Gado de boca aberta é sinal de perigo? Veja como identificar estresse pelo calor

Respiração acelerada, salivação intensa e boca aberta podem indicar que o bovino já enfrenta dificuldade para dissipar o calor; reconhecer os sinais antes desse estágio ajuda a evitar perdas produtivas e riscos à saúde do rebanho

Ver gado de boca aberta, respirando rapidamente em um dia quente, não deve ser encarado apenas como uma reação curiosa à temperatura. Em bovinos, a respiração ofegante é um importante mecanismo para eliminar calor e, quando evolui para respiração com a boca aberta, pode indicar que o organismo está enfrentando estresse térmico de intensidade considerável. O risco aumenta quando esse comportamento aparece acompanhado de salivação excessiva, língua para fora, apatia, redução no consumo e dificuldade respiratória.

O problema merece atenção especialmente no Brasil, onde a combinação entre altas temperaturas, radiação solar e condições de umidade pode desafiar a capacidade dos animais de manter a temperatura corporal. No início de agosto de 2026, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), por meio de dados do SISDAGRO, voltou a alertar para condições desfavoráveis ao conforto térmico dos bovinos em áreas pecuárias do país. Entre os efeitos esperados estavam aumento da frequência respiratória, elevação da temperatura corporal, queda no consumo, menor ganho de peso e redução na produção de leite.

Gado de boca aberta já está em um estágio de atenção maior

O primeiro ponto importante é entender que gado de boca aberta não representa, normalmente, o começo do estresse térmico.

Antes disso, o produtor pode observar mudanças mais discretas: o animal passa mais tempo em pé, procura sombra, aumenta a ingestão de água, reduz o consumo de alimento e começa a respirar mais rapidamente.

Uma escala de avaliação divulgada pela Oklahoma State University e adaptada do sistema do USDA Meat Animal Research Center classifica a ofegação dos bovinos de 0 a 6. Na escala, animais sem sinais de estresse recebem pontuação zero. Nos níveis 1 a 3 aparecem progressivamente respiração acelerada, inquietação e salivação.

É no nível 4 que surge a respiração com a boca aberta. No nível 5, além da boca aberta, a língua pode ficar projetada e o esforço abdominal para respirar se tornar visível. O nível 6 representa uma situação extremamente grave, com respiração difícil, cabeça baixa e possível isolamento do restante do rebanho.

Por isso, esperar o bovino abrir a boca para começar a agir significa perder sinais importantes que poderiam ter sido identificados anteriormente.

Por que o bovino começa a ofegar quando sente calor?

Os bovinos precisam manter sua temperatura corporal dentro de uma faixa relativamente estável. Quando recebem ou produzem mais calor do que conseguem eliminar para o ambiente, começam a acionar mecanismos adicionais de termorregulação.

A respiração mais rápida aumenta a perda de calor por evaporação no sistema respiratório. Conforme a carga térmica cresce, porém, esse mecanismo precisa trabalhar cada vez mais.

O resultado pode ser facilmente observado no campo: movimentos rápidos do flanco, ofegação, aumento da salivação e, nos quadros mais intensos, respiração pela boca.

Uma pesquisa publicada no 2026 Beef Cattle Report, da Universidade de Nebraska-Lincoln, expôs novilhas Red Angus durante cinco dias a condições experimentais de calor. A frequência respiratória dos animais submetidos ao estresse térmico aumentou entre 34% e 75%, enquanto o consumo de água foi aproximadamente 35% maior em comparação ao grupo mantido em ambiente termoneutro.

Os resultados reforçam que a respiração acelerada não é apenas um comportamento: ela reflete uma alteração fisiológica real provocada pela tentativa do organismo de controlar sua temperatura.

Frequência respiratória ajuda a identificar o problema antes da boca aberta

Uma das formas mais simples de acompanhar o estresse térmico no campo é observar a frequência respiratória.

Os valores de referência podem variar conforme categoria animal, raça, produção, ambiente e metodologia utilizada. Ainda assim, diferentes trabalhos adotam o aumento da frequência respiratória como um dos primeiros indicadores objetivos de desconforto térmico.

O Manual Veterinário Merck aponta que taxas acima de 60 respirações por minuto já indicam algum grau de estresse térmico em bovinos leiteiros. Pesquisas brasileiras também utilizam aproximadamente 60 movimentos respiratórios por minuto como importante referência para o início da resposta ao calor.

Na prática, a contagem pode ser feita observando o movimento do flanco do animal em repouso. Uma inspiração seguida de uma expiração corresponde a uma respiração.

Uma maneira rápida é contar durante 30 segundos e multiplicar o resultado por dois.

A avaliação deve ser realizada sem movimentar ou assustar o bovino, porque exercício, manejo e estresse também podem aumentar temporariamente a frequência respiratória.

Em vacas leiteiras, a Universidade de Minnesota considera especialmente preocupante quando mais de 10% do rebanho ultrapassa 100 respirações por minuto, situação em que recomenda intervenção imediata.

Gado de boca aberta: veja como interpretar os sinais

O produtor não precisa depender de equipamentos sofisticados para reconhecer que alguma coisa está errada. A combinação de comportamento e respiração oferece pistas importantes.

