Brasil embarcou 79,7 mil toneladas nos oito primeiros dias úteis de setembro e ritmo diário está 30,3% abaixo de 2025; na direção contrária, preço médio da carne exportada subiu para US$ 6,21/kg e acumulado do ano já encosta em 2 milhões de toneladas
O mercado externo da carne bovina brasileira entrou em setembro com uma combinação pouco comum: o país está exportando significativamente menos que no mesmo período do ano passado, mas o produto que consegue embarcar está sendo vendido por um preço maior.
Dados preliminares da segunda semana de setembro divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do MDIC, nesta segunda-feira (14), mostram que o Brasil embarcou 79,71 mil toneladas de carne bovina nos primeiros oito dias úteis do mês.
A média ficou em 9,96 mil toneladas por dia, contra 14,30 mil toneladas diárias em setembro de 2025. A diferença representa uma retração de 30,3% no ritmo dos embarques.
Para o pecuarista, entretanto, o número precisa ser analisado junto com outra informação: o preço médio da carne brasileira vendida ao exterior está maior.
Brasil exporta menos, mas recebe mais por quilo
Na parcial de setembro, o preço médio da carne bovina exportada alcançou aproximadamente US$ 6,21 por quilo.
Em setembro de 2025, a média havia sido de aproximadamente US$ 5,62/kg.
A diferença corresponde a uma valorização próxima de 10,5% em um ano.
Isso muda parcialmente a leitura da queda dos embarques.
Uma redução de volume tende a diminuir a demanda dos frigoríficos por animais quando não existe mercado alternativo para absorver a produção. Mas um preço médio internacional maior melhora a receita obtida por tonelada exportada e pode ajudar a amortecer parte dessa pressão.
Não elimina o problema do volume, especialmente para uma indústria que depende de escala, mas mostra que o cenário externo não é simplesmente de deterioração da carne brasileira.
China está por trás da mudança
A principal explicação para a forte diferença em relação a 2025 continua sendo a China.
Em agosto, as vendas brasileiras para o mercado chinês recuaram 80,5% em relação a julho e 89,8% frente a agosto de 2025, segundo dados da Secex analisados pelo Cepea.
O movimento ocorreu com o avanço do preenchimento da cota chinesa para a carne bovina brasileira.
Consequentemente, o Brasil exportou 226,8 mil toneladas em agosto, volume 12,1% inferior ao de julho e 23,2% abaixo do registrado um ano antes.
Os números de setembro indicam que o efeito não ficou restrito a agosto.
Nos quatro primeiros dias úteis deste mês, a média diária estava em 10,14 mil toneladas. Com a incorporação da segunda semana, recuou para 9,96 mil toneladas.
Foram 40,58 mil toneladas na primeira semana e 39,13 mil toneladas na segunda.
A diferença semanal é pequena. O ponto realmente relevante é a comparação anual: o Brasil continua embarcando aproximadamente 30% menos carne por dia que em setembro do ano passado.
Mesmo assim, 2026 está muito perto de 2 milhões de toneladas
O contraste aparece quando se amplia o horizonte.
Apesar da forte desaceleração recente, o Brasil já exportou aproximadamente 1,998 milhão de toneladas de carne bovina em 2026.
Ou seja, o país está a apenas cerca de 2 mil toneladas da marca de 2 milhões de toneladas no acumulado do ano.
Isso acontece porque o desempenho anterior à restrição chinesa foi muito forte.
Somente no primeiro trimestre, as exportações brasileiras de carne bovina in natura alcançaram 702 mil toneladas, crescimento de 19,7% sobre igual período de 2025. A receita atingiu US$ 3,98 bilhões, avanço de 37,3%, segundo dados oficiais do Ministério da Agricultura.
O setor, portanto, atravessa duas realidades dentro do mesmo ano: um primeiro semestre excepcional e uma desaceleração brusca a partir da mudança no principal mercado comprador.
Outros países começam a ganhar importância
Encontrar novos compradores tornou-se a principal resposta dos frigoríficos à redução chinesa.
Em agosto, Emirados Árabes Unidos, Itália e Rússia ampliaram as compras da proteína brasileira.
Outra oportunidade apareceu recentemente na Indonésia.
O Ministério da Agricultura confirmou em 10 de setembro a habilitação de 21 novos estabelecimentos brasileiros para exportar carne e miúdos bovinos ao país, elevando o total de unidades autorizadas de 52 para 73 frigoríficos.
A dimensão desse mercado vem crescendo.
O Brasil vendeu 31.511 toneladas de carne bovina para a Indonésia em 2025. Apenas no primeiro semestre de 2026, já haviam sido embarcadas 17.461 toneladas.
Nos miúdos bovinos, o movimento é ainda mais significativo: foram 21.191 toneladas no primeiro semestre, tornando a Indonésia o segundo maior mercado para esses produtos brasileiros.
Nenhum desses compradores isoladamente possui hoje capacidade para substituir a China. A estratégia passa justamente por distribuir o volume entre vários mercados.
E o que isso significa para a arroba?
É aqui que os números se tornam mais importantes para o produtor.
Exportação representa uma das grandes fontes de demanda por carne bovina brasileira. Se os embarques permanecem 30% abaixo do ano anterior durante um período prolongado, os frigoríficos podem encontrar menos necessidade de acelerar compras de gado, especialmente quando o consumo doméstico não compensa essa diferença.
Mas existem contrapesos.
O primeiro é o preço internacional maior. O segundo é a abertura e ampliação de mercados alternativos. O terceiro é a própria disponibilidade de animais terminados.
A referência publicada nesta terça-feira pelo Programa Geneplus, utilizando dados da Scot Consultoria referentes ao mercado físico de segunda-feira (14), mostrava o boi gordo em R$ 341/@ à vista e R$ 345/@ a prazo em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.
Por isso, ainda seria precipitado interpretar a queda das exportações como sinal automático de uma forte baixa da arroba.
O que existe agora é um novo fator de pressão que precisa ser acompanhado junto das escalas de abate, oferta de boiada terminada e capacidade dos frigoríficos de redirecionar carne para outros destinos.
Próximo dado será decisivo
A própria Secex informa que a próxima divulgação parcial da balança comercial ocorrerá em 21 de setembro. Esse número terá importância especial. Se a média diária continuar próxima das atuais 10 mil toneladas, ficará mais evidente que setembro consolidou um novo patamar de exportações após a redução chinesa.
Se os embarques acelerarem, poderá indicar que os frigoríficos estão conseguindo redirecionar mais rapidamente a produção.
Para o pecuarista, portanto, a informação central desta segunda parcial não é apenas que a exportação caiu 30,3%. É que três forças estão atuando ao mesmo tempo: menor volume, preço internacional aproximadamente 10,5% maior e busca acelerada por novos compradores.
A disputa entre esses fatores ajudará a determinar quanto da mudança ocorrida nos portos chegará efetivamente ao preço do boi dentro da fazenda.
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