Importar boi paraguaio não vai derrubar a arroba

Importar boi paraguaio não vai derrubar a arroba

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embarque de gado nelore
Foto: Agrônomo Alan Moreira

Muito barulho e pouco impacto, as importações do boi paraguaio que vem sendo requerida pela indústria, não irá impactar nos preços da arroba!

Atualmente em discussão no Ministério da Agricultura, a liberação para a importação de gado vivo do Paraguai para contornar a falta de animais prontos para abate no Brasil teria pouca ou nenhuma capacidade de influenciar nos preços da arroba brasileira, cotada atualmente em patamares recordes.

Os atuais preços praticados, apresentam uma alta de quase 50% no valor da arroba nos últimos doze meses. Grande parte da pressão de alta no mercado se deve ao fato da grande dificuldade da indústria em originar matéria prima. Como a importação de animais do Paraguai, só iria servir para aumentar o valor dos animais no país!

Com um rebanho equivalente a cerca de 6% do efetivo de bovinos existente atualmente no Brasil, o país pode ver a sua arroba, atualmente 16% mais barata, alinhar-se aos preços brasileiros em pouco tempo – anulando possíveis ganhos com a abertura das importações.

“Como o rebanho do Paraguai é muito menor, a partir do momento que você começa a comprar gado do Paraguai é muito provável que ocorra o aumento da arroba paraguaia também”, destaca o analista de pecuária da Stonex, Caio Toledo.

Atualmente, os valores da arroba no Brasil estão cotados a US$ 54,88/@ sendo que, no Paraguai esse valor é de US$ 45,75. Trazendo para valores do Real, o preço lá está R$ 49,00/@ mais barato que no Brasil. Lembrando que a arroba no mercado interno valorizou cerca de R$ 34 nos últimos 30 dias.

Entretanto, apesar dessa diferença, segundo dados do governo do Paraguai, em 2019 o país possuía um rebanho de 13,8 milhões de cabeças de gado. O volume corresponde a menos da metade do volume de abates registrados no Brasil naquele ano, de 32,45 milhões de cabeças de gado.

“Caso isso aconteça e a gente de fato importe gado bovino do Paraguai, vai ser algo de curtíssimo prazo e que a médio prazo o próprio mercado vai entender o que está acontecendo, sem perdurar por muito tempo”, observa Toledo.

Segundo ele, o pedido de liberação das importações pela indústria tem mais efeito simbólico do que econômico sobre a cadeia, sinalizando que a situação no mercado brasileiro teria chegado ao limite. “Em termos práticos, não sei se vai funcionar tanto. Acho que é muito mais uma mensagem do que algo que de fato vá acontecer”, observa o analista.

E o recado foi dado já na balança comercial de janeiro, quando as importações brasileiras de bovinos e bubalinos vivos registraram crescimento de 202,4% ante igual período do ano passado, com 6,3 toneladas. Um número pequeno, mas que sinaliza uma procura.

No acumulado de 2020, foram 26,3 toneladas, pouco mais que o dobro do registrado em 2019. Os números, segundo a diretora-executiva da Agrifatto Lygia Pimentel, refletem a diferença de preços do Brasil em relação a seus pares na América do Sul. Segundo ela, o atual cenário favorece a procura por animais de outros países, o que pode representar riscos sanitários ao Brasil.

“Para importar formalmente é necessário estar a par das exigências sanitárias, e isso inclui vacinação contra febre aftosa. Mas a gente sabe que informalmente a fronteira seca favorece o trânsito de animais de tempos em tempos. E o risco maior está aí”, Lygia Pimentel, diretora-executiva da Agrifatto

Reação no campo

A questão sanitária também é a principal preocupação dos pecuaristas brasileiros, que não receberam bem a notícia de uma possível abertura do mercado interno ao gado paraguaio.

“A gente é contra essas medidas porque tivemos um trabalho intenso de sanidade, com o trabalho grande que o Ministério da Agricultura, para tirar a vacinação e fazer a gente voltar tudo atrás e correr riscos de doenças, principalmente aftosa”, diz o presidente da Associação de Criadores de Gado do Mato Grosso (Acrimat), principal Estado produtor do país.

Segundo ele, o setor não foi consultado sobre a possibilidade de abertura das importações de gado paraguaio. “O que chama atenção é principalmente o aspecto sanitário. O mercado é livre e cada um tem que procurar o que é melhor. Mas não existe animal pronto porque não tem animal pronto mesmo. Tivemos dois anos de seca violenta”, destaca o pecuarista.

Segundo o Ministério da Agricultura, caso seja aprovada, a autorização para importação de gado vivo do Paraguai será válida para qualquer empresa que cumpra os requisitos sanitários estabelecidos pelo Brasil junto ao governo paraguaio – sem definição de cotas ou limites de volume.

“O Paraguai é um país reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) como livre de febre aftosa com vacinação em todo o seu território. Dessa maneira, cumpre, plenamente, todas as exigências brasileiras para a importação de carne bovina”, afirmou a pasta em nota. 

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