Relato sobre a descoberta da gipsita no Sertão pernambucano ajuda a contar a origem do Polo Gesseiro do Araripe; mineral também pode fornecer cálcio e enxofre e favorecer raízes mais profundas no campo
Uma observação aparentemente simples ajudou a revelar uma das maiores riquezas minerais do Sertão de Pernambuco. Segundo relatos preservados na região, Theotônio Alves Pinto, apontado como um dos pioneiros na exploração da gipsita no Araripe, percebeu que insetos carregavam pequenos resíduos esbranquiçados pelo solo de sua propriedade.
Intrigado com o material, ele teria investigado o terreno e identificado a presença do mineral na área conhecida como Lagoa de Dentro. A história, transmitida como parte da memória local, marcou o início de uma atividade que transformaria a economia de parte do Sertão pernambucano.
Naquela época, a retirada da gipsita era feita de maneira artesanal. O trabalho dependia da força humana, de ferramentas simples e de animais usados para transportar as pedras. Décadas depois, o que começou quase como uma descoberta casual deu origem ao maior polo produtor de gipsita e gesso do Brasil.
Hoje, o Polo Gesseiro do Araripe reúne principalmente os municípios de Araripina, Trindade, Ipubi, Ouricuri e Bodocó. Dados do Sindicato das Indústrias do Gesso de Pernambuco apontam que a região responde por aproximadamente 95% da produção nacional de gipsita, gesso e derivados.
O complexo possui mais de 500 empresas entre mineradoras, beneficiadoras, fabricantes de pré-moldados e indústrias de transformação. A gipsita da região também se destaca pela qualidade, com pureza estimada entre 88% e 98%. As reservas estimadas chegam a 1,22 bilhão de toneladas, segundo o Sindusgesso.
Levantamento divulgado pelo Sebrae em 2025 apontou 694 empresas ativas nos segmentos relacionados à extração e à fabricação de materiais para construção na região. O chamado “ouro branco do Araripe” tornou-se, assim, uma das principais bases econômicas do interior pernambucano.
Da construção civil para a agricultura
Embora seja mais conhecido por sua utilização na construção civil, o mineral também possui ligação direta com o agronegócio. A gipsita natural, formada principalmente por sulfato de cálcio di-hidratado, pode ser processada para a fabricação de gesso agrícola.
No campo, o produto é utilizado como condicionador do perfil do solo e como fonte de cálcio e enxofre, dois nutrientes importantes para o desenvolvimento das plantas. Seu uso é especialmente relevante em áreas nas quais as camadas abaixo da superfície apresentam pouco cálcio e níveis elevados de alumínio, condição frequente nos solos tropicais brasileiros.
Como apresenta maior mobilidade no solo do que o calcário, o gesso consegue levar cálcio e sulfato para camadas mais profundas. Isso cria condições químicas mais favoráveis para que as raízes avancem no perfil do solo.
Com raízes mais profundas, culturas como soja, milho, algodão, café e espécies forrageiras podem explorar um volume maior de terra em busca de água e nutrientes. O benefício tende a ganhar importância durante veranicos e períodos de irregularidade das chuvas.
Em pastagens, a técnica também pode contribuir para a formação de sistemas radiculares mais profundos e para o melhor aproveitamento da água, favorecendo a persistência da forrageira durante a seca.
Gesso agrícola não substitui o calcário
Apesar dos benefícios, o gesso agrícola não deve ser tratado como substituto do calcário. Os dois insumos cumprem funções diferentes.
O calcário é usado principalmente para corrigir a acidez e elevar o pH do solo, além de fornecer cálcio e magnésio. O gesso, por sua vez, tem atuação mais expressiva nas camadas subsuperficiais, fornecendo cálcio e enxofre e reduzindo os efeitos tóxicos do alumínio em profundidade.
Por isso, a aplicação deve ser definida a partir de análises do solo, preferencialmente contemplando camadas abaixo dos primeiros 20 centímetros. O uso sem recomendação técnica ou em doses excessivas pode provocar o deslocamento de nutrientes, especialmente magnésio e potássio, para regiões profundas do perfil.
Também é necessário observar a origem e as especificações do produto. Nem todo gesso utilizado pela construção civil é apropriado para a lavoura, principalmente quando contém aditivos. Além do material obtido diretamente da gipsita natural, grande parte do gesso agrícola comercializado no país é o fosfogesso, coproduto da fabricação de fertilizantes fosfatados.
Uma riqueza que atravessou gerações
A trajetória da gipsita no Araripe conecta a mineração, a indústria, a construção e o agronegócio. A descoberta atribuída à observação dos insetos representa um capítulo simbólico dessa história: aquilo que apareceu como pequenos rastros brancos no solo tornou-se fonte de renda, empregos e desenvolvimento para milhares de famílias.
No campo, o mesmo composto mineral pode ajudar as raízes a avançarem justamente para onde o agricultor nem sempre consegue enxergar. Se na Lagoa de Dentro os sinais estavam na superfície, nas lavouras brasileiras o maior efeito do gesso ocorre em profundidade — no ambiente em que as plantas buscam forças para enfrentar a seca e sustentar a produtividade.
O desafio do Polo Gesseiro agora é ampliar mercados e modernizar a produção sem comprometer a Caatinga. A substituição da lenha nativa, o uso de fontes energéticas mais limpas e a melhoria da logística são considerados pontos decisivos para que o “ouro branco” continue movimentando o Sertão e encontre novas oportunidades também dentro do agro brasileiro.
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