Ruiz Coffees atribui crise a perdas nas lavouras, vendas antecipadas e crédito restrito; cerca de R$ 775 milhões estão sujeitos à recuperação judicial
A Ruiz Coffees, uma das grandes produtoras de café do Brasil, recorreu à Justiça para reorganizar suas dívidas após uma sequência de dificuldades nas lavouras e no financiamento da atividade. O pedido de recuperação judicial foi apresentado em 8 de outubro de 2026, em São José do Rio Preto (SP), com passivo informado de aproximadamente R$ 1,6 bilhão.
O caso reúne fatores que ajudam a explicar por que a valorização do café não garante, sozinha, equilíbrio financeiro ao produtor. Segundo a companhia, perdas de produção, contratos firmados antes da alta dos preços e dificuldades para renovar financiamentos reduziram a disponibilidade de dinheiro para cumprir compromissos e sustentar as safras seguintes.
Nem toda a dívida está dentro da recuperação judicial
Uma distinção é fundamental para compreender o tamanho da reestruturação: o passivo total de R$ 1,6 bilhão não corresponde ao valor integral submetido à recuperação judicial.
Aproximadamente R$ 775 milhões foram apresentados como créditos sujeitos ao processo, enquanto outros R$ 820 milhões ficam fora, conforme a composição divulgada. Essa parcela envolve obrigações com diferentes credores e garantias, tornando as negociações paralelas relevantes para a reorganização do grupo.
Entre os maiores credores relacionados no pedido, segundo reportagem do InvestNews, estão:
| Credor | Valor informado |
|---|---|
| Caixa Econômica Federal | R$ 130,8 milhões |
| Vert Companhia Securitizadora | R$ 109,3 milhões |
| Sicoob | R$ 77,9 milhões |
Clima reduziu a colheita e pressionou o caixa
Na explicação da Ruiz Coffees, os problemas se acumularam ao longo de diferentes ciclos produtivos. A empresa aponta os efeitos das geadas de 2021, do calor extremo na florada de 2023 e da estiagem de 2024.
As frustrações ficaram entre 14% e 28% dos volumes inicialmente esperados, de acordo com a companhia. Com menos café para comercializar, diminuiu também a geração de recursos que financiaria os ciclos seguintes.
O impacto vai além da quantidade colhida. Na cafeicultura, despesas com manutenção das lavouras e preparação da próxima produção continuam existindo mesmo quando a receita fica abaixo do orçamento. Uma sequência de perdas, portanto, pode prolongar a pressão financeira.
Por que a alta do café não resolveu o problema
Parte da produção da Ruiz Coffees já estava comprometida em contratos de venda com preços definidos antes da valorização do grão, segundo o relato da empresa.
Isso limitou o aproveitamento das cotações mais elevadas. A companhia também informou que as perdas nas lavouras dificultaram o cumprimento de entregas físicas, exigindo reprogramação de volumes entre colheitas.
O episódio mostra uma diferença importante para a gestão rural: preço de mercado, receita contratada e dinheiro disponível no caixa são medidas distintas. Uma cotação elevada beneficia principalmente o volume que o produtor ainda pode negociar nas novas condições.
A venda antecipada pode oferecer previsibilidade. Quando a colheita frustra a expectativa, porém, o produtor precisa administrar simultaneamente a redução da produção e os compromissos assumidos.
Fazendas entram nas negociações com financiadores
A reorganização também alcança operações vinculadas a terras do grupo. Segundo informações prestadas pela Ruiz Coffees ao The AgriBiz, aproximadamente 1,5 mil hectares de café, equivalentes a um quinto dos 7,5 mil hectares cultivados, estão envolvidos em estruturas de financiamento no mercado de capitais.
Essas operações incluem ainda cerca de 1,1 mil hectares de cana-de-açúcar. A empresa afirmou que as áreas cafeeiras permanecem sob sua operação.
Entre as alternativas divulgadas está a transferência de propriedades para fundos ligados aos financiadores, com posterior arrendamento à própria produtora. Nesse modelo, a propriedade da terra muda, mas a atividade agrícola pode continuar com o grupo.
O comunicado do Suno Agro, de 20 de outubro, informou uma reestruturação envolvendo créditos do Grupo Ruiz e um Fiagro de terras, com pagamento de arrendamento substituindo a remuneração anterior da operação.
Empresa busca preservar a operação
A Ruiz Coffees sustenta que enfrenta uma crise de liquidez e avalia vender ativos não essenciais. Essa é a posição apresentada pela companhia sobre sua capacidade de reorganização.
Quanto ao andamento judicial, as informações consultadas registram uma proteção provisória contra determinadas cobranças. No comunicado de 20 de outubro, as prestadoras de serviços do Suno Agro ainda informavam não ter conhecimento do deferimento do processamento do pedido. Portanto, essa medida provisória não deve ser confundida com aprovação de um plano de recuperação.
Para o produtor rural, o caso evidencia o peso da combinação entre risco climático, compromissos comerciais e endividamento. A recuperação dependerá da capacidade de compatibilizar pagamentos com a geração de caixa das lavouras e de preservar os recursos necessários para continuar produzindo.
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