Recuperações judiciais batem recorde e crise alcança empresas de todos os portes

Com juros altos e inadimplência inédita, número de companhias sob proteção da Justiça dispara

O Brasil nunca teve tantas empresas em recuperação judicial. Levantamento do Monitor RGF-BizDoc mostra que o país chegou ao segundo trimestre de 2026 com 6.341 companhias em reestruturação sob supervisão da Justiça, sem contar as microempresas. É o maior número da série. No início de 2023, eram 4.014, alta de quase 58% em pouco mais de três anos.

A escalada atinge todos os portes. Entre micro e pequenas empresas, o total em recuperação chegou a 2.821 em junho, salto de 41,4% em doze meses e quase o dobro do ritmo do conjunto das empresas, que avançou 21,2%. Na outra ponta, 12 grandes companhias pediram recuperação judicial ou extrajudicial em 2026, metade delas do varejo.

Para Antônio Frange Júnior, advogado do Frange Advogados e especialista em recuperação judicial, o problema é estrutural. “São empresas que vendem, têm clientes e empregam, mas que chegaram a um ponto em que o faturamento já não cobre o custo da dívida. Quando isso acontece em tantos segmentos ao mesmo tempo, não é uma crise localizada”, afirma.

Juros altos no centro da crise

O pano de fundo é o dinheiro caro por um período prolongado. Mesmo após sucessivos cortes, a Selic segue na casa dos 14% ao ano. A inadimplência acompanha o aperto. Em julho, 9,2 milhões de empresas estavam negativadas, recorde do indicador da Serasa Experian, com dívidas que somam R$ 238,6 bilhões. Mais de três quartos dessas pendências estão fora de bancos e financeiras, sinal de dificuldade para pagar fornecedores e contas básicas da operação.

A Serasa Experian já havia registrado recorde em 2025, com 2.466 empresas envolvidas em pedidos de recuperação judicial, alta de 13% sobre o ano anterior.

No campo, a alta é a mais acelerada entre os setores. Segundo o Monitor RGF-BizDoc, 1.263 empresas do agronegócio estavam em recuperação judicial ao fim de junho, avanço de 66% em doze meses. A Serasa Experian contabilizou 474 pedidos no setor no primeiro trimestre, 21,9% a mais que um ano antes. Entre produtores que atuam como pessoa jurídica, o salto foi de 73,5%. Mato Grosso liderou o ranking estadual, com 135 pedidos.

O crédito também ficou mais curto. No primeiro mês da safra 2026/27, os desembolsos somaram R$ 12,7 bilhões, menos da metade dos R$ 28,3 bilhões liberados no mesmo período do ciclo anterior. A combinação de juros elevados, preços agrícolas mais baixos e financiamento escasso comprimiu as margens de produtores que se alavancaram em anos de maior rentabilidade.

Para Frange, a demora em buscar reestruturação é o que mais compromete a saída da crise. Quando o empresário procura ajuda só com o caixa zerado e as execuções em andamento, as alternativas diminuem e os riscos aumentam.

“Recuperação judicial não é derrota. É um instrumento para preservar a atividade, os empregos e o pagamento dos credores, mas precisa ser usado a tempo e com um plano que caiba na realidade da empresa”, conclui Frange.

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