Brotações após as chuvas, queda na oferta de forragem e presença de espécies perigosas nas pastagens exigem atenção; riscos variam entre regiões e podem ir de lesões no fígado à morte súbita
A primavera marca uma mudança importante dentro das propriedades rurais: temperaturas sobem, chuvas retornam em várias regiões e a vegetação responde rapidamente. Para o pecuarista, esse novo ciclo também exige atenção às plantas tóxicas presentes nas pastagens, porque brotações jovens, áreas pouco manejadas e piquetes com baixa oferta de capim podem aumentar a exposição de bovinos a espécies capazes de provocar intoxicações graves.
O problema não ocorre da mesma forma em todo o país. Enquanto algumas plantas aparecem ou se desenvolvem com maior intensidade após as primeiras chuvas, outras representam perigo justamente quando o pasto está escasso e os animais passam a consumir vegetação que normalmente evitariam. Identificar as espécies existentes em cada fazenda e reconhecer alterações no comportamento do rebanho é, portanto, mais importante do que associar o risco apenas a uma estação do calendário.
Plantas tóxicas na primavera exigem leitura regional do problema
O Brasil reúne diferentes biomas, regimes de chuva e sistemas de produção. Por isso, uma planta que preocupa produtores do Sul pode não ser a principal ameaça no Centro-Oeste ou no Nordeste.
No Rio Grande do Sul, a maria-mole, nome dado a plantas do gênero Senecio, permanece entre os exemplos mais relevantes. Comunicado técnico publicado em 2025 pela Secretaria da Agricultura gaúcha aponta ampla ocorrência dessas plantas e destaca que os bovinos podem ingerir o vegetal durante o outono e o inverno, período em que a oferta de pastagem natural tende a cair.
O detalhe que pode confundir o produtor é o intervalo entre consumo e doença. Os alcaloides pirrolizidínicos presentes no Senecio provocam danos progressivos ao fígado. Assim, um bovino que demonstra alterações clínicas na primavera pode ter sido exposto à planta meses antes.
A presença de diferentes plantas tóxicas para bovinos também mostra como o risco muda conforme a espécie, o ambiente e o sistema produtivo.
Maria-mole pode causar dano que só aparece meses depois
Nas propriedades pesquisadas em Eldorado do Sul em 2023, o levantamento da Secretaria da Agricultura encontrou infestação classificada como muito alta em todas as seis áreas avaliadas, com predominância de Senecio madagascariensis. Já nas propriedades de Viamão, Guaíba e Charqueadas visitadas em 2024, a intensidade variou de baixa a muito alta.
Essa diferença mostra por que o diagnóstico deve começar dentro da própria fazenda. Duas propriedades próximas podem apresentar níveis muito diferentes de infestação devido à cobertura do solo, manejo, lotação e histórico da área.
Quando ocorre a intoxicação por Senecio, o fígado sofre lesões que evoluem progressivamente. Entre as manifestações possíveis estão emagrecimento, perda de apetite, alterações digestivas e sinais neurológicos relacionados à falência hepática. Quando o quadro clínico avançado aparece, o prognóstico costuma ser ruim.
A cobertura adequada do solo também exerce papel preventivo. O estudo gaúcho relaciona áreas com menor cobertura vegetal a condições mais favoráveis para a instalação das plantas, reforçando que manejo da pastagem e controle da infestação precisam caminhar juntos.
Após as chuvas, brotações também podem representar perigo
Em outras regiões, o alerta está associado principalmente ao surgimento de folhas novas.
Estudo conduzido em Mato Grosso avaliou a ocorrência de Amorimia pubiflora, espécie relacionada a episódios de morte súbita em bovinos. Os pesquisadores observaram uma concentração maior de casos no início do período chuvoso, momento em que havia maior presença de brotações nas áreas avaliadas. Ensaios realizados no trabalho também apontaram maior toxicidade das folhas jovens em comparação às maduras.
A planta contém monofluoroacetato, composto que interfere no metabolismo celular e pode desencadear quadros de evolução rápida. Tremores musculares, alterações respiratórias, dificuldade de locomoção, quedas e morte podem ocorrer nos animais intoxicados.
Isso transforma o início das águas em uma janela particularmente importante para a vistoria do pasto em propriedades onde a espécie já foi identificada.
Cafezinho está associado a casos de morte súbita
Outra espécie que merece atenção é a Palicourea marcgravii, conhecida em várias regiões como cafezinho ou erva-de-rato.
