Lula cita soja e milho e diz que Brasil precisa ir além das commodities para ganhar competitividade

Em entrevista à TV Globo, presidente e candidato à reeleição defendeu um Brasil exportador de tecnologia e conhecimento; dados oficiais mostram, porém, que soja e milho seguem entre os principais motores das vendas externas, enquanto a transformação proposta depende de investimentos, industrialização e políticas ainda em construção

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, colocou soja, milho e minério de ferro no centro de uma discussão sobre o futuro da economia brasileira ao defender que o país avance da condição de grande fornecedor de matérias-primas para uma posição de maior protagonismo na produção e exportação de tecnologia, inteligência e produtos de maior valor agregado.

A declaração foi feita durante sabatina à TV Globo nesta quinta-feira (27), quando Lula apresentou parte das prioridades que pretende perseguir caso conquiste um quarto mandato. A proposta inclui investimentos em educação e tecnologia, inteligência artificial, minerais críticos e terras raras, além de uma tentativa de ampliar a transformação industrial de recursos produzidos no próprio Brasil.

No encerramento da entrevista, Lula resumiu a ambição.

“Eu quero que o Brasil seja exportador de inteligência e de conhecimento.”

Na sequência, afirmou não querer que o país continue exportando apenas minerais, minério de ferro, soja e milho, embora tenha ressaltado que essas commodities são importantes para a economia brasileira.

A fala coloca sobre a mesa uma discussão antiga — e particularmente relevante para o agronegócio: como agregar mais valor àquilo que o Brasil já produz em grande escala?

Soja continua sendo uma potência da balança comercial

A realidade atual mostra o tamanho do desafio — e também por que qualquer estratégia de transformação econômica terá de conviver com a força das commodities.

Dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que o Brasil exportou US$ 35,01 bilhões em soja entre janeiro e julho de 2026, alta de 15,3% em relação aos US$ 30,36 bilhões registrados no mesmo período de 2025.

Foram aproximadamente 83 milhões de toneladas embarcadas em sete meses. Sozinha, a soja respondeu por cerca de 16% de todas as exportações brasileiras em valor no período.

O milho também manteve presença importante. As exportações do cereal somaram US$ 2,21 bilhões entre janeiro e julho, avanço de 11,7% sobre igual intervalo de 2025.

Os números preliminares de agosto reforçam o peso do campo. Até a última atualização disponível, a agropecuária havia movimentado aproximadamente US$ 5,2 bilhões em exportações no mês, dos quais US$ 3,08 bilhões vieram da soja e US$ 745 milhões do milho.

Ou seja, soja e milho não representam uma atividade econômica periférica da qual o Brasil possa simplesmente se afastar. São componentes relevantes da geração de divisas, da balança comercial e das cadeias produtivas nacionais.

A questão levantada pela própria declaração de Lula é outra: quanto valor o Brasil consegue adicionar a essa produção antes que ela deixe o país?

Agregar valor não significa abandonar as commodities

A contraposição entre agronegócio e indústria também pode esconder uma transformação que já ocorre dentro do próprio campo.

Soja e milho podem sair do país in natura, mas também são matérias-primas para cadeias industriais extensas. A soja abastece produção de farelo, óleo, biodiesel e proteína animal. O milho, além das rações, ganhou uma nova frente de industrialização com a expansão das usinas de etanol e seus coprodutos.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre agregação de valor ganha importância para o produtor rural.

Industrializar uma commodity não necessariamente reduz a importância do agronegócio. Pode fazer exatamente o contrário: ampliar a cadeia econômica criada a partir de cada tonelada produzida.

O Brasil já possui, portanto, exemplos concretos dessa transformação. Isso é diferente, porém, de afirmar que a mudança estrutural defendida pelo candidato já aconteceu.

O que é realidade e o que ainda é promessa

Na entrevista, Lula apresentou como objetivo de um eventual próximo mandato fazer uma “revolução tecnológica” no país.

Ele citou o desenvolvimento de inteligência artificial em língua portuguesa e defendeu maior controle brasileiro sobre minerais críticos e terras raras. Também mencionou a possibilidade de utilizar essas matérias-primas para produzir no próprio país itens de maior valor agregado, como baterias, chips e celulares.

Essa parte precisa ser separada dos resultados já alcançados pelo governo.

Trata-se de uma proposta para o próximo mandato, e não de uma transformação já concluída.

No caso dos minerais críticos, existem movimentos concretos em andamento, mas a própria estrutura regulatória ainda está em construção. A Agência Nacional de Mineração lista projetos de lei que tratam de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e de regras específicas para pesquisa, mineração, beneficiamento e industrialização de terras raras.

Nesta semana, Lula também passou a pressionar pela aprovação mais rápida das novas regras para o setor diante do avanço do capital estrangeiro sobre projetos brasileiros de terras raras.

A discussão envolve bilhões de reais em investimentos e uma disputa sobre até onde deve chegar a participação do Estado no controle desses ativos e das exportações. Parte do setor privado, por sua vez, resiste a dispositivos que ampliam a capacidade governamental de interferir em investimentos e vendas externas.

Isso mostra que há uma distância entre a intenção anunciada e sua execução.

Brasil tem recursos; transformá-los aqui é o desafio

O potencial brasileiro é relevante.

Terras raras são um conjunto de 17 elementos utilizados em equipamentos eletrônicos, geração de energia e diferentes tecnologias avançadas. Minerais considerados críticos também estão associados a baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de armazenamento de energia, fertilizantes e equipamentos de alta tecnologia.

Ter reservas, contudo, não significa automaticamente dominar essas cadeias.

Pesquisa mineral, licenciamento, infraestrutura, capital, tecnologia para processamento, energia, segurança jurídica e mercado consumidor são algumas das etapas necessárias para transformar uma riqueza existente no subsolo em uma indústria competitiva.

É justamente aí que a promessa feita durante a campanha terá de ser medida caso Lula seja reeleito: não pela quantidade de minerais existentes no território brasileiro, mas pela capacidade de transformar esses recursos no país e gerar produtos de maior valor.

E onde fica o agronegócio nessa estratégia?

Para o produtor, talvez essa seja a principal questão deixada pela entrevista.

O Brasil que pretende exportar mais tecnologia não necessariamente precisa exportar menos soja, milho, carne, café, algodão ou celulose.

O desafio pode estar em fazer as duas coisas simultaneamente.

De um lado, manter competitividade como um dos maiores produtores agrícolas do planeta. Do outro, capturar uma parcela maior do valor gerado depois da porteira, seja pela produção de alimentos, proteínas, biocombustíveis, bioenergia, insumos, biotecnologia ou outras aplicações industriais.

Os próprios números de 2026 deixam evidente o tamanho do ponto de partida. Apenas a agropecuária exportou US$ 50,48 bilhões entre janeiro e julho, crescimento de 9,2% sobre o mesmo período do ano anterior.

Isso significa que qualquer projeto de desenvolvimento econômico terá de considerar o campo não apenas como fornecedor de matéria-prima, mas como parte da própria discussão sobre industrialização.

A declaração de Lula apresenta uma direção: um Brasil menos dependente da venda de produtos básicos e capaz de competir também em conhecimento e tecnologia.

O que ainda precisa ser demonstrado é como essa transformação será financiada, quais políticas efetivamente serão executadas e quanto dela poderá ser entregue em quatro anos.

Por enquanto, os dados mostram duas realidades convivendo lado a lado: o Brasil continua profundamente competitivo na produção e exportação de commodities — e ainda procura caminhos para capturar uma parcela maior do valor que elas podem gerar.

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