Fazenda da família de Rogério Ceni tem 3,9 mil hectares e adapta manejo para safra 2026/27

Localizada em Mato Grosso, a Fazenda Dona Dozolina produz soja e milho, enfrenta os desafios das chuvas irregulares e investe em tecnologias agrícolas; negócio iniciado pelo pai do treinador do Bahia também avança na sucessão familiar.

Muito antes de conquistar títulos históricos como goleiro do São Paulo e construir sua trajetória como treinador, Rogério Ceni já tinha uma relação próxima com o agronegócio brasileiro. Essa ligação permanece viva no município de Santa Carmem, no norte de Mato Grosso, onde sua família mantém a Fazenda Dona Dozolina, uma propriedade rural de aproximadamente 3.920 hectares, voltada principalmente à produção de soja e milho.

A fazenda, adquirida pelo pai do ex-goleiro em 1981, atravessou décadas de transformações no campo e se consolidou como um empreendimento agrícola familiar. Atualmente, a condução das atividades está concentrada principalmente nas mãos de Rudimar Ceni, irmão mais velho do técnico do Bahia, e de seu filho Felipe, responsável pela administração financeira.

Embora também funcione como refúgio para Rogério Ceni durante os períodos de descanso, a propriedade tem uma rotina que vai muito além do lazer. O planejamento das lavouras envolve decisões sobre fertilidade do solo, controle de pragas, custos de produção, tecnologia e riscos climáticos.

Na safra 2026/27, esses fatores ganharam ainda mais importância. A irregularidade das chuvas no início do ciclo agrícola exigiu ajustes na semeadura da soja e atenção especial à janela de cultivo do milho. O cenário foi acompanhado pelo Notícias Agrícolas durante uma visita técnica à propriedade, em outubro, e voltou a ser discutido em entrevista divulgada em 30 de outubro.

A história da família Ceni revela uma realidade frequentemente desconhecida fora do setor: por trás de uma propriedade com milhares de hectares existe uma operação complexa, sujeita às mesmas incertezas enfrentadas por milhares de produtores brasileiros.

Fazenda Dona Dozolina: quase quatro mil hectares dedicados ao agronegócio

Localizada nas proximidades de Sinop, uma das principais referências da agricultura mato-grossense, a Fazenda Dona Dozolina integra uma região marcada pela expansão da produção de grãos.

A propriedade possui 3.920 hectares de área total, conforme levantamento divulgado pelo Notícias Agrícolas na Jornada da Soja 2026/27.

Sua principal vocação produtiva está no cultivo de soja e milho, atividades que exigem planejamento integrado, especialmente nas regiões onde o produtor busca aproveitar as condições climáticas para realizar duas safras no mesmo ano agrícola.

Segundo o levantamento de outubro, aproximadamente 70% da área considerada no planejamento agrícola estava destinada ao milho, em uma estratégia relacionada à redução da exposição aos riscos da temporada.

O percentual deve ser interpretado com cuidado: a informação divulgada não permite afirmar que 70% dos 3.920 hectares totais serão efetivamente cultivados com milho, uma vez que a extensão integral do imóvel não corresponde necessariamente à área agrícola disponível.

A decisão produtiva, entretanto, demonstra a importância do planejamento agrícola dentro da propriedade.

Em Mato Grosso, as escolhas feitas na implantação da soja frequentemente determinam as condições disponíveis para a segunda safra de milho.

Quando a oleaginosa é semeada mais tarde, sua colheita também pode ser deslocada, reduzindo a janela de plantio do cereal e aumentando a exposição à restrição hídrica no final do ciclo.

Por isso, mais do que definir quanto plantar, o produtor precisa avaliar quando e em quais condições cada cultura poderá ser implantada.

Foto: Construtora Lindóia

Safra 2026/27: chuvas irregulares mudaram o ritmo do plantio

Um dos principais desafios enfrentados pela Fazenda Dona Dozolina no início da safra 2026/27 foi a distribuição irregular das chuvas.

