Análise global mostra avanço de grandes eventos de calor desde os anos 1960; aumento da exposição coloca lavouras, rebanhos, disponibilidade de água e trabalho rural entre os pontos de atenção
Eventos gigantes de calor que há seis décadas eram raros passaram a ocorrer com frequência muito maior no planeta. Uma investigação publicada pela Reuters nesta terça-feira (20) identificou que os chamados “heat storms” passaram de uma média de aproximadamente cinco eventos ativos por ano nos anos 1960 para cerca de 102 nesta década, uma multiplicação superior a 20 vezes. O levantamento analisou temperaturas desde 1960 em mais de um milhão de áreas distribuídas pelo globo.
A mudança não aparece apenas na quantidade. Os grandes episódios também ganharam extensão e persistência. O caso mais expressivo encontrado na série histórica, denominado “Vera” pela equipe responsável pela análise, permaneceu ativo por 367 dias, entre julho de 2023 e julho de 2024, e passou por áreas que, somadas ao longo de sua trajetória, corresponderam a quase 85% da superfície terrestre. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Eventos gigantes de calor: o que realmente significa o novo conceito
A expressão “heat storm”, que pode ser traduzida como “tempestade de calor”, precisa ser interpretada com cautela. Ela não faz parte de uma nova escala meteorológica internacional nem substitui as classificações usadas por serviços oficiais para ondas de calor.
A Reuters criou o conceito como ferramenta de análise depois de consultar cerca de duas dezenas de pesquisadores e examinar dados globais do conjunto ERA5, produzido pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, o ECMWF.
Pela metodologia, primeiro são identificadas áreas submetidas a temperaturas máximas excepcionalmente altas em relação ao clima histórico de cada local. A referência utilizada é o período de 1961 a 1990. Uma área entra em condição de onda de calor quando permanece, dentro dos critérios estatísticos estabelecidos, por pelo menos cinco dias no grupo dos 10% de valores mais quentes esperados para aquela época do ano.
Depois, são agrupadas regiões vizinhas submetidas ao mesmo padrão. Quando uma dessas grandes manchas de calor alcança pelo menos 1% da superfície da Terra, cerca de 5,1 milhões de quilômetros quadrados, o evento passa a ser classificado como “heat storm” na investigação. O próprio trabalho reconhece que esse corte foi definido especificamente para a análise e não representa um padrão meteorológico oficial.
Essa diferença é relevante para evitar uma leitura equivocada dos números. Os 102 eventos anuais encontrados nesta década não significam que serviços meteorológicos passaram a registrar oficialmente 102 “tempestades de calor” por ano. O número pertence ao modelo desenvolvido para comparar a evolução histórica de ondas de calor de grande extensão.
De cinco para 102 por ano: calor também ganhou escala territorial
Nos anos 1960, os eventos que atendem aos critérios definidos pela análise apareciam, em média, cinco vezes por ano. Atualmente, são aproximadamente 102.
As ondas de calor menores também aumentaram, mas os eventos gigantes passaram a ocupar uma parcela muito maior dos dias considerados excepcionalmente quentes.
Segundo a investigação, nos anos 1960 as grandes ondas classificadas como “heat storms” respondiam por aproximadamente 3% dos dias excepcionalmente quentes de um determinado ponto do planeta. Nesta década, essa participação se aproxima de 43%.
Há ainda outra transformação: os eventos passaram a se conectar, dividir ou coexistir durante períodos prolongados. Pela metodologia da Reuters, existe ao menos um grande evento de calor ativo no planeta de forma praticamente contínua desde 6 de julho de 2008.
O aumento acompanha a elevação das temperaturas médias globais e a maior ocorrência de extremos documentada pela literatura científica. Fenômenos naturais, especialmente o El Niño, podem ampliar temporariamente esse comportamento, mas atuam sobre um planeta mais quente do que nas décadas anteriores.
Para o agronegócio, essa combinação interessa porque temperatura, chuva e umidade não afetam a produção separadamente. Episódios de calor associados à falta de precipitação podem acelerar a perda de água no solo, elevar a demanda hídrica das culturas e pressionar reservatórios justamente no momento em que plantas e animais mais precisam de água.
O comportamento do El Niño e seus possíveis reflexos sobre safra e pecuária já faz parte do planejamento climático de propriedades brasileiras diante da possibilidade de mudanças importantes na distribuição das chuvas.
