Exclusivo: “O Mangalarga vive sua maior transformação”, diz presidente da raça

Modernização, crescimento, novos investidores, valorização dos muares e um ambicioso projeto para os 100 anos da associação. Em entrevista exclusiva ao CompreRural, Fernando Tardioli detalha por que acredita que o Mangalarga atravessa um dos momentos mais importantes de sua história

A 48ª Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga, realizada neste mês em Tatuí (SP), confirmou aquilo que criadores e especialistas já vinham percebendo nos últimos anos: a raça atravessa um período de forte evolução genética, expansão de mercado e reposicionamento institucional. Reunindo os principais criatórios do país, a Nacional voltou a consolidar seu papel como a maior vitrine do Mangalarga brasileiro, reunindo julgamento morfológico, provas funcionais, negócios, leilões e uma programação voltada para aproximar novos públicos da raça.

Durante a cobertura especial do evento, o editor do CompreRural, Marcio Peruchi, conversou com exclusividade com o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Cavalos da Raça Mangalarga (ABCCRM), Fernando Tardioli, que fez um amplo balanço da atual gestão, falou sobre a valorização da genética, o crescimento do mercado, a importância estratégica dos muares e revelou projetos que já estão sendo preparados para o centenário da entidade, em 2034.

A genética elevou o Mangalarga a um novo patamar

Questionado sobre o que a 48ª Nacional revela sobre a evolução da raça, Tardioli afirmou que o avanço dos últimos anos é evidente dentro das pistas.

Segundo ele, o Mangalarga experimentou, na última década, uma evolução consistente não apenas na morfologia, mas também na funcionalidade, na qualidade da marcha e no conforto proporcionado pelos animais. “O cavalo Mangalarga, nos últimos dez anos, demonstrou uma evolução genética muito grande. Hoje vemos disputas extremamente equilibradas, em que pequenos detalhes definem um campeão. Isso mostra que a evolução genética deixou de estar concentrada em poucos criatórios e passou a alcançar praticamente toda a raça.”

Para o presidente, a homogeneidade observada na Nacional é consequência direta dos investimentos realizados pelos criadores em genética, manejo, tecnologia e desenvolvimento técnico. “As pistas da Nacional comprovam que o Mangalarga atingiu um nível altíssimo em todos os requisitos desejados pelos criadores.”

Estratégia para conquistar novos criadores e investidores

Um dos principais pilares da atual gestão tem sido ampliar o alcance da raça para públicos que antes pouco conheciam o Mangalarga.

Segundo Tardioli, esse trabalho envolve uma estratégia integrada de marketing, eventos e incentivo às modalidades esportivas. “O investimento em mídias sociais, cobertura de eventos, atividades para famílias, cavalgadas, experiências como o test-ride e ações voltadas às crianças fazem parte de um projeto maior de aproximar as pessoas do cavalo.”

Ele explica que outro diferencial tem sido o incentivo às modalidades esportivas, com premiações significativas e estrutura organizada pela Coordenadoria de Desenvolvimento de Esportes e Novas Modalidades.

Nacional do Mangalarga - Ranch Sorting
Foto: Divulgação

Como exemplo, citou o Ranch Sorting, modalidade que hoje oferece premiações de até R$ 30 mil por etapa e vem atraindo competidores que antes utilizavam animais de outras raças. “Muitas pessoas chegam para competir com outras raças e acabam descobrindo o potencial esportivo do Mangalarga. Isso naturalmente gera novos usuários, novos criadores e novos investidores.”

Outro ponto destacado foi a realização de grandes eventos em locais estratégicos, como o Parque da Água Branca e o Jockey Club de São Paulo, aproximando o Mangalarga dos grandes centros urbanos.

Muito além das pistas: uma cadeia econômica que movimenta milhões

Embora seja difícil mensurar financeiramente o impacto da Exposição Nacional, Tardioli afirma que seus reflexos são percebidos imediatamente em toda a cadeia produtiva.

Segundo ele, animais campeões passam automaticamente por um processo de valorização no mercado. “Os grandes campeões têm maior reconhecimento técnico. Isso valoriza o próprio animal, seus filhos, seus pais, seus acasalamentos e movimenta todo o mercado.”

Essa valorização impulsiona leilões, comercialização de genética e novos investimentos dos criadores.

Além disso, a economia da cidade-sede também sente os efeitos positivos. “Hotéis ficam lotados, restaurantes trabalham intensamente, há investimentos em infraestrutura e entretenimento. A Nacional movimenta toda a cadeia econômica ligada ao Mangalarga.”