Uma revisão científica publicada em 2025 reuniu registros de intoxicação por espécies de Palicourea em ruminantes brasileiros e confirmou a presença de casos em diferentes estados. O grupo está relacionado principalmente a episódios de morte súbita, com os bovinos entre os animais mais suscetíveis.
No caso específico da P. marcgravii, trabalho publicado em 2020 analisou surtos registrados ao longo de décadas e identificou ligação frequente com áreas de mata, capoeira e locais em regeneração após abertura de pastagens. Os sinais descritos incluem perda de equilíbrio, tremores, dificuldade respiratória e queda.
Um ponto crítico é o esforço físico. Animais intoxicados podem piorar rapidamente quando são obrigados a caminhar ou correr. Diante da suspeita, movimentar o bovino até o curral sem orientação veterinária pode aumentar o risco.
A identificação da erva-de-rato nas pastagens e seus riscos para bovinos ajuda a compreender por que áreas de mata, capoeira e regeneração merecem vistoria cuidadosa.
Samambaia exige atenção em áreas infestadas
A samambaia-do-campo, do gênero Pteridium, representa outro tipo de problema. A Embrapa Gado de Leite mantém publicação técnica dedicada à identificação da planta, às fases de desenvolvimento e às medidas de prevenção e controle em pastagens.
Diferentemente das intoxicações extremamente rápidas associadas ao monofluoroacetato, o consumo de samambaia pode estar envolvido tanto em quadros agudos quanto em consequências relacionadas à exposição prolongada.
A espécie possui rizomas profundos e capacidade de ocupar extensas áreas, característica que dificulta seu controle depois de estabelecida. Isso torna a identificação precoce da infestação especialmente importante.
Nem toda planta presente no pasto será consumida pelo gado
A existência de uma espécie tóxica na propriedade não significa automaticamente que haverá intoxicação.
O comportamento dos animais muda conforme a quantidade e a qualidade do alimento disponível. Quando há pasto suficiente, muitas plantas são pouco consumidas. Em situações de superlotação, seca, degradação da pastagem ou entrada de animais famintos em um novo piquete, porém, a chance de ingestão acidental pode crescer.
Essa dinâmica explica por que o manejo nutricional também faz parte da prevenção.
Outro ponto de atenção ocorre depois do controle de plantas daninhas. Mesmo quando uma planta começa a secar após uma intervenção, seus compostos tóxicos podem permanecer presentes. Por isso, a liberação imediata do rebanho em áreas tratadas não deve ser feita sem considerar a espécie, o método empregado e a recomendação técnica.
Casos de mortes de animais associadas a plantas tóxicas nas pastagens reforçam a importância de avaliar a oferta de forragem e as condições de manejo antes da entrada do rebanho.
Quais sinais podem indicar intoxicação
Os sintomas variam bastante e, isoladamente, não permitem determinar qual planta foi ingerida.
Entre os sinais que justificam atenção imediata estão:
- morte súbita sem causa aparente;
- tremores e perda de equilíbrio;
- dificuldade para caminhar;
- respiração acelerada;
- redução brusca do consumo;
- emagrecimento;
- diarreia;
- alterações de comportamento;
- mucosas ou pele amareladas;
- lesões cutâneas agravadas pela exposição ao sol;
- presença de sangue na urina ou outros distúrbios urinários.
Várias doenças infecciosas, metabólicas e parasitárias podem produzir manifestações semelhantes. Por isso, observar uma planta suspeita no piquete não é suficiente para fechar diagnóstico.
A investigação pode envolver histórico da área, exame dos animais, identificação botânica, necropsia e análises laboratoriais.
O que o produtor pode fazer antes de colocar o gado no piquete
A prevenção começa antes do contato do animal com a área.
Com a mudança de estação e a retomada das chuvas, vale percorrer piquetes, áreas de mata, capoeiras, cercas, baixadas e terrenos recentemente abertos. Plantas desconhecidas ou que surgiram em grande quantidade devem ser identificadas antes que o rebanho tenha acesso livre ao local.
Também é recomendável evitar a entrada de animais famintos em áreas novas. A manutenção de boa oferta de forragem reduz a pressão para que o gado experimente plantas normalmente pouco consumidas.
Quando uma espécie perigosa for identificada, o método de controle precisa considerar a biologia da planta. Roçada, retirada manual, manejo da cobertura vegetal e controle químico não têm a mesma eficiência para todas as espécies.
No caso de suspeita de intoxicação, o rebanho deve ser observado e o médico-veterinário acionado rapidamente. Se houver possibilidade de envolvimento de plantas associadas à morte súbita, movimentações desnecessárias dos animais devem ser evitadas até avaliação profissional.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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