Restrição na passagem marítima entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho pode pressionar fertilizantes, combustíveis e fretes internacionais
O bloqueio em Bab el-Mandeb anunciado pelos houthis contra a navegação relacionada à Arábia Saudita adicionou uma nova fonte de incerteza ao agronegócio brasileiro. Embora não exista, até o momento, a confirmação de um fechamento total da passagem, a ameaça pode afetar o transporte de fertilizantes, elevar os custos marítimos e ampliar a volatilidade no mercado de energia.
A medida entrou em vigor após o grupo anunciar restrições a embarcações vinculadas ao comércio saudita. O alcance prático da operação, porém, ainda depende da capacidade dos houthis de fiscalizar a região e atingir navios que tentem utilizar a rota.
Bloqueio em Bab el-Mandeb mira navegação saudita
Bab el-Mandeb está localizado entre o Iêmen e o Chifre da África. O estreito conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Mar da Arábia, formando a entrada sul do corredor marítimo que conduz ao Canal de Suez.
A passagem é utilizada por embarcações que transportam petróleo, derivados, gás natural liquefeito, contêineres, veículos, minérios, fertilizantes e produtos agrícolas.
Navios que viajam entre a Ásia e a Europa pelo Canal de Suez precisam atravessar Bab el-Mandeb. No entanto, o bloqueio anunciado não alcança necessariamente todas essas embarcações, pois foi direcionado inicialmente à navegação associada à Arábia Saudita.
Essa distinção é importante: uma restrição seletiva pode causar atrasos e aumentar o risco das operações sem produzir os mesmos efeitos de uma interrupção completa da rota.
Fertilizantes concentram a maior preocupação
Para o Brasil, o ponto mais sensível está no abastecimento de fertilizantes. O país importa mais de 80% dos nutrientes NPK utilizados na produção agropecuária, ficando exposto às oscilações do mercado externo e a problemas nas rotas internacionais.
Entre os produtos que exigem maior atenção estão ureia, amônia e fertilizantes fosfatados. A produção dos nitrogenados depende fortemente do gás natural, enquanto uma parcela importante da oferta mundial está concentrada no Oriente Médio.
A Arábia Saudita também participa do fornecimento de fosfatados e enxofre ao mercado brasileiro. Parte dessa produção utiliza terminais no Mar Vermelho, cuja saída para os mercados asiáticos passa por Bab el-Mandeb.
Segundo especialistas consultados pela CNN Brasil, um bloqueio capaz de limitar esse fluxo poderia reduzir a disponibilidade de produto e fortalecer a pressão de alta sobre os preços internacionais.
DAP e safra 2026/27 entram no radar
O DAP,sfato diamônico, aparece entre os produtos mais expostos. O alerta ocorre durante uma fase de planejamento e negociação dos insumos que serão utilizados na safra brasileira de soja 2026/27.
Além de fornecer fertilizantes ao Brasil, a Arábia Saudita atende compradores do sul da Ásia. Uma eventual dificuldade para escoar essas cargas poderia elevar a concorrência entre importadores em um período de oferta global mais limitada.
A Índia possui peso relevante nesse mercado por realizar compras de grande volume. Caso parte da oferta saudita seja atrasada ou retirada das negociações, os preços internacionais podem avançar e influenciar os valores praticados no Brasil.
O impacto nacional dependerá da duração da crise, dos estoques disponíveis e da possibilidade de buscar fornecedores em outras regiões. Portanto, uma alta não deve ser tratada como inevitável, mas como um risco que ganhou força com a nova ameaça.
Bloqueio em Bab el-Mandeb pode encarecer o transporte
Companhias que decidirem evitar a passagem poderão direcionar seus navios para o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África.
O trajeto mantém as cargas em circulação, mas prolonga as viagens e aumenta o consumo de combustível, os gastos com tripulação e o período de utilização das embarcações. A UNCTAD já registrou que desvios pelo sul da África elevam custos, atrasos e emissões no transporte internacional.
Quando os navios permanecem ocupados por mais tempo, há menos capacidade disponível para novos carregamentos. Essa redução operacional pode pressionar os preços dos fretes mesmo que o número total de embarcações não diminua.
A instabilidade também tende a aumentar os prêmios cobrados nos seguros marítimos, especialmente nas operações que continuam atravessando áreas consideradas de maior risco.
Soja e milho podem sentir efeitos indiretos
Bab el-Mandeb não é uma passagem obrigatória para a maior parte das exportações brasileiras de soja e milho destinadas à China e a outros compradores asiáticos.
Por isso, um bloqueio direcionado à navegação saudita não interromperia diretamente os principais embarques brasileiros de grãos.
Os efeitos podem surgir por outros caminhos, como o encarecimento dos combustíveis, a menor disponibilidade de navios e a alta dos fertilizantes importados. Produtos de grande volume e menor valor por tonelada são particularmente sensíveis às variações do frete.
O diesel representa outro ponto de atenção. O combustível é utilizado nas máquinas agrícolas e no transporte rodoviário entre propriedades, armazéns e portos. Uma valorização do petróleo e dos derivados poderia, portanto, ampliar as despesas dentro e fora das fazendas.
Efeito dependerá do alcance da medida
Ainda não é possível estimar integralmente o impacto do bloqueio anunciado. Permanecem dúvidas sobre quais embarcações serão consideradas ligadas à Arábia Saudita e como a restrição será executada.
Uma ação limitada pode causar mudanças de rota, atrasos e aumento dos seguros. Uma escalada capaz de reduzir amplamente o tráfego pelo estreito teria consequências maiores para o comércio entre Ásia, Europa e Oriente Médio.
Para o agronegócio brasileiro, o risco mais concreto está na possível combinação de fertilizantes mais caros, fretes pressionados e aumento dos combustíveis.
Produtores, cooperativas e importadores devem acompanhar a evolução do transporte marítimo e das cotações internacionais antes de alterar o planejamento de compras para a próxima safra.
VEJA MAIS:
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.