“Vera” mostra até onde um grande evento pode chegar
O evento de maior alcance acumulado encontrado na análise recebeu o nome de “Vera”. Ele começou em 29 de julho de 2023 e permaneceu identificado até 29 de julho do ano seguinte.
Durante esse intervalo, suas diferentes configurações passaram por áreas que juntas equivalem a quase 85% da superfície terrestre. Isso não significa que quase todo o planeta esteve simultaneamente sob a mesma onda de calor.
No momento de maior expansão, em 5 de janeiro de 2024, Vera alcançou 31,3% da Terra ao mesmo tempo. Esse recorde de cobertura simultânea posteriormente foi superado por outro evento acompanhado pela metodologia, chamado de “Raimundo”, que atingiu 33,8% do planeta em 28 de agosto de 2026.
A importância dessa distinção é grande. O alcance acumulado mostra quantas regiões passaram pelo evento durante sua trajetória, enquanto a cobertura máxima representa quanto território estava submetido ao fenômeno em um determinado momento.
Calor extremo já virou variável produtiva para o agro
Independentemente da nova nomenclatura, a ameaça representada por temperaturas extremas para a agropecuária está documentada por instituições internacionais.
Em abril de 2026, um relatório conjunto da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização Meteorológica Mundial (WMO) apontou que a frequência, a intensidade e a duração do calor extremo aumentaram significativamente nas últimas décadas.
A avaliação estima que mais de 1 bilhão de pessoas tenham a saúde ou os meios de subsistência ameaçados pelo calor extremo e que aproximadamente 500 bilhões de horas de trabalho sejam perdidas a cada ano. Agricultura e sistemas agroalimentares aparecem entre as atividades mais expostas.
No campo, o efeito ocorre por diversos caminhos.
Sob altas temperaturas, a atmosfera aumenta sua demanda por água. Quando o solo já apresenta déficit hídrico, a combinação acelera o estresse das plantas. Dependendo da cultura e do estágio de desenvolvimento, podem surgir prejuízos na fotossíntese, florescimento, viabilidade do pólen, formação de frutos e enchimento de grãos.
Não existe, entretanto, uma temperatura única capaz de determinar perda de produtividade para todas as culturas. O dano depende da espécie, cultivar, duração da exposição, umidade, disponibilidade de água, intensidade da radiação e fase do ciclo produtivo.
Por isso, o avanço das ondas de calor e seus impactos sobre a agricultura precisa ser analisado juntamente com armazenamento de água no solo, previsão de chuva e momento fenológico da cultura.
Brasil também registra aumento expressivo da duração das ondas de calor
Embora a metodologia brasileira seja diferente da utilizada na investigação global — portanto, os números não podem ser comparados diretamente —, os dados nacionais apontam na mesma direção.
Material oficial do Plano Clima, com informações produzidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indica que o número associado à duração das ondas de calor passou de cerca de sete dias no período histórico de referência para 52 dias entre 2011 e 2020.
Isso corresponde a um aumento próximo de oito vezes e foi observado em praticamente todo o território brasileiro.
Para áreas agrícolas, o resultado prático depende também do regime de chuvas. Uma sequência de temperaturas elevadas sobre uma região com boa reserva hídrica pode produzir efeito diferente daquele registrado onde o solo já está seco.
Em fevereiro de 2026, por exemplo, uma onda de calor colocou lavouras e rebanhos do Sul do Brasil em alerta, especialmente em locais onde as temperaturas elevadas coincidiam com baixa disponibilidade de água no solo.
Essa associação entre calor e déficit hídrico é uma das mais sensíveis para o produtor. Mesmo sem uma seca de longa duração, vários dias de forte evapotranspiração podem reduzir rapidamente a água disponível às plantas.
Cacau na África Ocidental ajuda a mostrar o risco de eventos combinados
A Costa do Marfim aparece entre os exemplos analisados na investigação da Reuters. Durante a passagem de Vera, produtores de cacau enfrentaram períodos de calor e restrição hídrica em meio a uma temporada já marcada por doenças e outras adversidades.
Os problemas climáticos coincidiram com forte redução na oferta de cacau da África Ocidental. Dados da International Cocoa Organization (ICCO) mostram que a safra mundial 2023/24 foi afetada por condições meteorológicas desfavoráveis, doenças, pragas e envelhecimento de plantações nos principais países produtores.
