“Quem desmata é o criminoso, não é o agricultor”, diz ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira

Ex-ministra do Meio Ambiente defende convergência entre agro e preservação, critica burocracia e afirma que agricultura brasileira terá papel estratégico diante das novas exigências geoeconômicas mundiais e defende revolução no licenciamento ambiental

A necessidade de separar o produtor rural que atua dentro da lei do crime ambiental ganhou destaque durante debate realizado em São Paulo. Ex-ministra do Meio Ambiente e atual conselheira do BNDES, Izabella Teixeira defendeu uma aproximação entre agricultura e agenda ambiental e afirmou que o Brasil precisa modernizar suas regras para transformar seu patrimônio natural e sua capacidade produtiva em vantagem competitiva.

“Quem desmata é o criminoso, não é o agricultor”, afirmou Izabella durante o painel “Quais decisões o Brasil precisa tomar hoje para transformar o futuro?”, promovido pela Meridiana, organização de inteligência política.

Para a ex-ministra, o Brasil ocupa uma posição singular no cenário internacional por reunir uma das maiores potências agrícolas do planeta e um enorme patrimônio ambiental. Essa combinação, segundo ela, coloca o País no centro das discussões envolvendo segurança alimentar, mudanças climáticas, energia e recursos naturais.

Ao mesmo tempo, Izabella criticou o que considera uma dificuldade brasileira de abandonar modelos e estruturas que já não acompanham as transformações econômicas e geopolíticas em curso.

“O Brasil é um país que insiste em ter o passado em movimento, tem uma fixação no passado”, declarou.

Produtor rural não pode ser confundido com crime ambiental

Um dos pontos mais contundentes da participação de Izabella foi justamente a relação entre produção agropecuária e preservação.

Segundo a ex-ministra, o País possui mais de 200 milhões de hectares preservados dentro de propriedades privadas, além das áreas protegidas existentes em terras públicas. Nesse cenário, ela contestou narrativas que colocam o produtor rural de maneira generalizada como responsável pela degradação ambiental.

“Quem desmata é o criminoso, não é o agricultor”, reforçou.

Na avaliação de Izabella, combater efetivamente os crimes ambientais, especialmente na Amazônia, e avançar na regularização são condições importantes para proteger a reputação do agronegócio brasileiro diante dos principais mercados consumidores.

A diferenciação entre produção legal e atividades criminosas também ganha importância à medida que critérios ambientais passam a influenciar cada vez mais o comércio internacional de alimentos e matérias-primas.

Izabella Teixeira no evento “De Potencial a Poder: O que Precisa Mudar para que o Brasil Mude”. Mariana Almeida | Cabron Studios

“Façam uma revolução no licenciamento ambiental”

Se, por um lado, Izabella defendeu rigor contra o crime ambiental, por outro cobrou uma profunda modernização da relação entre o Estado e quem produz dentro da legalidade.

A ex-ministra criticou a fragmentação dos processos burocráticos e defendeu inclusive o emprego de novas tecnologias, como a inteligência artificial, para tornar a gestão pública e o licenciamento ambiental mais eficientes.

“Façam uma revolução no licenciamento ambiental, porque é impossível que um agricultor tenha que ir cinco vezes a um órgão ambiental”, afirmou.

Entre os exemplos mencionados estão procedimentos relacionados à outorga de água, cadastros e diferentes exigências ambientais que podem obrigar o produtor ou empreendedor a percorrer sucessivas etapas administrativas.

A discussão, portanto, não seria simplesmente entre flexibilizar ou endurecer regras ambientais, mas encontrar mecanismos capazes de aumentar a eficiência da fiscalização e, simultaneamente, reduzir a burocracia enfrentada por quem está regular.

Izabella também alertou que a demora brasileira em processos de licenciamento pode representar perda de competitividade em investimentos estratégicos.

“Ninguém vai esperar 15 anos para ter uma mina licenciada no Brasil. O mundo não vai esperar”, declarou.

Agro e meio ambiente precisam caminhar juntos

Para a ex-ministra, a transformação da agricultura brasileira em direção a uma economia de baixo carbono depende justamente da aproximação entre duas agendas frequentemente colocadas em lados opostos do debate público.

“A solução do Brasil é a conciliação da área ambiental com a área da agricultura”, afirmou.

Na avaliação apresentada durante o evento, a agricultura está entre as maiores forças econômicas do País e, justamente por sua dimensão, deverá assumir protagonismo na construção de respostas para desafios relacionados à segurança hídrica, energética, climática e alimentar.

Essa convergência também poderá ser determinante para a posição brasileira no comércio mundial. Em um cenário no qual rastreabilidade, origem dos produtos, emissões de carbono e preservação ambiental ganham peso nas relações comerciais, produzir alimentos em escala e conservar recursos naturais deixam de ser agendas necessariamente conflitantes e passam a integrar a mesma estratégia de competitividade.

Para Izabella, o Brasil já possui ativos importantes para ocupar essa posição. O desafio agora é conseguir combinar ciência, tecnologia, fiscalização eficiente, segurança jurídica e uma regulação capaz de acompanhar a velocidade das transformações globais.

A mensagem deixada durante o debate é que o País não precisa escolher entre produção agropecuária e conservação. O caminho defendido pela ex-ministra passa por combater quem atua ilegalmente, reduzir entraves para quem cumpre as regras e transformar a capacidade produtiva e ambiental brasileira em um diferencial estratégico no mercado mundial.

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