante deixa de ser “qual é o melhor feno?” e passa a ser:
Qual volumoso atende melhor às necessidades deste animal?
Por que a troca gradual continua sendo importante
Pode surgir uma interpretação perigosa a partir do resultado: se a adaptação ocorreu em cinco dias, seria possível realizar mudanças rápidas no volumoso.
Não é essa a conclusão do trabalho.
Os pesquisadores utilizaram uma transição estruturada de três dias, aumentando gradualmente a participação do novo pré-secado. Durante essa mudança, os metabólitos permaneceram funcionalmente estáveis, o que levou os autores a considerar que a introdução progressiva ajudou a sustentar a estabilidade metabólica.
Existe ainda uma razão clínica para a cautela.
Uma revisão sistemática sobre fatores associados à cólica encontrou evidências de que mudanças recentes na alimentação estão entre os fatores de manejo relacionados ao aumento do risco da doença, incluindo alterações no volumoso. Os autores defendem justamente evitar mudanças desnecessárias ou fazê-las de maneira gradual.
Assim, o fato de o metabolismo responder rapidamente é um argumento a favor de maior atenção na troca, e não de menor cuidado.
O que muda na prática dentro de um haras
A pesquisa ajuda a explicar situações comuns observadas nas propriedades.
Um novo carregamento chega com cor, cheiro e aparência semelhantes ao anterior. O cavalo continua recebendo aparentemente “o mesmo alimento”. Dias depois, porém, podem aparecer mudanças no consumo, condição das fezes ou comportamento alimentar.
Nem sempre há um problema de qualidade.
Pode simplesmente existir uma diferença nutricional e fermentativa entre os lotes.
Na prática, alguns cuidados passam a ganhar ainda mais importância:
- conhecer a espécie e, quando possível, o estágio de corte da forrageira;
- analisar matéria seca, proteína, fibra e carboidratos não estruturais quando a categoria animal justificar;
- observar diferenças entre lotes, mesmo do mesmo fornecedor;
- realizar a substituição gradativamente;
- monitorar consumo de água, apetite, consistência das fezes e comportamento;
- ajustar a quantidade oferecida de acordo com peso, nível de trabalho e condição corporal do animal.
Para cavalos com histórico de cólica, obesidade ou alterações metabólicas, a individualização da dieta merece atenção ainda maior e deve ser acompanhada por médico-veterinário ou nutricionista especializado.
No Brasil, a descoberta merece uma leitura própria
O experimento foi realizado no Reino Unido utilizando pré-secados produzidos principalmente com azevém e forragens de campo. Portanto, não é cientificamente correto afirmar que os mesmos números serão reproduzidos automaticamente em cavalos alimentados com Tifton 85, coast-cross, alfafa ou outros volumosos comuns no Brasil.
Esse é justamente um dos espaços que futuras pesquisas podem explorar.
O princípio fisiológico, entretanto, é relevante para os sistemas brasileiros: cavalos não consomem simplesmente “fibra”. Eles consomem uma matriz de nutrientes cuja composição muda conforme espécie, solo, fertilização, clima, idade da planta, processamento e conservação.
Um estudo com cavalos em pastagens de clima quente e frio já demonstrou, por exemplo, que diferenças principalmente em carboidratos não estruturais e proteína bruta estavam associadas a mudanças na microbiota fecal e em respostas metabólicas dos animais.
Isso reforça uma visão cada vez mais importante na nutrição equina: a qualidade do volumoso deve ser tratada com a mesma atenção técnica tradicionalmente dedicada às rações e suplementos.
O cocho pode parecer igual, mas o organismo percebe a diferença
A principal contribuição da nova pesquisa está menos em apontar qual forragem utilizar e mais em demonstrar o quanto o organismo equino é sensível às características do alimento.
Em apenas alguns dias, uma mudança na composição da forragem já havia produzido uma assinatura metabólica diferente.
É uma informação relevante para uma atividade em que o volumoso frequentemente representa a maior parcela da dieta.
Trocar um lote de forragem, portanto, não significa apenas trocar o material dentro da rede ou do cocho. Significa modificar o substrato utilizado por bilhões de microrganismos no intestino e, consequentemente, alterar parte da fisiologia digestiva e metabólica do cavalo.
A ciência está começando a medir com maior precisão aquilo que bons manejadores observam há muito tempo: no cavalo, o volumoso não é apenas acompanhamento da dieta.
Ele é a base sobre a qual boa parte dela funciona.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.