Incerteza eleitoral amplia preocupações sobre futuro da agenda climática brasileira

O governo Lula tem incentivado a indústria brasileira de remoção de carbono por meio de empréstimos e investimentos do BNDES.

A eleição presidencial apertada tem deixado investidores, empresas e executivos ligados à agenda climática preocupados diante da possibilidade de um eventual governo liderado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) não manter as políticas que sustentam a emergente economia verde do Brasil.

Flávio liderou o primeiro turno das eleições no fim de semana com um desempenho melhor do que o esperado, após uma campanha na qual prometeu fortalecer o mercado regulamentado de carbono, mas evitou criticar o histórico climático de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em cujo governo o desmatamento disparou.

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No segundo turno, em 25 de outubro, ele enfrentará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem buscado posicionar o Brasil como um polo de financiamento climático, lançando programas para atrair capital privado para projetos verdes e estabelecendo as bases para um mercado de carbono regulamentado.

O setor industrial pressionou Bolsonaro para que não abandonasse essas iniciativas, dados os potenciais custos para a economia.

“Seria uma burrice econômica você retroagir nessa agenda”, disse Tereza Campello, diretora socioambiental do banco estatal de desenvolvimento BNDES.

Embora a campanha de Flávio também tenha prometido expandir a bioeconomia, com foco em produtos farmacêuticos e cosméticos, investidores e executivos ainda manifestam preocupações com suas declarações anteriores a respeito das mudanças climáticas.

Em entrevista concedida à TV Globo em agosto, Flávio descreveu os eventos climáticos extremos como cíclicos e afirmou não acreditar que sejam causados exclusivamente pela ação humana. Ele declarou que a melhor maneira de lidar com as preocupações climáticas seria por meio de investimentos em saneamento básico.

O plano de governo do senador ignorou em grande parte as metas de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa, de acordo com o Observatório do Clima.

“Nota-se que propostas como o combate ao desmatamento ou o reforço do poder de fiscalização dos órgãos de proteção ambiental são flagrantemente incompatíveis com a prática de seu mandato no Senado”, afirmou o grupo.

A campanha de Flávio disse que a agenda ambiental do senador, no caso de vitória na eleição, seria aprimorada durante o período de transição entre governos, sem responder diretamente se as iniciativas de financiamento verde de Lula seriam mantidas.

Flávio priorizaria incentivos de conservação baseados no mercado, como o pagamento por serviços ambientais, e o fortalecimento dos esforços para combater crimes ambientais, numa tentativa de eliminar o desmatamento ilegal até 2029, um ano antes da meta de Lula, segundo a campanha.

Benefícios econômicos

Durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, as proteções ambientais foram enfraquecidas e o desmatamento se expandiu pela Amazônia brasileira.

Desde então, o governo Lula tem incentivado a indústria brasileira de remoção de carbono por meio de empréstimos e investimentos do BNDES. Durante sua campanha, o presidente prometeu expandir instrumentos de financiamento climático como o Eco Invest, que mobilizou R$190 bilhões desde 2024.

Especialistas do setor afirmam que os benefícios econômicos da agenda climática do Brasil são difíceis de ignorar.

“A agenda climática e a visão do governo dessa indústria como sendo superestratégica no país não depende de partido”, disse Gabriel Silva, diretor executivo da startup de remoção de carbono Mombak.

Independentemente de quem vencer as eleições, Silva disse esperar continuidade, em parte devido ao desenvolvimento do mercado regulamentado de carbono no Brasil e às opções de crédito oferecidas pelo BNDES.

Hoje, créditos de carbono brasileiros são negociados no mercado voluntário por empresas com metas próprias de redução de emissões. Com a regulamentação aprovada em 2024, o país se prepara para lançar um mercado regulado, permitindo que empresas usem créditos para cumprir metas obrigatórias de descarbonização e abrindo espaço para sua negociação internacional.

Difícil de reverter

O apoio das empresas ao programa também poderia encorajar Flávio a mantê-lo.

Antes do primeiro turno da eleição, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), cujos membros incluem a Petrobras e a Vale, disse aos candidatos que considera o mercado regulamentado de carbono uma questão fundamental para a economia do país.

“Em 2025, cerca de US$2,2 trilhões foram investidos globalmente em tecnologias de energia limpa. Esse capital é móvel”, disse Daniela Mignani, diretora executiva de gestão corporativa do CEBDS, acrescentando que os investidores podem migrar para outros lugares diante da incerteza regulatória.

Campello, do BNDES, afirmou que a lógica econômica por trás da agenda climática de Lula pode dificultar sua reversão, dada a crescente demanda por produtos da bioeconomia, incluindo madeira certificada, bem como cacau e café cultivados em áreas reflorestadas.

O programa florestal do BNDES disponibilizou cerca de R$15 bilhões em empréstimos e investimentos para projetos voltados à recuperação e proteção de florestas locais.

Fonte: Reuters

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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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