Estado registrou a espécie em 198 municípios em levantamento de 2022; produtores, caçadores e especialistas relatam dificuldades e defendem manejo contínuo para reduzir os danos
A proliferação de javalis em Minas Gerais impõe ao produtor rural um problema que ultrapassa a perda de grãos. Além dos estragos nas lavouras, os animais revolvem o solo, comprometem ambientes próximos à água e acrescentam uma preocupação sanitária às propriedades. Em Sacramento, no Triângulo Mineiro, representantes dos produtores relatam que o trabalho frequente de controladores ainda não se traduz em redução perceptível da população.
A dimensão territorial ajuda a explicar o desafio. Segundo o Sistema Faemg Senar, com base em relatório do Ibama divulgado em 2022, Minas registrava javalis em 198 municípios, ocupando a terceira posição nacional em número de cidades com ocorrência. Dessas localidades, 64 tinham prioridade ambiental extremamente alta. Os números retratam aquele levantamento e não devem ser interpretados como um censo atualizado da população em 2026.
Produtores relatam mudança de cultura e pressão nas estradas
Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Sacramento e do Núcleo dos Sindicatos dos Produtores Rurais do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, Osny Zago afirma que o problema já interfere nas decisões de plantio.
Em relato publicado pelo Sistema Faemg Senar, Zago apontou redução de 50% no plantio de milho em áreas afetadas da região e migração de produtores para o sorgo, cultura que também passou a sofrer ataques. Trata-se de uma avaliação do representante rural, sem apresentação, na publicação, de uma série estatística regional que permita dimensionar essa mudança.
Zago também relatou abates semanais realizados por dez caçadores em Sacramento, persistência dos registros por câmeras e acidentes associados à travessia dos animais em rodovias e estradas de terra.
“Nos monitoramentos com câmeras, não identificamos redução na população”, afirmou à publicação institucional.
Para a gestão da propriedade, esse cenário exige observar tanto o prejuízo imediato quanto sua repetição ao longo das safras. Uma lavoura danificada pode significar menor receita, necessidade de replantio e mudança no planejamento produtivo. A dimensão econômica, porém, precisa ser calculada em cada área: relatos locais não permitem estabelecer um percentual único de perda para todo o estado.
Por que os abates não comprovam controle da população
O javali reúne características que dificultam intervenções pontuais. Segundo o Manual de Boas Práticas para o Controle de Javali, disponibilizado pelo Ibama, as fêmeas podem começar a se reproduzir entre seis e dez meses de idade. A reprodução pode ocorrer durante todo o ano, chegando a duas vezes anuais, conforme a região e a disponibilidade de recursos.
O documento descreve grupos de fêmeas e filhotes com, em média, 12 a 24 animais. Também orienta que, em ambientes favoráveis à reprodução, o manejo considere fêmeas adultas, juvenis e filhotes para afetar o crescimento populacional.
A consequência prática é que contar animais abatidos e medir redução populacional são tarefas diferentes. A retirada de indivíduos precisa ser confrontada com monitoramento da presença dos animais e dos danos, ao longo do tempo.
No Fórum Javali, realizado em São Paulo em 15 de setembro de 2026, o especialista da CNA Julio Daniel do Vale defendeu estratégias conforme a situação de cada território: prevenção onde a espécie ainda não está presente, erradicação em áreas de baixa densidade e contenção acompanhada de análise dos danos onde há alta concentração.
“O controle do javali exige uma estratégia contínua e adequada à realidade de cada região”, afirmou.
Caçadores cobram condições para atuar no campo
As dificuldades operacionais também foram levadas ao Congresso. Em audiência da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, em 27 de agosto de 2025, Silvio Girardi, apresentado como controlador registrado e secretário de Administração de Ponte Alta, em Santa Catarina, relatou trabalho voluntário e dificuldades documentais para atender propriedades.
“As equipes estão tentando, na medida do possível, fazer o controle, mas está difícil”, declarou, conforme as notas taquigráficas da sessão.
Na mesma audiência, Rafael Augusto Salerno, presidente da Associação Brasileira de Caçadores Aqui Tem Javali, destacou o papel dos produtores e controladores no fornecimento dos registros que alimentam os sistemas oficiais. Também defendeu maior participação de estados e municípios na organização do manejo.
Os depoimentos mostram a cobrança de quem executa o controle, mas são registros daquela audiência, em 2025; não constituem uma atualização dos procedimentos administrativos vigentes.
