Genética, cruzamentos estratégicos, ultrassonografia de carcaça e biotecnologias reprodutivas apontam um novo caminho para que a carne bovina brasileira conquiste mercados premium e passe a receber preços mais elevados no cenário internacional.
O Brasil já é líder mundial na produção e exportação de carne bovina, mas ainda enfrenta um desafio que pode definir o futuro da pecuária nacional: transformar volume em valor. Enquanto a proteína brasileira é reconhecida pela competitividade e pela capacidade de abastecer dezenas de países, especialistas defendem que o próximo salto será produzir carne com qualidade cada vez mais previsível e padronizada, capaz de disputar os mercados que remuneram muito acima da média.
Durante a Feicorte 2026, realizada em Presidente Prudente (SP), a Dra. Liliane Suguisawa, diretora técnica da DGT Brasil, chamou atenção justamente para esse ponto. Segundo ela, o Brasil precisa acelerar o uso de tecnologias capazes de identificar animais superiores desde cedo, especialmente por meio da ultrassonografia de carcaça, ferramenta que permite selecionar características como marmoreio, área de olho de lombo e acabamento de gordura ainda com o animal vivo.

Na avaliação da especialista, essa evolução genética pode fazer com que a carne brasileira alcance patamares de valorização muito superiores aos atuais nos mercados internacionais.
Essa visão sobre o futuro ganhou um exemplo prático nesta semana, após uma publicação do engenheiro agrônomo Roberto Barcellos, um dos consultores mais respeitados do país em pecuária de corte, carnes premium e cadeia produtiva.

Uma fotografia que resume décadas de evolução
Em suas redes sociais, Barcellos compartilhou a imagem de uma novilha meio-sangue Angus, com seis dentes — faixa etária que, segundo ele, reúne o equilíbrio ideal entre maciez, sabor e desenvolvimento da carne. 
Na mesma fotografia aparece um bezerro que deverá se tornar futuro reprodutor da Nelore do Golias, criatório que há aproximadamente duas décadas trabalha intensamente no melhoramento genético da raça Nelore com foco em qualidade de carne.
Ao observar a imagem, Barcellos foi enfático:
“Essa foto resume o futuro da carne de qualidade do Brasil!!!!!!”
Na avaliação do consultor, poucos países conseguem reunir, simultaneamente, genética, produção a pasto, suplementação estratégica e competitividade econômica como o Brasil.
A fotografia também evidencia outro ponto considerado estratégico: pastagens bem manejadas, reforçando a capacidade brasileira de produzir carne de alta qualidade em sistemas predominantemente a pasto, característica vista como um diferencial competitivo perante diversos concorrentes internacionais.
Nelore quebra antigos paradigmas
Durante muitos anos, o Nelore foi associado principalmente à rusticidade, adaptação ao clima tropical e produtividade. Entretanto, programas de seleção genética vêm mudando esse cenário.
Há cerca de 20 anos, o Projeto Nelore do Golias trabalha na seleção de animais capazes de produzir carne com elevado marmoreio, maciez e melhor acabamento de carcaça, sem abrir mão das principais características zootécnicas da raça.
Segundo o projeto, além da qualidade da carne, os animais apresentam docilidade, longevidade produtiva e desempenho superior no acabamento de gordura, atributos cada vez mais valorizados pelos frigoríficos que atuam em programas premium.
Para Barcellos, essa evolução demonstra que o Nelore não disputa espaço com o Angus, mas passa a atuar em complementaridade.
Embriões devem acelerar a transformação
Outro comentário do especialista chamou atenção dos produtores.
Segundo Barcellos:
“Estamos próximos de produzir carne de qualidade através de embriões.”
A afirmação acompanha um momento de forte expansão da transferência de embriões e da fertilização in vitro (FIV) na pecuária brasileira.
Nos últimos anos, a evolução dos protocolos hormonais, da seleção genética e principalmente o aumento das taxas de concepção das receptoras têm impulsionado a utilização da tecnologia em rebanhos comerciais, permitindo multiplicar rapidamente animais geneticamente superiores.
Na prática, isso significa acelerar décadas de melhoramento genético em apenas algumas gerações.
F1 deve continuar sendo peça-chave
A publicação também abriu espaço para uma discussão técnica entre produtores.
O pecuarista Luiz Fernando Parente questionou se o futuro estaria nas fêmeas F1 Nelore x Angus ou se receptoras Nelore puras ainda manteriam vantagens na produção de embriões com genética voltada ao marmoreio.
Barcellos respondeu que prefere utilizar matrizes F1 justamente pelas características produtivas apresentadas pelo cruzamento.
Segundo ele, as fêmeas F1 possuem precocidade sexual, elevada fertilidade e excelente habilidade materna, tornando-se receptoras altamente eficientes para programas de FIV. Além disso, após o ciclo reprodutivo, ainda produzem carne de excelente qualidade.
O consultor acrescentou que, do ponto de vista gastronômico, prefere carne de animais com aproximadamente 36 meses — na fase dos seis dentes — em vez de animais extremamente jovens, de 15 a 18 meses, por considerar que esse estágio reúne melhor equilíbrio entre maciez e sabor.
Angus e Nelore: concorrentes ou aliados?
Outro internauta resumiu a discussão afirmando que, no futuro, o Angus serviria apenas como raça receptora, enquanto o Nelore dominaria o mercado mundial da carne.
Barcellos discordou imediatamente. “Não concordo. Não são concorrentes, são complementares… duas raças incríveis e, se cruzadas entre si, se tornam imbatíveis. A grande evolução do Nelore se deu, pois começamos a usar a seleção objetiva de Quality Grade e Yield Grade do Angus” – discordou o especialista.
A declaração sintetiza uma tendência que vem ganhando força na pecuária nacional: utilizar as qualidades produtivas do Nelore juntamente com as características de qualidade de carne tradicionalmente associadas ao Angus.
O futuro já começou
As declarações de Liliane Suguisawa durante a Feicorte e a reflexão proposta por Roberto Barcellos convergem para a mesma direção. O desafio da pecuária brasileira deixa de ser apenas produzir mais e passa a ser produzir melhor.
Com seleção genética baseada em dados, ultrassonografia de carcaça, programas de FIV, cruzamentos estratégicos e décadas de evolução do Nelore, o país caminha para oferecer uma carne cada vez mais padronizada, marmorizada e valorizada.
Se esse modelo continuar avançando, o Brasil poderá consolidar não apenas a liderança em volume de exportações, mas também conquistar um espaço muito mais rentável no segmento global de carnes premium.
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