Durante uma visita técnica realizada em outubro, o Notícias Agrícolas identificou que as precipitações demoraram a se estabelecer na região de Santa Carmem.

Diante dessa situação, a equipe responsável pela propriedade optou por concentrar inicialmente a semeadura da soja nas áreas que apresentavam umidade suficiente no solo, evitando ampliar a exposição ao risco de uma germinação inadequada.

A estratégia tem fundamento agronômico.

Quando o plantio acontece com umidade insuficiente, as sementes podem apresentar emergência desuniforme, enquanto períodos secos após a germinação comprometem o estabelecimento inicial das plantas.

Em situações mais graves, a propriedade pode precisar realizar o replantio, elevando custos com sementes, operações mecanizadas e demais insumos.

Na Fazenda Dona Dozolina, a preocupação também estava relacionada à necessidade de preservar condições adequadas para a implantação do milho.

Em entrevista divulgada em 30 de outubro de 2026, Rudimar Ceni voltou a abordar os desafios do clima, do manejo da soja e da janela do milho safrinha. A equipe técnica seguia concentrada em estratégias para proteger o potencial produtivo das culturas.

O episódio demonstra que, mesmo em propriedades estruturadas, com experiência agrícola e recursos tecnológicos, a disponibilidade de água continua sendo um dos fatores decisivos para o resultado econômico.

Plantio de soja avança no Brasil, mas risco climático permanece

A situação observada na fazenda da família Ceni faz parte de um cenário mais amplo enfrentado pelo agronegócio brasileiro.

De acordo com levantamento da AgRural divulgado pelo Compre Rural em 3 de novembro, 53% da área projetada para a soja no Brasil havia sido semeada até 29 de outubro, contra 40% na semana anterior e 47% no mesmo período do ano passado.

Em Mato Grosso, a chegada de chuvas a diferentes regiões ajudou a acelerar os trabalhos, mas a distribuição irregular das precipitações ainda exigia acompanhamento.

A evolução do plantio demonstra que o início da temporada não foi uniforme.

Enquanto algumas áreas conseguiram aproveitar a recuperação da umidade, outras precisaram esperar condições mais favoráveis.

Esse comportamento reforça um ponto importante: o percentual nacional de área plantada não representa necessariamente as condições enfrentadas por cada propriedade.

O calendário agrícola precisa considerar as características do solo, o histórico das chuvas, a cultivar escolhida e o planejamento das culturas subsequentes.

Como o Compre Rural já mostrou em reportagem sobre a irregularidade das chuvas no Centro-Oeste durante o início da safra 2026/27, antecipar o plantio após uma precipitação isolada nem sempre representa a decisão mais segura.

Para o produtor, o objetivo não é simplesmente terminar primeiro a semeadura, mas garantir condições para que as lavouras apresentem desenvolvimento adequado e produtividade economicamente viável.

Tecnologia e controle biológico fazem parte da produção

Outro diferencial identificado na Fazenda Dona Dozolina é a utilização de ferramentas de manejo voltadas à eficiência produtiva.

Durante a visita técnica realizada pelo Notícias Agrícolas, foi constatada a adoção de produtos biológicos no controle de pragas, estratégia integrada às práticas utilizadas na propriedade.

O uso de soluções biológicas vem ganhando espaço na agricultura brasileira, especialmente como componente de sistemas de manejo integrado.

Essas tecnologias podem contribuir para o controle de determinados organismos prejudiciais às lavouras, desde que respeitadas as recomendações técnicas, as condições de aplicação e a compatibilidade com outras ferramentas de manejo.

A Fazenda Dona Dozolina também adotou uma estratégia de redução da adubação fosfatada na segunda safra, considerando as características e o histórico de manejo dos solos.

Esse tipo de decisão exige conhecimento agronômico.

O fósforo desempenha funções essenciais no desenvolvimento vegetal, e sua disponibilidade depende de fatores como características químicas do solo, histórico de fertilização e exigências das culturas.

Em propriedades onde a fertilidade foi construída ao longo dos anos, o acompanhamento por análises de solo pode permitir ajustes nas estratégias de adubação.