O próprio Ibama informa que os interessados devem cumprir as etapas de cadastro, regularidade e autorização pelo Sistema Integrado de Manejo de Fauna — Simaf, além de apresentar relatórios das ações realizadas. A autorização ambiental integra o processo e não substitui as demais exigências aplicáveis à atividade.
Pesquisa da Embrapa mostra diferenças entre as áreas
Uma contribuição para compreender o problema vem do estudo Densidade populacional e área de vida de javalis em áreas estratégicas para vigilância e defesa agropecuária, publicado pela Embrapa Suínos e Aves em 2023.
Assinado por Virgínia Santiago Silva, Marcos Adriano Tortato e Carlos Henrique Salvador, o trabalho encontrou densidades médias entre 3,5 e 10,9 javalis adultos por quilômetro quadrado nas áreas pesquisadas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, com amostragens realizadas entre 2020 e 2022.
Esses resultados não estimam a população de Minas Gerais. Seu valor está em demonstrar a importância de medir as condições de cada território. Os autores apontam que informações sobre densidade, deslocamento e uso do ambiente ajudam a planejar tanto o controle quanto a vigilância sanitária.
A escolha do método também exige avaliação. Em reportagem de ((o))eco publicada em 2023, o ecólogo e manejador Felipe Pedrosa, da empresa Mão na Mata, destacou a importância de alcançar os indivíduos que sustentam as futuras populações.
“A eliminação de fêmeas e filhotes é importante para o controle populacional”, explicou.
A reportagem registrou limitações para o uso de armadilhas em pequenas propriedades, incluindo disponibilidade de espaço, custos e situações em que o imóvel é apenas passagem dos animais. Isso reforça a necessidade de adaptar o manejo à paisagem e à realidade do produtor.
O prejuízo também alcança a água e a fauna
O hábito de revolver a terra amplia os efeitos da espécie para além da lavoura. O manual disponibilizado pelo Ibama relaciona entre os impactos erosão, assoreamento de rios, redução da qualidade da água de nascentes e destruição de habitats e ninhos. A alimentação diversificada inclui ovos e filhotes de aves que fazem ninhos no solo.
Em Minas, Zago relatou danos à vegetação na Serra da Canastra e alterações em um córrego de Sacramento. Essas ocorrências foram apresentadas pelo dirigente rural e reproduzidas pelo Sistema Faemg Senar; devem ser tratadas como relatos atribuídos, sem substituírem uma avaliação técnica específica dos locais.
Vigilância sanitária exige separar risco de doença confirmada
A peste suína africana — PSA é uma das principais preocupações associadas aos suínos de vida livre. Entretanto, a presença de javalis não significa que exista circulação do vírus nas propriedades afetadas.
O Brasil foi declarado livre da doença em 1984, conforme material do Ministério da Agricultura. A PSA acomete suínos domésticos e javalis e não é transmitida às pessoas. A preocupação é prevenir sua introdução e eventual disseminação entre animais suscetíveis.
Para o produtor, as orientações oficiais incluem impedir contato entre suínos domésticos e animais de vida livre, proteger a criação e comunicar ocorrências ao serviço veterinário oficial. O material do Ministério também destaca a participação dos controladores na vigilância e orienta que javalis encontrados mortos não sejam transportados ou manipulados antes da comunicação ao serviço responsável.
Uma resposta que precisa alcançar propriedades vizinhas
A pressão sobre Minas faz parte de um problema mais amplo. Levantamento da Faesp com 76 sindicatos rurais paulistas encontrou presença de javalis nas lavouras em 85,5% das regiões representadas pelos respondentes. O percentual descreve aquela pesquisa e não corresponde à proporção de municípios brasileiros afetados.
No fórum realizado em setembro, a diretora de Biodiversidade e Florestas do Ibama, Livia Martins, destacou a necessidade de melhorar o conhecimento sobre a distribuição da espécie.
“Hoje temos uma plataforma que é declaratória”, afirmou, ao informar que o órgão desenvolvia uma nova ferramenta para representar melhor a situação nacional.
O documento final do encontro defendeu uma política pública integrada, participação dos produtores, monitoramento contínuo e decisões apoiadas em conhecimento científico.
Para Minas Gerais, essas diretrizes oferecem um critério concreto de avaliação: acompanhar se o manejo está reduzindo a presença dos animais e os prejuízos nas áreas atendidas. O esforço dos controladores precisa fazer parte de uma atuação contínua, com informação compartilhada entre propriedades, entidades rurais e órgãos públicos, para que o produtor consiga planejar a próxima safra com maior segurança.
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