Para o presidente, os leilões realizados logo após a Exposição Nacional ganham uma dinâmica completamente diferente, impulsionados pelos resultados obtidos nas pistas.

Mulas durante a Nacional do Mangalarga
Apresentação de Muares filhos de Éguas Mangalarga / Foto: @puramarcha

Muares: um patrimônio nacional que fortalece o Mangalarga

Um dos momentos mais valorizados da atual gestão tem sido a integração definitiva entre o Mangalarga e os muares, tema que voltou a ganhar destaque nesta edição da Nacional.

Para Tardioli, essa aproximação é natural e representa um reconhecimento histórico. “Os muares são um verdadeiro tesouro nacional. Eles participaram da construção do Brasil e continuam desempenhando um papel extremamente importante.”

Segundo ele, a égua Mangalarga tornou-se referência nacional na produção de muares de alta qualidade. “É impossível pensar em um muar de excelência, tanto em morfologia quanto em andamento, sem pensar em uma grande égua Mangalarga.”

O presidente destaca que praticamente todos os grandes criadores de muares utilizam genética do Mangalarga.

“Receber os muares dentro da Exposição Nacional é motivo de orgulho. Eles caminham junto com a nossa raça e representam um importante vetor de desenvolvimento para o Mangalarga.”

Nacional do Mangalarga - cavalo
Foto: Divuglação

O caminho para o centenário já começou

Em 2034, a ABCCRM completará 100 anos de história. Embora a data ainda esteja distante, os projetos para celebrar o centenário já estão em andamento.

Segundo Fernando Tardioli, um dos focos da atual gestão é recuperar e preservar a memória histórica da raça.

Entre as iniciativas está a valorização da participação do Cavalo Mangalarga na Revolução Constitucionalista de 1932. “O Mangalarga esteve nas trincheiras. Muitos cavalos morreram durante os combates, mas essa história ainda era pouco conhecida.”

A associação já participa de ações junto aos veteranos de 1932 e prepara a instalação de uma estátua do cavalo Mangalarga com um cavaleiro no Obelisco de São Paulo.

Também estão previstas cavalgadas históricas em parceria com o Batalhão 9 de Julho da Polícia Militar e diversas iniciativas voltadas ao resgate da memória da raça.

Programa nacional de televisão amplia a presença do Mangalarga

Outra novidade anunciada durante a Exposição Nacional é o lançamento de um programa de televisão dedicado exclusivamente ao universo do Mangalarga.

Segundo Tardioli, a atração estreia em agosto e terá alcance nacional. “O programa semanal chegará a mais de 60 milhões de lares e será responsável por registrar, comunicar e compartilhar toda a história do Mangalarga.”

Para ele, o projeto representa mais um passo na estratégia de fortalecer institucionalmente a raça e aproximá-la de públicos que ainda não conhecem seu potencial.

Nacional do Mangalarga - fotao
Foto: Divulgação

“Vivemos uma completa transformação”

Ao resumir o atual momento da raça em uma única mensagem, Fernando Tardioli foi categórico. “Hoje o Mangalarga vive um momento de modernização, fortalecimento e profissionalização da associação.”

Ele cita investimentos em tecnologia, digitalização dos sistemas, modernização administrativa, fortalecimento financeiro, mudança da sede para o Parque da Água Branca, ampliação das ações de comunicação e maior presença institucional nos principais eventos do agronegócio brasileiro.

Segundo ele, a associação também passou a atuar mais próxima do poder público e busca avanços importantes para a equinocultura, como melhorias na regulamentação e no sistema de emissão de GTA. “Nossa associação está sólida financeiramente, investindo em comunicação, relacionamento institucional e projetos que levarão o Mangalarga ainda mais longe.”

Nacional do Mangalarga - cavalo
Foto: Divuglação

Um novo capítulo para a raça

A entrevista concedida ao CompreRural deixa claro que a ABCCRM aposta em um projeto de longo prazo. A evolução genética observada nas pistas, a valorização crescente dos muares, a abertura para novos investidores, o fortalecimento das modalidades esportivas e os investimentos em comunicação fazem parte de uma estratégia que pretende consolidar o Mangalarga entre as principais raças equinas do país.

Mais do que celebrar uma Nacional de alto nível técnico, a entidade já trabalha com os olhos voltados para 2034. E, se depender do planejamento apresentado por Fernando Tardioli, o centenário da associação deverá marcar não apenas os 100 anos da ABCCRM, mas também uma nova fase de protagonismo do Cavalo Mangalarga na equinocultura brasileira.

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