Situação observadaO que pode indicar
Animal procura sombra e permanece mais tempo em péInício de desconforto térmico
Respiração fica progressivamente aceleradaAumento da carga térmica
Salivação intensa ou formação de espumaEstresse mais acentuado
Gado de boca abertaEstresse térmico importante
Boca aberta com língua projetadaQuadro grave
Respiração trabalhosa, cabeça baixa e isolamentoEmergência e risco elevado

A progressão é compatível com a escala de ofegação utilizada pelo USDA Meat Animal Research Center. O objetivo do manejo é agir antes de o animal atingir os estágios mais altos.

Além disso, temperatura e umidade precisam ser avaliadas conjuntamente. O chamado Índice de Temperatura e Umidade (ITU ou THI) combina essas duas variáveis para estimar a carga térmica enfrentada pelo animal.

Em bovinos leiteiros, por exemplo, referências da Universidade de Minnesota apontam que sinais leves já podem surgir em valores relativamente baixos de THI. Conforme o índice aumenta, também aumentam a frequência respiratória e a temperatura corporal.

No campo, entretanto, o ITU não deve ser interpretado sozinho. Exposição direta ao sol, ausência de vento, produção do animal, raça, pelagem, disponibilidade de água e capacidade de recuperação durante a noite também influenciam a resposta ao calor.

Quais bovinos exigem atenção redobrada?

Nem todos os animais respondem da mesma maneira à exposição térmica.

Animais de alta produção leiteira enfrentam um desafio adicional porque o próprio metabolismo necessário para sustentar a produção gera calor. Bovinos pesados, animais doentes ou debilitados e aqueles submetidos a instalações com pouca ventilação também podem apresentar maior dificuldade para dissipá-lo.

Raça e adaptação ao ambiente também fazem diferença. Revisões recentes sobre bem-estar animal mostram que características genéticas e fenotípicas influenciam a tolerância dos bovinos a ambientes quentes, o que significa que os mesmos índices ambientais podem provocar respostas diferentes entre animais.

Por isso, o manejo deve considerar tanto as condições meteorológicas quanto a resposta efetivamente observada no rebanho.

O que fazer ao encontrar animais sofrendo com o calor?

Ao perceber respiração acelerada ou outros sinais de estresse, a primeira medida é reduzir a carga térmica sobre o rebanho.

O INMET recomenda manter água limpa e fresca disponível durante todo o dia, garantir acesso à sombra e concentrar alimentação e atividades de manejo nas horas mais frescas, principalmente no início da manhã ou no final da tarde.

Nos períodos críticos, também é recomendado evitar atividades capazes de elevar ainda mais a temperatura corporal, como transporte, vacinação, deslocamentos prolongados e manejo intenso durante as horas de maior aquecimento.

Sombra bem dimensionada é especialmente importante. Não basta existir uma pequena área sombreada se ela provocar aglomeração e impedir que todos os animais tenham acesso ao espaço.

Em sistemas confinados ou leiteiros, ventiladores e sistemas adequadamente projetados de resfriamento evaporativo podem ampliar a capacidade de dissipação de calor. A Universidade de Minnesota destaca que aumentar a velocidade do ar ao redor dos animais pode reduzir significativamente a frequência respiratória.

Gado de boca aberta nem sempre significa apenas calor

Apesar da forte associação com estresse térmico, gado de boca aberta não deve ser automaticamente diagnosticado como vítima do calor.

Dificuldade respiratória também pode ocorrer em doenças pulmonares, obstruções das vias respiratórias e outras condições clínicas. Pneumonias graves, por exemplo, podem provocar aumento da frequência respiratória e esforço para respirar, enquanto alterações da laringe podem levar o bovino a permanecer com o pescoço estendido e a boca aberta.

Esse detalhe é especialmente importante quando apenas um animal apresenta o problema, quando a temperatura ambiente não é elevada ou quando existem outros sinais, como secreção nasal, tosse, febre, dificuldade para engolir ou grande abatimento.

Nessas situações, a avaliação de um médico-veterinário é necessária para investigar a origem do quadro.

Estresse térmico também custa produtividade

O impacto não termina quando a temperatura cai.

O organismo do bovino submetido ao calor passa a priorizar mecanismos de sobrevivência e dissipação térmica. O consumo de alimento tende a cair, enquanto aumentam a necessidade de água e o esforço fisiológico para manter a temperatura corporal.

O INMET destaca que essas condições podem resultar em menor ganho de peso, queda da produção de leite e prejuízos ao desempenho reprodutivo.

Em estudo experimental recente com bovinos de corte, pesquisadores da Universidade de Nebraska-Lincoln também observaram alterações de temperatura corporal, frequência cardíaca, respiração e parâmetros sanguíneos após exposição prolongada ao calor.

Ou seja, reconhecer precocemente o estresse térmico não é apenas uma questão de conforto animal. É também uma estratégia para reduzir perdas produtivas e proteger o desempenho econômico da propriedade.

Observar o rebanho continua sendo uma das melhores ferramentas

Tecnologias de monitoramento, sensores e índices climáticos estão tornando a identificação do estresse térmico cada vez mais precisa. Ainda assim, um dos indicadores mais acessíveis continua diante dos olhos do produtor.

Mudanças no comportamento, procura intensa por água e sombra, redução do consumo, aumento da frequência respiratória, salivação e ofegação formam uma sequência de alertas.

Quando aparece gado de boca aberta, principalmente com língua exposta e grande esforço respiratório, o animal pode já estar enfrentando um nível avançado de estresse e precisa de atenção imediata.

O manejo mais eficiente, portanto, é aquele que começa antes desse ponto: monitorar as condições ambientais, garantir água, sombra e ventilação e observar diariamente a resposta dos próprios animais.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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