A helmintosporiose pode atravessar o intervalo entre cultivos associada aos restos vegetais e às sementes, exigindo uma estratégia que comece antes mesmo da implantação da nova lavoura
A palhada deixada após a colheita pode carregar mais do que matéria orgânica para o próximo ciclo do trigo. O fungo Bipolaris sorokiniana, associado à mancha-marrom ou helmintosporiose, tem capacidade de sobreviver nos resíduos vegetais e também de ser transportado pelas sementes. Quando encontra hospedeiros e condições ambientais favoráveis, esse inóculo pode iniciar novas infecções na lavoura.
Por isso, o manejo não deve começar apenas quando as primeiras manchas aparecem nas folhas. Histórico da área, cultura anterior, qualidade sanitária das sementes e condições de umidade precisam entrar na avaliação antes da semeadura. Nas lavouras do Sul do país, períodos recentes de elevada umidade já têm favorecido a ocorrência de diferentes doenças foliares no trigo, aumentando a necessidade de acompanhamento das plantas. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Por que a helmintosporiose consegue voltar na safra seguinte?
A mancha-marrom integra o complexo de manchas foliares do trigo. Além de Bipolaris sorokiniana, outras espécies de fungos podem provocar sintomas semelhantes, entre elas os agentes relacionados à mancha-amarela e à mancha da gluma. Isso torna o diagnóstico correto especialmente importante antes de definir qualquer intervenção.
Uma característica que aumenta o desafio é a capacidade desses fungos de permanecer associados ao material vegetal após a colheita. No caso de B. sorokiniana, a sobrevivência nos restos culturais cria uma espécie de ponte entre uma safra e outra. A semente infectada constitui outra possível fonte de introdução do patógeno.
Isso não significa que a presença de palhada seja, por si só, um problema. Queimar ou simplesmente retirar os resíduos não é a recomendação para solucionar a doença. A palhada exerce funções agronômicas importantes, principalmente em sistemas de plantio direto. A estratégia deve estar concentrada na redução da quantidade de inóculo por meio da rotação adequada e das demais ferramentas de manejo integrado.
Rotação de culturas precisa considerar os hospedeiros do fungo
A escolha da cultura que ocupará a área depois do trigo pode interferir diretamente na sobrevivência do patógeno. Para reduzir a pressão da doença, a rotação deve interromper o ciclo do fungo, e não apenas substituir uma gramínea por outra.
Esse cuidado é necessário porque Bipolaris sorokiniana não está restrito exclusivamente ao trigo. O fungo pode estar associado a outros cereais e gramíneas, o que exige análise do sistema de produção como um todo.
Na prática, áreas que acumulam histórico de manchas foliares merecem planejamento específico para evitar a manutenção contínua de hospedeiros suscetíveis. A decomposição dos resíduos ao longo do tempo ajuda a reduzir a disponibilidade de tecido onde patógenos necrotróficos conseguem permanecer.
O clima também modifica esse risco. Em 2026, condições de umidade elevada já aumentaram a pressão de doenças foliares em lavouras de trigo no Rio Grande do Sul, mostrando como a combinação entre fonte de inóculo e ambiente favorável pode exigir maior atenção do produtor.
Semente contaminada também pode iniciar a infecção
Olhar apenas para a palhada deixa uma parte importante do problema de fora. A Embrapa considera Bipolaris sorokiniana entre os patógenos capazes de serem transmitidos por sementes de trigo.
Esse mecanismo é particularmente relevante porque permite que o fungo seja levado para uma área mesmo quando a quantidade de inóculo presente nos restos culturais foi reduzida.
Um estudo da Rede de Ensaios Cooperativos do Trigo referente à safra 2024 avaliou diferentes fungicidas utilizados no tratamento das sementes e confirmou a presença de B. sorokiniana como um dos alvos relevantes desse tipo de manejo. Os resultados reforçam o tratamento como ferramenta do manejo integrado, mas não como substituto das demais medidas preventivas.
Para o produtor, isso reforça a importância de trabalhar com sementes de boa qualidade e procedência conhecida, além de adotar análise sanitária quando houver necessidade técnica.
Monitoramento evita que a doença seja percebida tarde demais
As manchas provocadas por doenças foliares retiram tecido fotossinteticamente ativo da planta. Quando avançam sobre uma parcela significativa das folhas, podem interferir na capacidade do trigo de sustentar seu potencial produtivo.
O desafio está em não esperar que o problema esteja disseminado para começar a observar a lavoura. Temperatura, chuva, orvalho prolongado e histórico de doença devem funcionar como sinais para intensificar o monitoramento.
Em áreas do Rio Grande do Sul, por exemplo, a sequência de períodos chuvosos observada na atual safra favoreceu manchas foliares, ferrugens e oídio. A melhora posterior do tempo reduziu parte dessas condições, mas não elimina infecções já instaladas.
Ferramentas de monitoramento de pragas e doenças na cultura do trigo também vêm sendo estudadas para apoiar decisões mais precisas no campo.
Fungicida ajuda, mas não corrige um sistema mal manejado
O controle químico continua fazendo parte do manejo das manchas foliares, porém deve ser tratado como uma das ferramentas disponíveis, e não como a única resposta para o problema.
Um trabalho publicado pela Embrapa Trigo em 2026 avaliou fungicidas em nove ensaios conduzidos durante a safra 2025, sendo cinco no Rio Grande do Sul e quatro no Paraná. Os pesquisadores analisaram o controle do complexo de manchas foliares sob condições naturais de infecção.
Nas condições dos experimentos, os tratamentos avaliados apresentaram eficiência no controle das manchas quando utilizados em programas com três aplicações sequenciais. O resultado, entretanto, não significa que três aplicações devam ser realizadas automaticamente em todas as propriedades. Cultivar, ocorrência da doença, clima, produto registrado, momento de aplicação e pressão do patógeno precisam ser considerados na decisão.
Também é necessário respeitar as recomendações de bula, o registro do produto para a cultura e o alvo biológico e a orientação de responsável técnico.
O que pode reduzir o risco antes da próxima safra?
Em uma área onde a mancha-marrom já ocorreu, depender exclusivamente de pulverizações significa começar o manejo quando parte do problema já está instalada. A estratégia mais consistente é diminuir as oportunidades para o fungo permanecer e se multiplicar.
Entre os principais cuidados estão:
- planejar rotação com culturas não hospedeiras;
- evitar sucessões que mantenham continuamente os mesmos patógenos;
- utilizar sementes de qualidade e procedência conhecida;
- avaliar a sanidade das sementes quando houver histórico da doença;
- considerar o tratamento de sementes quando tecnicamente recomendado;
- acompanhar chuva, umidade e duração do molhamento das folhas;
- monitorar regularmente a lavoura para identificar os primeiros sintomas;
- utilizar fungicidas registrados somente dentro de um programa de manejo integrado.
Nenhuma dessas medidas funciona de forma isolada em todas as situações. O objetivo é combinar estratégias para reduzir o inóculo inicial e impedir que condições favoráveis transformem uma presença pequena do patógeno em um problema maior.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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