A organização estimou a produção global da temporada em aproximadamente 4,37 milhões de toneladas, queda de 12,9% em relação ao ciclo anterior na atualização publicada em maio de 2025.
Não é correto atribuir toda essa retração a uma única onda de calor. O exemplo, entretanto, demonstra como fenômenos climáticos podem se somar a problemas fitossanitários e estruturais e provocar impactos que ultrapassam a propriedade rural.
Quando a produção mundial de uma commodity está concentrada em poucas regiões, perdas simultâneas podem reduzir disponibilidade, alterar estoques e exercer pressão sobre os preços internacionais.
Pecuária também sente o aumento da carga térmica
Nos rebanhos, a preocupação passa pelo chamado estresse térmico. Quando o animal recebe mais calor do que consegue dissipar, seu organismo precisa direcionar energia para mecanismos de resfriamento.
Bovinos podem apresentar aumento da frequência respiratória, maior procura por água e sombra e redução no consumo de alimento. Em situações mais severas, desempenho, reprodução e produção podem ser prejudicados.
A resposta varia conforme raça, idade, sistema de criação, condição corporal, temperatura, radiação solar, ventilação e umidade relativa.
A maior exposição ao calor já colocou o estresse térmico no gado entre os temas relevantes para sistemas de produção em regiões tropicais.
A avicultura e a suinocultura também demandam atenção, principalmente em instalações onde ventilação, densidade de animais e controle ambiental determinam a capacidade de dissipar calor.
Água passa a ter papel ainda mais estratégico
Uma das consequências mais diretas de períodos prolongados de altas temperaturas é o aumento da demanda hídrica.
Na agricultura irrigada, isso não significa simplesmente aplicar mais água. A decisão precisa considerar evapotranspiração, umidade do solo, estágio da cultura, eficiência do sistema e disponibilidade real do recurso.
Horários de operação e perdas por evaporação também passam a pesar. Em condições extremas, o manejo da irrigação sob temperaturas elevadas pode exigir ajustes para manter eficiência e evitar desperdício.
Em áreas de sequeiro, atributos do solo ganham ainda mais importância. Cobertura vegetal, matéria orgânica, estrutura física e desenvolvimento radicular interferem diretamente na capacidade de armazenar e disponibilizar água para as plantas durante períodos críticos.
Na pecuária, disponibilidade de água limpa e suficiente é igualmente decisiva. O consumo tende a aumentar em períodos quentes, exigindo atenção à vazão de bebedouros, capacidade de reservação e distância percorrida pelos animais.
Adaptação depende de antecipação, não apenas de reação
O relatório FAO-WMO destaca que a adaptação ao calor extremo envolve diferentes níveis de decisão, desde sistemas de previsão e alerta até manejo, genética e infraestrutura.
Na agricultura, variedades mais tolerantes ao calor e à seca, adequação da janela de semeadura, manejo de solo e planejamento da irrigação estão entre as alternativas possíveis.
Na pecuária, sombra natural ou artificial, ventilação, disponibilidade de água e ajustes nos horários das atividades podem reduzir a exposição dos animais.
Para trabalhadores rurais, organizar as tarefas mais pesadas fora dos horários de maior carga térmica e garantir hidratação são medidas particularmente relevantes durante episódios extremos.
Nenhuma dessas estratégias elimina o risco. O objetivo é reduzir vulnerabilidade e evitar que uma sequência de temperaturas excepcionalmente altas se transforme automaticamente em perda elevada de produtividade.
Calor ganha espaço na gestão de risco da propriedade
A investigação sobre os eventos gigantes de calor acrescenta uma nova forma de visualizar uma mudança que já aparece em diferentes bases científicas: períodos de calor extremo estão se tornando mais frequentes, extensos e persistentes.
Para o agronegócio, o ponto central não está no nome “heat storm”, mas na exposição crescente dos sistemas produtivos.
Uma lavoura em florescimento, um confinamento bovino, um aviário, uma fazenda leiteira ou uma propriedade dependente de irrigação possuem vulnerabilidades diferentes. Ainda assim, todos dependem de alguma combinação de temperatura, água, solo, infraestrutura e capacidade de antecipação.
Com extremos térmicos mais presentes, previsões meteorológicas, reserva de água, manejo de solo, conforto animal e escolha das janelas de produção deixam de ser apenas questões operacionais. Passam a integrar diretamente a gestão de risco econômico da propriedade rural.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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