Balanço oficial atualizado em 17 de setembro mostra avanço da doença em bovinos e ovinos; outras 1.616 propriedades na Grã-Bretanha têm ocorrências suspeitas ainda sob investigação
A língua azul no Reino Unido já foi confirmada em 1.338 propriedades na temporada 2026/27, segundo o balanço mais recente do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra) e da Agência de Saúde Animal e Vegetal (APHA). Os registros estão distribuídos entre 1.172 propriedades na Inglaterra, 135 no País de Gales e 31 na Escócia. A Irlanda do Norte não registra casos na atual temporada.
O dado representa uma forte expansão em relação à temporada anterior. Entre julho de 2025 e junho de 2026, a Grã-Bretanha contabilizou 348 propriedades afetadas. Na temporada 2024/25 haviam sido 163 casos. O ciclo atual começou em 10 de julho e, em pouco mais de dois meses, já superou com ampla margem os números dos dois períodos anteriores.
Língua azul no Reino Unido avança enquanto 1.616 suspeitas são investigadas
Além dos casos confirmados, 1.616 possíveis ocorrências estão sob investigação na Grã-Bretanha. Segundo as autoridades, são propriedades onde foram observados sinais clínicos suspeitos, mas cujos responsáveis ainda não haviam recebido o resultado dos testes na atualização de 17 de setembro. Portanto, esse total não deve ser interpretado como número de casos confirmados.
Somente em 16 de setembro, a Inglaterra acrescentou 64 propriedades ao balanço. Dessas, 61 tiveram confirmação laboratorial de BTV-3, o sorotipo 3 do vírus da língua azul: 48 casos envolveram ovinos e 13, bovinos. Outros três registros — dois em bovinos e um em ovinos — foram formalmente confirmados após diagnóstico clínico, mas ainda apareciam sem sorotipo especificado no levantamento oficial.
Na mesma data, o País de Gales confirmou um novo caso em ovinos em Powys, enquanto a Escócia registrou outro em Dumfries and Galloway. Entre as espécies que já apresentaram resultado positivo desde julho estão ovinos, bovinos, alpacas, lhamas e caprinos.
O avanço britânico ocorre meses depois de a doença voltar a chamar atenção também na Irlanda. Em janeiro, uma infecção em bovinos no condado de Wexford ampliou a preocupação com a circulação do vírus na região.
Por que a doença está avançando
A língua azul é uma doença viral que atinge ruminantes domésticos e selvagens. Diferentemente de enfermidades transmitidas diretamente entre os animais, sua principal forma de disseminação ocorre por meio de pequenos insetos hematófagos do gênero Culicoides, popularmente chamados de mosquitos-pólvora ou maruins.
O Defra informa que esses vetores voltaram a ficar ativos no Reino Unido em 31 de março de 2026. As temperaturas permaneceram suficientemente altas em várias regiões britânicas e do norte da Europa para permitir o desenvolvimento do vírus dentro dos insetos e a transmissão entre animais. Atualmente, o governo britânico classifica como médio o risco de introdução da língua azul considerando todas as rotas e confirma que há transmissão em andamento.
Em agosto, as autoridades veterinárias relacionaram o crescimento das infecções às condições quentes e úmidas, favoráveis à multiplicação e à atividade dos Culicoides. Isso ajuda a explicar por que a evolução da doença pode variar ao longo do ano conforme temperatura, umidade e presença dos vetores.
Ovinos tendem a apresentar sinais mais evidentes
Os efeitos da doença variam conforme a espécie, a cepa viral e o animal infectado. Os ovinos geralmente apresentam manifestações clínicas mais evidentes do que os bovinos, segundo a orientação veterinária oficial britânica.
Entre os sinais descritos em ovelhas estão febre, feridas e úlceras na boca e no nariz, secreções, salivação excessiva, inchaço dos lábios, língua, cabeça e pescoço, claudicação e dificuldade respiratória. A infecção também pode estar associada a abortos, deformidades fetais e natimortos.
Nos bovinos, parte das infecções pode ocorrer com sinais discretos ou pouco perceptíveis. Quando há manifestação clínica, podem ocorrer febre, lesões, inchaço, queda na ingestão de alimento, problemas reprodutivos e redução da produção de leite.
Um estudo publicado em 2026 com dados de aproximadamente 13,5 mil rebanhos leiteiros dos Países Baixos avaliou os efeitos da epidemia de BTV-3 de 2024. Os pesquisadores encontraram aumento da mortalidade de animais jovens em rebanhos não vacinados e melhor desempenho produtivo entre determinados grupos vacinados de forma completa e no período adequado. Os resultados são referentes ao cenário holandês e não podem ser automaticamente extrapolados para propriedades britânicas, mas reforçam o potencial de impacto produtivo do BTV-3.
Reino Unido muda estratégia diante do volume de casos
Com a multiplicação das notificações, o governo britânico anunciou em 11 de setembro uma mudança no processo de diagnóstico na Inglaterra. Veterinários particulares passaram a poder reconhecer clinicamente ocorrências com sinais claros da doença após examinar os animais, com a confirmação formal posteriormente realizada pela APHA.
A medida busca reduzir o tempo de espera quando o quadro é considerado compatível com língua azul. Isso não elimina os exames quando existe dúvida diagnóstica ou quando outras enfermidades de notificação obrigatória, como a febre aftosa, não podem ser descartadas.
A vacinação também ocupa papel central na estratégia britânica. Existem atualmente três vacinas contra o BTV-3 autorizadas no Reino Unido: Bluevac-3, BULTAVO 3 e Syvazul BTV 3. Os produtos dependem de prescrição veterinária e o governo recomenda que produtores discutam com o profissional responsável a necessidade de imunização de cada rebanho.
Restrições interferem na movimentação de animais
O avanço da língua azul também trouxe consequências para o trânsito pecuário. Toda a Inglaterra e todo o País de Gales estão atualmente dentro de zonas de restrição, assim como uma área do sudoeste da Escócia ao redor de Dumfries and Galloway.
Dentro da Inglaterra, os animais podem ser movimentados sem licença específica para língua azul e sem testes prévios, desde que sejam cumpridas as condições estabelecidas pela licença geral vigente. Já deslocamentos para áreas livres da doença na Escócia estão sujeitos a regras próprias e, dependendo da categoria animal, podem envolver vacinação, testes ou outras exigências sanitárias.
As restrições também alcançam produtos germinais, como sêmen, óvulos e embriões, porque existem outras vias possíveis de transmissão além dos insetos. A Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH) registra que o vírus pode ser encontrado no sêmen de animais infectados e também atravessar a placenta, embora essas vias tenham menor importância epidemiológica do que a transmissão pelos Culicoides.
Para o produtor, isso significa que os efeitos de um surto ultrapassam as perdas clínicas. Custos com vacinação, exames, atendimento veterinário, limitações de movimentação e possíveis impactos reprodutivos e produtivos passam a fazer parte do manejo em regiões afetadas.
Apesar dos impactos sobre a pecuária, a língua azul não infecta seres humanos e não representa risco à segurança dos alimentos. Carne e leite permanecem seguros para consumo, de acordo com as autoridades britânicas e a WOAH.
Com 1.616 propriedades ainda sob investigação, o balanço britânico poderá mudar à medida que novos resultados forem concluídos. A evolução da transmissão também dependerá da atividade dos vetores e das condições meteorológicas nas próximas semanas, enquanto produtores e autoridades mantêm atenção sobre vacinação, sinais clínicos e movimentação dos rebanhos.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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