Aumento da mistura obrigatória para 32% reacende esperança no setor sucroenergético, porém Felippe Stelutti avalia que impacto sobre o preço do ATR deve ser limitado diante da expansão do etanol de milho
Depois de alertar para a forte queda do ATR e, posteriormente, apontar uma leve reação nos preços em junho, o engenheiro agrônomo e produtor rural Felippe Stelutti voltou a comentar um dos assuntos mais debatidos entre os fornecedores de cana-de-açúcar nas últimas semanas: afinal, o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% (E32) vai melhorar o preço do ATR?
Segundo o especialista, essa foi a dúvida que mais recebeu de produtores em suas redes sociais após o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovar a nova mistura, medida que passa a integrar a política do programa Combustível do Futuro.
A expectativa dos canavicultores é compreensível. Como o ATR (Açúcar Total Recuperável) é diretamente influenciado pelo mercado de açúcar e etanol, um aumento no consumo do biocombustível poderia, em tese, elevar a demanda pela matéria-prima e favorecer a remuneração dos fornecedores.
No entanto, para Stelutti, a realidade é mais complexa. “Esse aumento do etanol na gasolina vai favorecer o nosso setor? Vai ajudar o fornecedor de cana? Infelizmente, a resposta é que não muda tanta coisa” – ressaltou o engenheiro agrônomo.
Medida fortalece o etanol, mas oferta continua muito acima da demanda
Durante a análise, Stelutti explica que o aumento do percentual de etanol anidro na gasolina exigirá aproximadamente 1 bilhão de litros adicionais de etanol.
À primeira vista, o número parece expressivo. Entretanto, segundo ele, a produção brasileira deverá crescer em ritmo ainda maior.
Na avaliação do engenheiro agrônomo, a entrada em operação de novas usinas de etanol de milho e a expansão da produção das usinas sucroenergéticas podem acrescentar cerca de 4 bilhões de litros de etanol ao mercado nesta safra.
Em outras palavras, mesmo com o aumento do consumo provocado pela nova mistura, a oferta continuará superior à demanda.
“Vai ter muito etanol sobrando na praça. Com isso, acaba que não muda tanta coisa para o nosso setor”, afirmou.
O especialista também lembra que o governo defende a medida por reduzir a necessidade de importação de gasolina — cerca de 800 milhões de litros por ano —, ampliar o uso de combustível renovável e reforçar a segurança energética do país.
Etanol de milho passa a preocupar fornecedores de cana
Entre os comentários deixados na publicação de Felippe Stelutti, um dos temas mais recorrentes foi o avanço do etanol produzido a partir do milho.
Um produtor resumiu a preocupação de boa parte do setor em poucas palavras:
“O aumento do etanol de milho deu no meio do produtor de cana.”
A percepção não é isolada. Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma verdadeira corrida de investimentos em usinas de etanol de milho, principalmente na região Centro-Oeste. A produção, que há poucos anos era considerada complementar à da cana-de-açúcar, ganhou escala e passou a operar durante praticamente todo o ano, ampliando significativamente a oferta nacional de biocombustíveis.
Além disso, o milho apresenta algumas vantagens industriais importantes. Como pode ser armazenado por longos períodos, as usinas conseguem manter a produção contínua, sem depender exclusivamente da sazonalidade da colheita da cana. Esse crescimento acelerado tem alimentado a preocupação dos fornecedores, que enxergam uma concorrência cada vez maior pela comercialização do etanol e temem reflexos sobre o preço do ATR.
Outro produtor levantou dúvidas sobre até que ponto esse novo cenário será sustentável.
“A crise afeta de forma drástica o produtor. O etanol do milho com certeza chegou assustando, porém será que ele se sustenta nesse patamar? Pergunto porque é uma cultura que não tem a mesma robustez da cana-de-açúcar e é mais sensível aos fatores climáticos. Mas não entendo por que a conta não chega da mesma forma para as usinas. Os produtores sempre acabam pagando a conta. Assim fica mais difícil do que já é.”
O comentário também evidencia outra reclamação frequente entre os fornecedores: a percepção de que os impactos econômicos das oscilações do mercado acabam sendo absorvidos principalmente pelo produtor rural, enquanto as usinas conseguem atravessar os períodos de baixa com menor pressão financeira.
Esperança ainda permanece entre os produtores
Apesar da cautela demonstrada por Felippe Stelutti, muitos produtores seguem alimentando a expectativa de que o aumento da mistura de etanol possa representar, ao menos, o início de uma recuperação do setor.
Entre os comentários publicados no vídeo, um produtor resumiu o sentimento de esperança que ainda persiste em meio à crise.
“Tomara, Felipe. Um fio de esperança em meio ao desespero. Tudo subindo, plano de saúde um absurdo, e a cana baixando mês a mês. Quem sabe agora venha uma melhora.”
O comentário traduz o momento vivido pelos fornecedores de cana-de-açúcar. Após sucessivas quedas no preço do ATR e custos de produção cada vez mais elevados, qualquer notícia que sinalize aumento da demanda por etanol reacende a expectativa de dias melhores.
Entretanto, na visão de Felippe Stelutti, o aumento da mistura para o E32, sozinho, dificilmente será suficiente para provocar uma valorização significativa do ATR. Enquanto a expansão da oferta — especialmente impulsionada pelo etanol de milho — continuar superando o crescimento da demanda, o setor deverá seguir convivendo com margens apertadas e um cenário que exige cautela dos produtores.
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