Entretanto, a redução de insumos somente representa uma vantagem quando não compromete a manutenção da fertilidade ou o potencial produtivo das lavouras.

Na prática, a experiência demonstra como a competitividade do agronegócio depende cada vez mais da qualidade das decisões técnicas, e não apenas do tamanho das áreas cultivadas.

História da fazenda começou em 1981, quando o pai de Rogério Ceni comprou as terras

A origem da Fazenda Dona Dozolina remonta ao período de expansão da ocupação agrícola do norte de Mato Grosso.

Segundo depoimento divulgado pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Eurydes Ceni, pai de Rogério, conheceu a região de Sinop em 1977.

Naquela época, o município ainda enfrentava limitações de infraestrutura, e desenvolver uma propriedade rural exigia enfrentar dificuldades de transporte, acesso e estrutura produtiva.

Mesmo diante dessas condições, Eurydes identificou potencial na região.

Em 1981, decidiu adquirir a área de terra em Santa Carmem, dando início à história da família no município.

Naquele mesmo ano, Rudimar Ceni, então estudante universitário em Curitiba, visitou a propriedade durante as férias.

O contato com o campo mudou seus planos.

Em 1982, ele interrompeu os estudos e decidiu se estabelecer em Mato Grosso, acompanhando o desenvolvimento das atividades familiares.

A trajetória, contudo, enfrentou momentos difíceis.

Em 1993, após o falecimento da mãe, a família atravessou uma fase de desânimo. Eurydes chegou a considerar a venda da propriedade, enquanto Rudimar deixou Mato Grosso e retornou ao Paraná.

A situação começou a mudar em 1998.

Naquele ano, o pai decidiu investir novamente na agricultura, levando Rudimar a retornar à fazenda para participar do desenvolvimento da atividade.

A decisão foi determinante para a continuidade do empreendimento que hoje integra a produção de grãos do norte mato-grossense.

Foto: Construtora Lindóia

Irmão e sobrinho de Rogério Ceni administram o negócio rural

Embora Rogério Ceni seja o integrante mais conhecido da família, a gestão cotidiana da propriedade está diretamente relacionada ao trabalho de Rudimar e de seu filho Felipe.

Em entrevista publicada pela Aprosoja MT em 21 de setembro de 2026, Rudimar apresentou detalhes da organização familiar.

Atualmente, Felipe é responsável pela área financeira da fazenda.

Ele começou a acompanhar a administração ao lado do avô, aprendendo a rotina do escritório e assumindo posteriormente as atividades administrativas.

Rudimar, por sua vez, permanece mais próximo das operações no campo.

A divisão das responsabilidades demonstra que a Fazenda Dona Dozolina passou por um processo gradual de profissionalização e transferência de funções entre gerações.

Esse aspecto é particularmente importante para o agronegócio brasileiro.

A continuidade de uma propriedade rural depende não apenas da transmissão patrimonial, mas da formação de sucessores capazes de compreender decisões financeiras, riscos de mercado e exigências técnicas da produção.

Uma fazenda pode reunir máquinas, terras e infraestrutura de alto valor, mas também precisa de pessoas preparadas para administrar o empreendimento.

Na família Ceni, a participação de Felipe representa uma etapa concreta desse processo.

Rogério Ceni mantém ligação com o campo desde a juventude

A proximidade de Rogério Ceni com a propriedade não começou depois que ele se tornou conhecido nacionalmente.

Durante a juventude, o ex-goleiro teve contato com a rotina agrícola da família e aprendeu a lidar com equipamentos utilizados no campo.

Em entrevista concedida durante férias em Mato Grosso, em janeiro de 2011, ele relatou que já havia dirigido tratores e caminhões carregados quando era mais jovem.

Mesmo depois de construir sua carreira no futebol, Ceni preservou a relação com a propriedade familiar.

A fazenda se tornou um espaço de descanso e convivência, especialmente nos períodos em que sua agenda profissional permite retornar ao interior de Mato Grosso.

