Originária de Sulawesi do Sul, a Ayam Ketawa chama atenção por um canto entrecortado que lembra uma gargalhada humana; tradição ligada à nobreza Bugis ganhou competições nacionais e valor econômico entre criadores
A Indonésia abriga uma galinha cujo principal atributo não está na produção de carne, ovos ou no formato das penas. A Ayam Ketawa, também chamada de Gaga, é criada principalmente por causa do canto dos machos, marcado por sequências sonoras que lembram uma pessoa rindo. A característica já foi estudada por pesquisadores por meio de análises bioacústicas e ajudou a transformar a ave em uma das curiosidades da avicultura indonésia.
A ave tem origem em Sidenreng Rappang, conhecido como Sidrap, na província de Sulawesi do Sul. Seu passado também ajuda a explicar o prestígio que adquiriu: pesquisa publicada em 2021 relata que, na década de 1940, sua criação estava concentrada entre integrantes da aristocracia Bugis e relacionada à demonstração de posição social. Com o passar das décadas, a criação deixou esse círculo restrito e se espalhou para outras regiões da Indonésia. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Por que a Ayam Ketawa parece estar rindo?
A comparação com uma risada não nasceu apenas da impressão dos criadores. Um estudo publicado em 2017 na revista científica Biodiversitas descreveu a Ayam Ketawa como uma galinha ornamental local cujo canto apresenta semelhança perceptível com o riso humano.
Os pesquisadores analisaram aves de Pinrang, também em Sulawesi do Sul, e identificaram diferenças tanto no padrão sonoro quanto nas características corporais. Entre os padrões estudados aparecem os tipos “dangdut”, de canto mais rápido e prolongado, e “slow”, caracterizado por uma sequência mais lenta.
Essa seleção pelo som coloca a Ayam Ketawa em um segmento peculiar da avicultura ornamental, no qual aparência, comportamento ou vocalização podem ter mais peso para o criador do que características produtivas tradicionais.
De símbolo entre os Bugis aos concursos de canto
A relação histórica com a elite Bugis não significa que a Ayam Ketawa continue restrita a famílias de alta posição social. A literatura científica aponta justamente o contrário: a ave se disseminou para fora de Sidrap, ganhou novos criadores e passou a ser selecionada também pelo desempenho em competições.
Um exemplo dessa popularização ocorreu em setembro de 2023, quando a IPB University realizou um concurso nacional dedicado à raça. Segundo a instituição, 180 participantes estiveram envolvidos e as aves foram avaliadas em sete categorias, entre elas slow, dangdut, duração e grand champion.
Os concursos ajudam a manter a característica que tornou a raça conhecida. Em vez de selecionar apenas peso, crescimento ou postura, criadores direcionam parte da reprodução para atributos ligados à vocalização.
É uma lógica que também aparece em outras criações especializadas. A galinha Sebright, por exemplo, é valorizada principalmente por características ornamentais, mostrando como determinados nichos da avicultura seguem critérios bem diferentes da produção comercial convencional.
Vitória em concursos pode elevar o valor dos animais
O desempenho nas competições também influencia o mercado em torno da Ayam Ketawa.
Em novembro de 2024, a agência estatal indonésia ANTARA mostrou que animais com histórico frequente de vitórias podem alcançar dezenas de milhões de rupias indonésias. A valorização pode atingir inclusive os descendentes desses exemplares, devido ao interesse dos criadores pelas linhagens associadas a cantos considerados superiores.
Isso não significa que toda Ayam Ketawa tenha preços elevados. O mercado varia de acordo com características do animal, linhagem, qualidade vocal e resultados obtidos em concursos. Registros anteriores da própria ANTARA já mostravam grande diferença de preço entre aves comuns e exemplares de maior interesse para criadores.
A combinação entre competição e seleção ajuda a explicar por que uma característica aparentemente curiosa se transformou em ativo econômico para parte dos criadores indonésios.
Uma galinha local que também interessa à conservação genética
A importância da Ayam Ketawa não termina nos concursos.
Relatório do Ministério da Agricultura da Indonésia sobre conservação de recursos genéticos agrícolas incluiu a Gaga entre galinhas locais mantidas em ações de preservação. O documento identifica a raça como originária de Sulawesi do Sul e destaca justamente o canto peculiar dos machos.
Uma revisão científica publicada em 2025 reforçou essa preocupação. Após examinar estudos sobre a raça, os pesquisadores encontraram diversidade genética entre populações, diferenças morfológicas e bioacústicas e sinais que justificam estratégias de conservação mais estruturadas. O trabalho também chama atenção para o risco de perda de diversidade diante de cruzamentos sem controle e da limitação de informações populacionais.
Nesse contexto, os concursos podem desempenhar dois papéis. Ao mesmo tempo em que aumentam o interesse econômico por determinados padrões de canto, também mantêm comunidades de criadores mobilizadas em torno da reprodução da ave. A conservação, porém, depende de evitar que a busca por poucos atributos reduza excessivamente a variabilidade genética.
A Ayam Ketawa mostra como uma característica incomum pode ultrapassar a condição de curiosidade. O canto que lembra uma gargalhada ajudou uma galinha de Sulawesi do Sul a atravessar gerações, sair de um ambiente historicamente associado à aristocracia Bugis e conquistar competições, criadores e pesquisas voltadas à preservação de sua diversidade.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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