Com crédito mais caro e seletivo, o agro soma centenas de pedidos por trimestre, e especialistas alertam para a importância de agir antes que a crise se agrave
O campo brasileiro segue sob pressão financeira. O agronegócio registrou 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo a Serasa Experian. Entre abril e junho, foram outros 448.
O movimento é estrutural. O número de empresas do agro em recuperação judicial passou de 875 para 1.039 entre 2023 e 2025, segundo levantamento do Empresômetro, ligado ao IBPT. Os pedidos se espalham pelos principais polos produtores: Mato Grosso, Goiás, São Paulo, Minas Gerais e Paraná concentram cerca de 80% das solicitações.
O quadro é conhecido por quem vive da terra: custos de produção elevados, crédito concedido com mais rigor e dívidas acumuladas de safras anteriores. A Serasa avalia que eventuais recuos nos pedidos podem estar ligados a fatores sazonais, como a entrada de receitas da colheita, e não significam que a situação financeira do setor tenha melhorado.
“A colheita traz um alívio momentâneo, mas não resolve o problema de quem carrega dívidas caras de várias safras. O produtor continua pagando juros altos para financiar a próxima lavoura, e isso cobra a conta”, afirma Guilherme Costa Frange, advogado especialista em recuperação judicial do escritório Frange Advogados.
A pressão atinge as principais atividades do campo. O cultivo de soja concentrou 70 pedidos no segundo trimestre, e a criação de bovinos, 28. Os produtores pessoa física lideram em número de solicitações. Entre eles, estão arrendatários e integrantes de grupos familiares que nem sempre têm terra registrada em nome próprio.
Para o advogado, a recuperação judicial deixou de ser vista como último recurso e passou a funcionar como instrumento de reorganização. Ela suspende cobranças e execuções por um período, protege bens essenciais à atividade e reúne todos os credores numa mesma negociação.
“A lei existe para que o produtor continue produzindo. Quem busca orientação cedo, antes de perder maquinário ou ter a safra comprometida, chega à negociação com muito mais força. Esperar demais é o erro mais caro”, diz Guilherme Frange.
Alguns sinais indicam que é hora de buscar orientação: rolar dívidas com frequência, usar crédito novo para pagar parcelas antigas, sofrer bloqueio de contas ou ver garantias ameaçadas. Nesses casos, a recomendação é revisar contratos e avaliar o caminho jurídico antes que o caixa chegue ao limite.
Com o planejamento da próxima safra em andamento e o crédito ainda restrito, o tema deve continuar na pauta do produtor rural nos próximos meses.
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