O imóvel também reúne estruturas de lazer, incluindo um campo de futebol com gramado e iluminação, instalado nas proximidades da infraestrutura de armazenamento de grãos.

O ambiente combina duas atividades que marcaram a história dos Ceni: o trabalho rural e o futebol.

Entretanto, é importante diferenciar a relação familiar do treinador com a administração agrícola.

As informações disponíveis não permitem atribuir diretamente a Rogério Ceni a gestão das lavouras, o faturamento da produção ou as decisões operacionais.

Essas atividades aparecem vinculadas principalmente a Rudimar e Felipe, que acompanham a rotina do empreendimento.

Fazenda recebeu mais de 200 estudantes e aproximou crianças do agronegócio

A história da propriedade também inclui iniciativas de aproximação entre a produção rural e a comunidade.

Em 25 de agosto de 2026, a Fazenda Dona Dozolina recebeu mais de 200 estudantes da Escola Municipal Selvino Damian Preve, de Santa Carmem.

A visita fez parte do programa Futuro em Campo, desenvolvido pela Aprosoja MT.

Durante a atividade, os alunos conheceram diferentes etapas da produção agrícola, desde o preparo do solo até o plantio, os cuidados com as culturas e a colheita.

A programação também incluiu atividades relacionadas à preservação ambiental, como o plantio de árvores.

A iniciativa teve importância especial por permitir que crianças de uma região fortemente ligada ao agronegócio compreendessem, na prática, como funciona a produção de alimentos.

Além de apresentar máquinas e lavouras, experiências dessa natureza contribuem para demonstrar que a agricultura envolve ciência, gestão, planejamento e trabalho especializado.

Fazenda da família Ceni acompanha uma transformação histórica de Mato Grosso

A trajetória da Fazenda Dona Dozolina acompanha o desenvolvimento de uma das regiões agrícolas mais relevantes do Brasil.

Quando Eurydes Ceni adquiriu as terras, em 1981, o norte de Mato Grosso ainda enfrentava limitações estruturais que dificultavam a atividade rural.

Desde então, a região passou por transformações profundas na logística, no desenvolvimento de tecnologias agrícolas e na integração com os mercados nacionais e internacionais.

Atualmente, Mato Grosso ocupa posição estratégica nas cadeias de soja, milho, carnes e biocombustíveis.

A expansão da produção, porém, também trouxe novos desafios.

O produtor moderno precisa acompanhar preços internacionais, custos de produção, disponibilidade de crédito, transporte, oscilações cambiais e riscos climáticos.

O avanço do El Niño e seus possíveis impactos sobre a safra 2026/27 adiciona mais uma variável ao planejamento.

Nesse contexto, a gestão do risco passou a ter importância tão grande quanto o potencial produtivo de uma propriedade.

Proteger a janela do milho, preservar a fertilidade do solo e controlar despesas pode representar a diferença entre uma safra economicamente satisfatória e um resultado abaixo das expectativas.

Muito além do futebol: o legado rural da família Ceni

A Fazenda Dona Dozolina mostra que a ligação de Rogério Ceni com Mato Grosso vai além das lembranças da infância ou das visitas realizadas durante as férias.

A propriedade representa 45 anos de história familiar, marcados pela aquisição das primeiras terras, dificuldades na implantação das atividades, expansão da agricultura e preparação de uma nova geração para continuar o empreendimento.

Ao mesmo tempo, os desafios da safra 2026/27 evidenciam que nem mesmo a experiência acumulada ao longo de décadas elimina as incertezas do campo.

O planejamento agrícola continua exigindo atenção ao clima, decisões técnicas e capacidade de adaptação.

Para Rogério Ceni, a fazenda permanece como um lugar de origem e convivência familiar. Para Rudimar, Felipe e os profissionais envolvidos na produção, representa um negócio que precisa ser conduzido diariamente.

Entre o futebol e a agricultura, a história dos Ceni reúne dois caminhos diferentes, mas conectados pelo mesmo patrimônio familiar: uma fazenda que continua produzindo no coração do agronegócio brasileiro.

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