Processamento de bovinos recua nos Estados Unidos, e falta de gado aperta frigoríficos, enquanto rebanho de corte continua menor; cenário aumenta a importância da importação de carne e da retomada da entrada de gado mexicano
A escassez de bovinos nos Estados Unidos começa a aparecer de forma cada vez mais clara dentro dos frigoríficos. O país acumulou 389 mil bovinos abatidos sob inspeção federal entre segunda e quinta-feira, volume 77.607 cabeças inferior ao registrado no mesmo período do ano passado. O número também ficou 31 mil animais abaixo da semana anterior, segundo estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Somente na quinta-feira, foram processadas cerca de 90 mil cabeças.
A comparação semanal, isoladamente, pode sofrer influência da programação das indústrias. O dado mais relevante está na distância em relação a 2025 e no contexto estrutural da pecuária americana: há menos gado disponível para sustentar o ritmo de processamento observado nos últimos anos.
Rebanho de corte continua menor
Os números mais recentes do USDA ajudam a dimensionar o problema.
Em 1º de julho de 2026, os Estados Unidos possuíam 28,5 milhões de vacas de corte, redução de 1% em relação a 2025. A produção estimada de bezerros também caiu para 32,5 milhões de cabeças, 2% abaixo do ano anterior.
Isso significa menos animais entrando na base da cadeia justamente quando o país tenta reconstruir uma oferta bovina reduzida depois de anos de liquidação do rebanho.
O próprio USDA, em sua atualização de setembro, classificou o abate de bovinos terminados como historicamente baixo e apontou que essa disponibilidade menor está reduzindo as projeções de produção de carne bovina dos Estados Unidos tanto para 2026 quanto para 2027.
Portanto, as quase 78 mil cabeças a menos processadas nesta semana funcionam mais como um reflexo de um problema já conhecido do mercado do que como uma mudança provocada apenas pelos últimos dias.
EUA precisam de carne de fora
A menor disponibilidade doméstica também ajuda a explicar por que os Estados Unidos passaram a depender ainda mais do mercado internacional para equilibrar sua oferta de carne bovina.
Já em abril, o USDA projetava importações americanas de aproximadamente 5,79 bilhões de libras de carne bovina em 2026, crescimento de 6% sobre 2025.
Mais recentemente, o departamento voltou a destacar a importância das compras externas. A ampliação temporária de uma cota de importação sem tarifa para carne bovina magra, entre setembro e novembro, deve elevar as entradas do produto nos últimos meses de 2026.
A carne magra importada tem importância particular para a indústria americana porque é utilizada, entre outras finalidades, na fabricação de carne moída, misturada à gordura proveniente do próprio abate doméstico.
Assim, enquanto o país possui menos animais disponíveis, as importações funcionam como uma das válvulas para complementar a oferta interna.
E o gado mexicano volta a ganhar importância
Existe ainda outra peça importante nessa equação: o México.
Após as restrições provocadas pela disseminação da mosca-da-bicheira no México, o fluxo de bovinos vivos pela fronteira americana sofreu fortes interrupções. Esses animais tradicionalmente entram nos Estados Unidos principalmente para serem terminados nos confinamentos antes do abate.
O USDA iniciou uma retomada gradual desse comércio em 24 de agosto de 2026, quando reabriu o porto de Douglas, no Arizona, sob novos protocolos sanitários e inspeção dos animais contra a bicheira. Outros pontos da fronteira continuam condicionados à avaliação sanitária americana.
A movimentação mostra a dimensão estratégica do México para a pecuária dos Estados Unidos.
Com menos bezerros sendo produzidos internamente e uma oferta reduzida de bovinos para os frigoríficos, a entrada de animais mexicanos pode ajudar a recompor parte do abastecimento dos confinamentos, embora não resolva rapidamente o déficit estrutural existente.
Pressão que pode levar anos para desaparecer
O desafio americano é que aumentar a produção de carne bovina não ocorre imediatamente.
Quando os pecuaristas começam a reter novilhas para recompor matrizes, esses animais deixam de seguir para o abate. No curto prazo, portanto, o movimento necessário para reconstruir o rebanho pode até reduzir ainda mais a quantidade de gado disponível para os frigoríficos.
Só depois vêm os novos bezerros, sua recria, engorda e entrada no sistema de processamento.
Por isso, a menor atividade observada nos frigoríficos americanos não deve ser analisada somente pelo resultado de uma semana.
As 389 mil cabeças abatidas até quinta-feira, quase 78 mil abaixo do mesmo período de 2025, são mais um sinal de uma pecuária que ainda opera com oferta bovina apertada. E ajudam a explicar por que o maior consumidor mundial de carne bovina continua olhando simultaneamente para duas fontes externas: gado vivo do México e carne bovina importada de outros grandes fornecedores internacionais.
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